Em todo o caso, interessa-me contribuir para o debate em torno das semelhanças gritantes entre o tema apresentado na meia-final do último domingo por Diogo Piçarra, vencedor da edição dos Ídolos de 2012 e portador de bilhete de época nas rádios mainstream nacionais, intitulado “Canção do Fim”, com um cântico denominado “Abre Os Meus Olhos”, da autoria de um pastor da Igreja Universal do Reino de Deus, uma denominação cristã evangélica neopetencostal e também um supermercado de filhos.

As parecenças entre as melodias das duas canções são óbvias para quase toda a gente que as tenha ouvido. Naturalmente, resta agora especular se estamos na presença de um plágio ou não. Na minha opinião, é muito pouco provável. Seria inaudito que um cantor pop de 2018 se apoderasse, de propósito, da melodia de uma malha evangélica de 1979. O plágio implica dolo, e o único dolo que estará relacionado com a música de Piçarra não me parece estar na criação, mas na sua adjetivação. A música é dolo-rosa, não terá sido composta de má-fé. No entanto, só isso não chega para a ilibar de falta de originalidade.

Tal como à mulher de César, a uma música não basta ser original, tem de parecer original. A autenticidade, na arte, deve ser primordial. A mera hipótese de algo não ser efetivamente, mas “parecer” copiado, deve ser motivo para o artista colocar em causa se realmente deseja ficar associado à suspeita de falta de frescura. A ideia de que “já está tudo inventado” não satisfaz. Se todas as melodias pop já estão exploradas, cada vez mais os artistas têm a obrigação de se exceder na singularidade das suas produções, sob pena de se tornarem robots de entretenimento ao invés de criadores.

Como produtor de conteúdos, já me aconteceu produzir um vídeo que tinha muitas semelhanças com outro, produzido anteriormente. Fui alertado para as parecenças e decidi apagá-lo das plataformas onde o incluíra, ainda que estivesse ciente de que pudesse ser uma coincidência. Os artistas têm de ter a consciência tranquila de que a sua capacidade criativa não se cinge a um único trabalho. Logo, devem assumir-se eles próprios com defensores do bastião da originalidade e ser os primeiros a ter a iniciativa de não querer o seu nome ligado à ideia de fotocópia.

Acredito que Diogo Piçarra dê mais valor ao reconhecimento geral e duradouro do seu talento do que a um festival onde se pontua arte. Para mim, desistir do festival de livre vontade é a melhor jogada de gestão de carreira que pode tomar neste momento. Desse modo, não permitirá que subsistam dúvidas em relação à sua integridade criativa nem que pairem suspeitas de falta de originalidade. Diria que é uma solução bem melhor do que assobiar para o lado. Caso opte mesmo pelo referido assobio lateral, que escolha agora uma melodia inédita.

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