Porque é que a galiña atravessa o oceano?

O meu primo Rui Pedro esteve uns tempos em serviço nas Caraíbas — sim, há quem viaje até àquelas paragens para trabalhar.

Visitou várias ilhas, entre elas Curaçau, parte do Reino dos Países Baixos.

Uma pessoa aterra numa ilha daquelas e pensa encontrar muita coisa escrita em holandês, pois então. Talvez também em inglês ou, quem sabe, francês...

Ora, o que o meu primo não esperava era chegar a um restaurante e ver anunciado um prato de... «galiña»! Repare o leitor: o «ñ» poderá confundir-nos, mas é «galiña», não é «pollo»... E há mais...

Na primeira frase de fundo branco, aparece um estranho «porfabor». Sim, por favor, tenha o recibo «na man»!

Como o meu primo conhece as minhas inclinações linguísticas, tirou fotos às estranhas palavras caribenhas e mandou-me para eu ver.

Fiquei curioso e fui investigar. Descobri que estava perante o papiamento, que é língua oficial em Curaçau (em conjunto com o holandês e o inglês).

Aquelas palavras são, indubitavelmente, familiares. Um website do governo da ilha afirma isto: «Gobièrnu ke stimulá nos tur pa yuda otro kuida e sentido nashonalista i di patriotismo pa ku nos bandera ku ta un símbolo sagrado di nos Pais.» Não se percebe tudo, mas ficamos a saber que aquele governo quer estimular o patriotismo — e a bandeira é um símbolo sagrado.

Galegos nas Caraíbas?

O papiamento escreve-se com duas ortografias... Em Curaçao, usa-se uma ortografia de base fonética. Já noutras ilhas (como Aruba), usa-se uma ortografia mais etimológica e próxima da ortografia espanhola. O meu primo brincou: com tanta palavra portuguesa escrita à espanhola, até parece que as ilhas foram colonizadas por galegos...

Bem, galego não é. O papiamento é um crioulo, uma língua criada através do contacto de duas ou mais línguas. Há crioulos em muitos lugares do mundo — e que ninguém insinue que estas são línguas menores ou menos genuínas. A designação «crioulo» descreve apenas o modo de criação da língua. Há até quem diga que o inglês é um crioulo nascido do contacto entre a língua dos anglo-saxões e a dos viquingues (e, mais tarde, dos normandos). Mas não importa: muitas línguas nascem assim e este modo de formação não tem nada de redutor. O papiamento é uma língua tão completa e genuína para os seus falantes como o português o é para nós.

Mas donde vem esta língua?

Como acontece em muitos outros casos, não se sabe muito bem qual é a origem concreta deste crioulo em particular. Quando alguém começou a escrever em papiamento, já as gerações que o tinham criado tinham desaparecido muitos séculos antes.

É relativamente óbvio que a origem de grande parte do vocabulário é ibérica — mas não há certezas para além dessa. Há indícios de que a base é portuguesa, com influências espanholas e de outras línguas (incluindo o holandês). Um dos indícios é a proximidade gramatical ao crioulo cabo-verdiano, que ninguém acha ter alguma coisa que ver com o espanhol.

Ora, aqui dou um salto. Este facto delicioso sobre as línguas do mundo ajuda-nos a ver como cada país vê o mundo à sua maneira — por vezes, de forma muito subtil.

O leitor que queira saber mais sobre este crioulo pode rumar à Wikipédia portuguesa. A língua é descrita assim: «O papiamento é uma língua crioula derivada do português e de línguas africanas, com algumas influências de línguas indígenas da América, inglês, neerlandês e espanhol.» A base é portuguesa. As outras influências são apenas isso: influências. O espanhol, esse, está no fim da lista.

Rumemos agora à Wikipédia castelhana. Aqui está a descrição do papiamento (em espanhol, no original): «Trata-se de uma língua crioula. É provável que o seu léxico provenha principalmente do espanhol, à mistura com palavras de origem portuguesa, indígena e de diversas línguas africanas.» A enciclopédia virtual dos nossos vizinhos continua, explicando que o papiamento «tem por base um crioulo africano-português levado para o outro lado do oceano pelos escravos e reforçado pelos judeus sefarditas que saíram dos enclaves holandeses do Brasil».

Bem, se virmos bem, os factos são parecidos nas duas versões: até os espanhóis apontam para os crioulos africanos de base portuguesa. Mas a versão portuguesa sublinha a origem portuguesa, enquanto a espanhola repara em primeiro lugar no léxico espanhol.

Nada a dizer: fazemos isto todos os dias. Aquilo em que reparamos, a maneira como contamos os mesmos factos — tudo depende muito da nossa perspectiva. Este facto da vida, multiplicado por séculos e séculos, leva a histórias contadas de maneira diferente dos dois lados da fronteira.

Não confundamos, no entanto, isto que acabei de dizer com alguma espécie de «vale tudo». Os factos existem... Por exemplo, sobre o papiamento podemos dizer com segurança que é uma língua com uma intrigante proximidade às nossas línguas ibéricas, com uma história que passa pelas conversas dos escravos, dos judeus sefarditas fugidos do Brasil, da mistura de europeus, africanos e nativos americanos.

Uma língua fascinante que nós, portugueses do século XXI, conseguimos compreender às apalpadelas — e que nos lembra quão complicada, obscura e enredada foi a nossa História.

E pronto: o meu primo encontrou uma galiña num restaurante e acabámos todos por encontrar umas quantas palavras de sabor português e roupa tropical numa ilha das Caraíbas.

Marco Neves | Tradutor e professor. Autor do livro A Incrível História Secreta da Língua PortuguesaEscreve sobre línguas, livros e outras viagens no blogue Certas Palavras.

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