Não há como contornar esta faceta da humanidade e, por isso, tenho a maior dificuldade em aceitar ou compreender aquelas pessoas para quem a vida é maravilhosa 24 horas por dia, 365 dias por ano. Aquelas pessoas para quem está tudo bem, nada é um problema, têm solução para tudo, conselhos na ponta da língua, vontade de nos evangelizar nesta toada de ser boazinha e queridinha e tolerante e capaz de encaixar tudo.

Eu não consigo encaixar tudo e detesto pessoas moralistas cujo discurso assenta na santa paciência. Isto para dizer que me cruzei ontem à tarde como uma criatura que, além de resposta pronta, é tão sábia, tão sábia, que consegue, diz ela, tirar qualquer “má energia” de terceiros. Ora, eu que estava chateada, e legitimamente (mas não vamos entrar por aí), fiquei paralisada durante uns segundos e depois saiu-me esta frase: O que fazes quando alguém está chateado? Não chateies.

Porque não adianta ter o discurso, a teoria sabe-a toda, garanto-vos, é quase uma criatura-guru, do “vai com calma”, ou “vai passar”. Certo, já sei que o problema de hoje é o esquecimento de amanhã e o que me atormenta será superado por qualquer outra coisa. Sei isto há muitos anos, qualquer adulto, com um percurso minimamente normal, sabe que é assim, o tempo condena as nossas tristezas e aflições ao nada, ao “já passou”. Mas a criatura, irritante e de voz esganiçada, com um ar quase angélico, insistia comigo. Eu tinha de ficar “curada” do que me chateava só porque ela o entendia? Pois. Era isto. Conclusão: mandei-a bugiar, que até um mal menor, porque bugiar pode ser interessante e fui para a rua ver se há novidades substanciais sobre o coronavírus. Nisto toca o telefone, atendo e a voz do outro lado diz-me: estás chateada? E eu aos berros – mentalmente, acrescento – a dizer Larguem-me! Se isto é matéria para uma crónica quando podia escrever sobre os vírus, os isolamentos, a queda da economia, o que se está a passar na Grécia, eu não sei, mas ainda não me passou a chatice.

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