A desmesurada riqueza do Qatar vem dos combustíveis fósseis descobertos no último século. É uma história - detalhada por Ignácio Álvarez-Ossorio no livro Qatar, La Perla del Golfo - que começa antes, em 1868, quando a família Al Thani assinou com a potência britânica um acordo para autonomia daquela península que fazia parte do Bahrein.

Em 1930, o Qatar tinha umas 10.000 pessoas, que se dedicavam à pesca e às pérolas no Golfo Pérsico e aos camelos do imenso deserto.

Em 1940, descobriram os primeiros jazigos de petróleo, e em 1971, ano da independência, os de gás. Hoje, o Qatar tem a fortuna de ser o primeiro exportador mundial de gás líquido e o terceiro país com maiores reservas de gás natural no mundo.

Com esta riqueza, a família que domina o país que tem um dos maiores rendimentos per capita no mundo decidiu desenvolver a sua identidade a partir de um desporto global de multidões: o futebol. Investiu num clube (o PSG) que recheou com os futebolistas mais de topo no mundo e tratou de manobrar para conseguir ser sede de um campeonato mundial de futebol.

Foquemo-nos nos números conhecidos sobre o custo de mundiais de futebol. A Rússia assumiu ter gasto o equivalente a uns 14 mil milhões de euros para organizar o Mundial de 2018, o mais caro até então. O Qatar chegou a anunciar a estimativa de 200 mil milhões para montar este Mundial de 2022. Os desvios entretanto apurados apontam para pelo menos 300 mil milhões.

O Qatar é um pequeno país (tem o tamanho do Baixo Alentejo) árabe com 2,7 milhões de pessoas em que 80% reside na capital, a cidade-estado de Doha.

Esta população tem agora sete espetaculares novos estádios que custaram, no orçamento inicial, 6,6 mil milhões de euros.

Os 200 mil milhões de dólares no orçamento inicial associado ao Mundial incluem infraestruturas que vão perdurar, como a construção do metro que não havia, a grande ampliação do aeroporto e muitos novos e reluzentes arranha-céus que acolhem hotéis, apartamentos e escritórios.

O Qatar não estava habituado a receber turistas. Ao pretender que o Mundial marque um antes e um depois para fazer do Qatar um destino de topo no turismo de luxo.

Mas o Qatar é um país regido pela sharia (lei islâmica), embora em modo mais aberto que a vizinha Arábia Saudita, onde a liberdade de expressão enfrenta restrições, onde funciona um sistema de tutela que submete as mulheres e onde as relações homossexuais são castigadas com pena de prisão. A colossal campanha promocional que utiliza o Mundial levou o xeique a algumas concessões. Mas continua a recomendar que a comunidade LGBTQIA+ evite mostras de afeto em público e até a entrada nos estádios com símbolos arco-íris está proibida. O álcool é altamente restrito.

O Qatar investiu desmesuradamente no Mundial com a intenção de comprar boa imagem e reputação internacional. A FIFA colabora, com a certeza de o sistema que cultiva ficar mais rico.

Mas a colossal estratégia de lavagem de imagem do Qatar está cheia de falhas. Deixou que ficassem à vista alegações credíveis de corrupção e suborno. Também desrespeito por direitos essenciais, laborais e humanos.

Alguém em volta do xeique estará a constatar que talvez fosse melhor que o Qatar continuasse escondido do mundo moderno.

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