Seria natural que o novo governo em Barcelona resultasse de afinidades ideológicas, portanto, o “tripartido” das esquerdas. Juntaria partidos que são pelo diálogo. A Esquerra Republicana de Catalunya (ERC) viabiliza o governo das esquerdas (PSOE/Podemos) em Madrid. O Partido Socialista de Catalunya (PSC), extensão catalã do PSOE, defende o diálogo para tratar a questão catalã.

Mas o que está no horizonte imediato é a coligação ditada pelo ímpeto emocional da identidade catalã, sobretudo com esta eleição em que o independentismo soma a maioria de votos (o que não tinha conseguido nas anteriores eleições, em 2017) à maioria dos deputados.

O objetivo de independência da Catalunha é o único ponto comum aos dois dominantes partidos independentistas, ERC e Junts. Defendem caminhos diferentes para atingir a independência: ERC é pela negociação com o Estado central em Madrid; Junts é pelo regresso à declaração unilateral de independência, portanto, em rompimento total com Madrid – caminho que Puigdemont, líder (agora no exílio, na Bélgica) ensaiou em 2017, quando chefiava o governo catalão, e que gerou tanta tensão e violências.

Ideologicamente também tudo separa estes partidos independentistas: ERC, conforme o nome sinaliza, é um partido republicano das esquerdas, com predominância moderada; Junts per Catalunya é um partido de centro-direita, herdeiro da Convergència i Unió (CiU), federação de partidos independentistas que governou a Catalunha, em modo moderado, durante 23 anos (1980-2003), sob liderança do carismático Jordi Pujol, agora a contas com a justiça.

Junts per Catalunya nasceu da extinção, em 2015, da CiU. O fim desta federação de partidos resultou de fundas divergências internas entre os que reivindicam a independência sem demoras e os que defendem a Catalunha autónoma dentro de uma federação de países de Espanha. Surgiu e sobressaiu o partido Junts, liderado por Carles Puigdemont, que junta ideologia liberal de centro-direita com radicalismo na ânsia de independência.

As duas forças independentistas dominantes na Catalunha, ERC e Junts, têm peso eleitoral muito semelhante (à volta dos 20% cada uma) na atomizada paisagem política catalã.

A Catalunha tem 7,5 milhões de residentes, dos quais 5,6 milhões são eleitores. Nas eleições de há quatro anos, que coincidiram com intenso combate em torno da questão da independência, votou 79% do eleitorado. Agora, com a febre independentista muito moderada e com a emergência da pandemia, a percentagem de votantes baixou para 53,5%.

Tanto há quatro anos como agora, o partido mais votado é não independentista. Em 2017, foi o Ciudadanos, encabeçado pela hiperativa anti-independentista Inês Arrimadas, que recebeu 1.109.732 votos (25,3%). Agora, foi o PSC, liderado pelo ex-ministro da Saúde, Salvador Illa, com 651.027 votos (23,02%). Ambos com o maior número de votos: o Ciudadanos, em 2017, sem possibilidade de maioria coerente; o PSC, agora, com alguma possibilidade embora a prazo.

A Catalunha é vítima da lógica sectária de blocos. De um lado, a fúria independentista, que puxa para a declaração da república catalã sem qualquer negociação. Do outro, a intransigência soberanista ou espanholista que nem sequer admite a discutir consulta em referendo, como o que já aconteceu na Escócia e no Québec. É com esta incapacidade de diálogo que a questão catalã perdura, com agravamento em 2017, quando o governo Puigdemont na Catalunha avançou para a declaração unilateral de independência.

As eleições deste último domingo trouxeram alguma alteração — que abre esperança. Por um lado, a principal força independentista deixou de ser (embora pela escassa diferença de 34 mil votos) a da intransigência secessionista do Junts per Catalunya e passou a ser a dialogante da ERC.

No campo espanholista, a intransigência unitária do Ciudadanos (que cai de mais de um milhão de votos para apenas 157 mil e perde 30 dos 36 deputados que tinha) é substituída pela abertura ao diálogo do PSC que ao subir de 13 para 23% dos votos e de 17 para 33 deputados se torna força principal, a mais votada nestas eleições.

O pacto entre os independentistas barra a coabitação entre partes dos dois blocos. Mas a aritmética eleitoral permite à ERC superar esse impasse na intolerância. O quadro político dificulta à ERC sair de imediato da lógica de blocos e explorar o entendimento com o PSC que está no campo rival, embora ambos a favor da negociação.

Mas a ERC passa a ter o trunfo de uma maioria alternativa (ERC/PSC) no caso de demasiados atritos na parceria com Junts.

As tensões já estão a surgir com Junts a vetar que o En Comù, extensão catalã do Podemos, inclua o próximo governo. Oriol Junqueras, apesar de preso, condenado a 13 anos de prisão por alegada sedição, e a personagem mais política e dialogante da ERC já pediu o que o define: "responsabilidade e generosidade".

Talvez apareça no horizonte a possibilidade de convergência entre as forças (ERC e PSC) que num lado e no outro são pela negociação.

A ERC é apoio essencial para o governo das esquerdas em Madrid.

Sánchez, presidente do governo de Espanha, pode dar um passo no sentido da negociação se tiver a coragem, que parece no horizonte, de avançar com o indulto para os condenados pelo combate independentista da Catalunha.

Há para considerar nestas eleições os resultados alcançados pelo VOX (217 mil votos, 7,7%, 11 deputados) e pelo PP (109 mil votos, 3,8%, 3 deputados). Verifica-se, por um lado, que a extrema-direita também se instala na Catalunha. A quase insignificância do PP e, agora, também do Ciudadanos, deixa estes partidos sem autoridade para contestar o diálogo e os indultos que o governo Sánchez deverá propor.

O facto de haver a possibilidade de uma maioria alternativa (juntando partes dos dois lados) é uma boa notícia para quem defende a via negociada. Mas é uma má notícia para os impermeáveis num lado e no outro.

A ter em conta

A Nova Zelândia habituou-nos a decidir prontamente o que deve ser decidido.

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