Quem é que sabe o que são os K-pop stans? E quem costuma frequentar o TikTok? Ao contrário do Facebook, Google e outras marcas universais, estes nomes só interessam a uma faixa etária bastante nova – entre os 16 e os 24 anos, digamos. Mas são cerca de centenas de milhões, nada menos. Para perceber, é melhor ir por partes.

TikTok é uma rede social, semelhante ao Instagram, originariamente chinesa, mas que, entretanto, se espalhou pelo mundo. Lançada em 2016 na China, com o nome Douyin, lá tem cerca de 150 milhões de utilizadores, sujeitos ao apertado sistema de censura chinesa. Mas a versão TikTok, que pode ser descarregada em qualquer telemóvel ocidental, conta 800 milhões de utilizadores. Só em 2019, a aplicação foi descarregada 1,5 mil milhões de vezes.

Talvez por influência das limitações chinesas, os curtos vídeos exibidos na TikTok são geralmente inconsequentes, com temas musicais, de moda, ou com actividades parvas – os chamados “desafios” (“challenges”) em que alguém propõe, por exemplo, pular duma cadeira para outra, e milhões fazem o mesmo. Esta postura infantil, digamos, é que gerou a opinião dos adultos de que são “coisas de crianças".

K-Pop não é uma plataforma; é o termo genérico para a música pimba sul-coreana, uma mistura de rock e pop, de moda ocidental orientalizada, tudo muito plástico, muito leve, muito saltitante. Estranhamente, não é seguida apenas pelos adolescentes coreanos e tornou-se um culto nos Estados Unidos, onde os concertos das bandas mais famosas enchem estádios. Não há estatísticas confiáveis sobre o número de adeptos do género, chamados stans (já lá vamos), mas uma agência sul-coreana calculou 89 milhões em 113 países. (Se quer ter uma ideia do género, veja este vídeo das Blackpink

Os fãs da K-Pop são chamados de stans, um termo que mistura “fã” com “stalker” (“perseguidor”, numa tradução livre). O stalker vem dum perseguidor obsessivo do Eminem que ficou famoso por o artista dar uma entrevista sobre ele. Não tem nada a ver com música sul-coreana, mas, ao nível planetário, tudo tem a ver com tudo.

Os K-Pop stans usam preferencialmente a plataforma Twitter. Uma publicação no TikTok ou no Twitter é multiplicada por milhões em questão de horas, pois os miúdos estão sempre ligados e são, evidentemente, hiperactivos.

Agora, que já sabe do mundo de que estamos a falar, pode compreender a mudança telúrica que supostamente aconteceu na semana passada. Segunda-feira, dia 26, Donald Trump fez um comício em Tulsa, Oklahoma. Foi o primeiro depois do confinamento e havia grande expectativa; o Presidente nunca deixou de fazer comícios desde que foi eleito, em 2016, porque gosta do contacto directo com as suas bases e porque precisa de mantê-las fiéis, contornando o que considera o fluxo de “fake news” da comunicação social. A pandemia obrigou a interromper a digressão permanente, e estava ansioso por voltar a sentir o calor da multidão. Já tinha estado muitas vezes em comícios naquele Estado, que é tradicionalmente republicano e fortemente trumpiano.

A equipa que organizou o evento decidiu emitir bilhetes (gratuitos) através das redes sociais, e nas vésperas já tinha distribuído cerca de um milhão – muito mais do que a capacidade do estádio, 22 mil, ou, com boa vontade, 40 mil. Por isso montou um palco cá fora, com um ecrã gigante, onde Trump e Mike Pence viriam falar a seguir ao evento fechado.

Chegada a hora, compareceram cerca de 6.200 pessoas, segundo os cálculos das autoridades locais. Uma catástrofe! A apresentação exterior foi cancelada o estádio praticamente vazio. Trump ficou furioso e não escondeu a sua desilusão. Os organizadores atribuíram o desastre ao medo ao Covid-19 e à presença de grupos desestabilizadores e ameaçadores nos arredores da arena – grupos esses que ninguém viu e que, caso existissem, certamente não impediriam uma presença maciça dos empenhados e amiúde agressivos seguidores do “Make America Great Again!”.

O que se ficou a saber foi que os K-Pop stans e um grande número de seguidores do TikTok formaram espontaneamente uma corrente rápida e eficiente que pediu bilhetes para o evento – daí o número extraordinário de um milhão – tendo já a intenção de não comparecer. Conhecedores de todos os truques das redes, apagaram as mensagens logo que a “operação” terminou, para impedir uma verificação posterior.

Ora bem, não há maneira de medir quantitativamente até que ponto este processo contribuiu para o fiasco de Tulsa. (Daí que tenhamos usado a expressão “supostamente”). Mas as outras razões que teriam levado à baixa presença também não soam muito bem; primeiro, os verdadeiros fãs de Trump não deixariam de se inscrever e de comparecer, independentemente das inscrições “fake”; segundo, o medo do Covid-19 é muito menor entre os trumpianos, uma vez que o Presidente diz constantemente que a epidemia está dominada e que não é preciso usar máscaras – ele próprio nunca usa, e ninguém usou no comício. Além disso, a própria organização afirmou, já depois do evento, que os bilhetes “fake” eram praticamente impossíveis, pois tinha verificado a identidade de todos os aplicantes – o que não faz sentido, pois não terá havido tempo de fazer essa verificação e, não sabendo de antemão da intenção dos miúdos, de que modo se poderia verificar? Eliminando todos os grupos de K-Pop stans (que são muitos, ninguém sabe quantos, com nomes diferentes?) Cortando todos os assinantes do TikTok, uma plataforma nada republicana?

Não há dúvida de que esta “invasão” de bilhetes fake teve influência no fracasso do comício, muita ou pouca. De qualquer maneira, o que é novo, nunca visto, e com perspectivas futuras impossíveis de prever, foi o facto destes grupos terem tomado uma atitude abertamente política. Eles acham que deu resultado, vangloriaram-se por isso – à maneira deles, com macacadas e memes marados – e certamente que voltarão a fazê-lo.

As redes sociais continuam a ser uma fonte de surpresas. E os miúdos também.

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