Quando a Rússia ocupou a península da Crimeia, em 2014, ninguém faz nada. Quer dizer, houve protestos internacionais, de governos, ONGs e todos os organismos que se sentiram ultrajados, mas a Ucrânia não estava em condições militares de a recuperar, já embrulhada com os movimentos separatistas nos oblasts (províncias) do leste do país, e a “questão Crimeia” tinha um historial complicado que não justificava a atitude russa, mas explicava-a.

A península fora originalmente o território da nação tártara, relativamente autónomo. A União Soviética anexou a Ucrânia em 1922, depois de uma breve independência proclamada em 1917. Uma das selvajarias de Estaline incluiu a Crimeia: deportou todos os tártaros — todos, mesmo, em três dias — para outras regiões da URSS e colocou lá russos e ucranianos. A península passou a fazer parte da Rússia. Depois, em 1954, Nikita Khrushchev, diz-se que alcoolizado, resolveu sem razão aparente entregar a Crimeia à Ucrânia — o que na altura era mais uma diferença administrativa, uma vez que tudo fazia parte do mundo comunista. A história, muito mais complexa do que este resumo, está toda aqui.

Então, em 2014, o que parecia ser um tique revanchista de Putin não foi considerado como o início do que viria a seguir, declarado em 2022 pelo próprio ditador: a Rússia haveria não só de reconstituir o território da antiga URSS, como estender o Império que lhe era devido, pela História (!) e pela ordem natural das coisas (!!!) de Vladivostok a Lisboa.

O projecto megalómano começou pelo princípio: acabar com a Ucrânia que, segundo ele, era parte integrante do território russo; os ucranianos não eram um povo diferente dos russos, a independência resultante dum referendo, em 1991, não tinha qualquer valor. Além disso, o país continha uma mistura surreal de nazis e judeus, duas espécies a serem sumariamente eliminadas.

O facto é que ninguém acreditou nas diatribes de Putin, até ele juntar cerca de 300 mil militares nas fronteiras da Ucrânia (com a Rússia e Bielorrússia, um estado vassalo) nos finais de 2021. As forças armadas ucranianas, com menos de 200 mil efectivos e equipadas com material de guerra russo dos tempos da URSS, não pareciam ter qualquer possibilidade de se defender. Tanto que as primeiras divisões russas, que atravessaram a fronteira a 14 de Fevereiro de 2022, levavam consigo uniformes de parada para desfilarem vitoriosamente nas avenidas de Kiev três dias depois.

Surpresa das surpresas, correu tudo mal. Os russos tiveram problemas tácticos, estratégicos e até de corrupção (Os equipamentos e fornecimentos eram de má qualidade, devido às “luvas” pagas pelos fornecedores militares). Os serviços de informação russos, ainda viciados na burocracia soviética, tinham feito previsões ufanistas duma vitória rápida. 

Os ucranianos, unidos pela aflição, montaram uma resistência de guerrilha com os poucos meios de que dispunham. A gigantesca coluna russa que apontava como uma flecha em direcção a Kiev ficou parada no meio do caminho por falta de abastecimento (um tanque, conforme o modelo, gasta cerca de 10 litros do combustível por quilómetro), dando oportunidade a pequenos comandos ucranianos de destruir muitos veículos e parar os outros. Kiev não caiu em três dias, nem numa semana, nem nunca; a 2 de Abril os russos começaram a fazer marcha atrás. Ocuparam muitas localidades à volta da capital (onde cometeram atrocidades contra a população civil) e uma boa parte das províncias do nordeste, para criar um corredor por terra com a Crimeia, mas foi o máximo que conseguiram.

Esta é uma breve história dos acontecimentos iniciais. Entre muitos outros efeitos desta operação quase ridícula — se não fosse trágica — pode apontar-se o renascimento da NATO (que era uma entidade virtual desde a queda da URSS, em 1989), a consciência de que as forças armadas russas não passam dum tigre de papel, e a constatação de que os ucranianos são extremamente resilientes e expeditos a defender a sua terra.

Entramos agora na saga dos equipamentos militares. A NATO, renascida instantaneamente do esquecimento, percebeu que o que está em jogo não é só a independência da Ucrânia mas também a manutenção das liberdades e modo de vida da Europa; se a Ucrânia for derrotada, nada impedirá o ditador de avançar para o próximo país, e depois para o seguinte, até chegar a Lisboa. (Sim, é impossível, mas decerto que a cada vitória ele se sentirá reforçado para a vitória seguinte.) Tornou-se evidente que os ucranianos, por mais corajosos que fossem, nada poderiam fazer sem fornecimentos de todos os tipos — armas modernas, munições com sistemas electrónicos, redes de comunicações, equipamentos de protecção pessoal, geradores portáteis, refeições de combate e tudo mais que é preciso para se defender e atacar. 

A grande questão, colocada logo ao princípio e que continua a complicar as entregas, é saber até que ponto os fornecimentos ocidentais podem ser considerados pelos russos como uma participação activa na guerra. Ou seja, a NATO quer participar, mas não quer ser considerada participante, uma vez que não se sabe qual é a “linha vermelha” — aquele ponto em que Putin acha que está em guerra com a Europa e Estados Unidos e portanto pode usar todos os meios, especialmente os atómicos.

Muito se tem discutido o assunto, e há precedentes a considerar; caças russos mataram muitos americanos na Coreia, armas americanas abateram muitos caças russos na primeira guerra do Afeganistão (entre afegãos e soviéticos), entre outros casos. Há uma diferença entre fornecer equipamentos e mandar homens. Mas entre os equipamentos também há distinções; por exemplo, os ocidentais não querem fornecer nenhum material que permita aos ucranianos atingir alvos dentro do território russo. Também não lhes agrada fornecer aviões ocidentais que possam enventualmente ter de enfrentar aviões russos nos ares da Ucrânia.

Onde estão os limites? Um, mais evidente, é entre armas defensivas e ofensivas. Mandar escudos (sob a forma de mísseis anti-mísseis) não é o mesmo que mandar lanças (mísseis de longo alcance). Artilharia defensiva e transportes blindados não é o mesmo que tanques, uma arma obviamente ofensiva.

Aos poucos, o ocidente tem fornecido armas defensivas cada vez mais eficazes, mas sempre em quantidades inferiores às necessidades. Andam pelos campos ucranianos HIMARS que têm causado grandes estragos aos russos. E está prometida uma bateria Patriot, que abate os mísseis russos dirigidos às estruturas civis.

Ainda há duas semanas, o general ucraniano Valery Zaluzhny apresentou a sua lista de desejos: 300 tanques, 600 a 700 transportes de infantaria blindados, 500 howitzers (peças de artilharia).

Quanto ao restante material, tem sido fornecido com limitações, como, por exemplo, munições de longo alcance, que podem bombardear dentro do território russo; o ponto de contenção está nos tanques.

À Ucrãnia não basta defender-se; também precisa de atacar, para reocupar os territórios perdidos e dar aos russos a lição que merecem.

Os tanques ocidentais são nitidamente superiores aos tanques russos que os ucranianos têm usado até agora (ora do seu arsenal, ora tomados aos russos e recuperados). Neste momento — a situação muda semanalmente — os americanos estão a enviar 50 Bradleys e Humvees, os franceses AMX-10 RCs, os ingleses Stormers, os alemães Marders. São todos blindados para protecção de infantaria, com uma metralhadora ou um canhãozito na torre, mas não são tanques.

O melhor tanque do mundo, dizem os especialistas, é o alemão Leopard II, que combina blindagem com um composto de titânio, capacidade de andar e manter o alvo dos disparos ao mesmo tempo, e possibilidade de encontrar alvos por GPS e defender-se de drones e rockets. Um monstro de tecnologia, que custa cerca de 20 milhões de euros. (O custo não é problema, nesta altura dos acontecimentos). Logo a seguir, ainda segundo a opinião dos especialistas, vem o Abrams americano, mais pesado mas igualmente letal. No Iraque, desfizeram os T72 russos sem problemas. O T72, disse um observador bem humorado de que perdemos o link, “é o Toyota Corolla dos tanques”. Entrou ao serviço na década de 1970 e é o básico dos russos na Ucránia, onde já perdeu 5.538 unidades, segundo o blogue Oryx, que tem vindo a registar as baixas russas desde o início do conflito.

O Leopard II faz parte das forças armadas de vários países da NATO, inclusive da Polónia, que já os ofereceu à Ucrânia. Mas qualquer envio tem de ter autorização do governo alemão, e o governo alemão não consegue livrar-se da má consciência da II Guerra Mundial. Ver novamente tanques germânicos a galope pelas planícies da ex-URSS parece que os deixa desconfortáveis. Este desconforto manifesta-se tanto em discussões intermináveis entre as autoridades alemãs como entre o ultra-conservador governo polaco, que também não se esquece de 1939. Até já levou à demissão da ministra da Defesa alemã, Christine Lambrecht.

Enquanto isto, os ucranianos desesperam. E não é apenas por motivos sentimentais; segundo as estatísticas da ONU, a guerra causou até agora a fuga de mais de 14 milhões de pessoas — 6,5 milhões de deslocados internos e mais de 7,9 milhões para países europeus – a pior crise de refugiados na Europa desde a II Guerra Mundial. 17,7 milhões de ucranianos precisam de ajuda humanitária e 9,3 milhões necessitam de ajuda alimentar e alojamento.

E voltamos ao princípio: qual o limite da ajuda que a Europa, os Estados Unidos, os países da NATO (inclusive Portugal) podem dar à Ucrânia que não faça Putin, ou os falcões ainda piores do que ele que pululam no Kremlin, perder a cabeça e começar a mandar ogivas nucleares táticas?

Há quem ache que a Rússia não deve ser apenas derrotada, mas também humilhada. Mas há quem lembre que a humilhação da Alemanha em 1918 levou o nazismo ao poder. 

Pois, há muita coisa a dizer, a considerar. Enquanto matutamos, todos os dias morrem dezenas de russos e ucranianos numa guerra que não faz nenhum sentido.

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