1. X. teve “sorte” porque está vivo, inteiro, comeu bolachas durante dois dias, não perdeu a sua casa da Beira, só o telhado, o primeiro andar alagado, não bebeu águas mortais, nem caminhou no meio delas, não ficou preso numa árvore. “As circunstâncias são muito boas, comparadas com grande parte da população”.

Falámos por WhatsApp ontem à noite, uma semana depois do ciclone Idai, que devastou a região central de Moçambique. As comunicações acabavam de ser restabelecidas na Beira, incluindo dados móveis, e X. tem acesso a geradores, arranjou combustível para os fazer funcionar, o que permitiu carregar o telefone. Isto, numa cidade onde até agora não há electricidade, nem água nas torneiras. E mesmo comunicar por telemóvel continua a ser difícil.

Chamo-lhe X. porque ele prefere não ser identificado. Receia que a livre expressão possa ter alguma consequência (algo não raro em Moçambique, como verifiquei há meses, numa viagem pelo país). X. cresceu no Norte de Portugal, mora na Beira há pouco tempo, mas é filho de moçambicanos. Tem raízes antigas ali.

Ao começo da noite do ciclone, mudou-se para casa do patrão, mais segura. “Não fiquei na minha porque é ao lado da praia.” Foi a única precaução que tomou, por não supor a escala do que aconteceu, quando o Idai veio, com os seus ventos e chuvas. “A casa onde o meu patrão mora é uma moradia com três pisos, nós ocupávamos o rés do chão e o primeiro. No segundo, o tecto saiu, as pessoas que lá estavam foram abrigar-se numa escola. Nós tivemos sorte, foram só uns vidros partidos, caíram as árvores, o portão, as telhas em cima dos carros. Mas estava tudo bem.” Em retrospectiva, comparando com o que a seguir viu.

“Na sexta-feira às oito da manhã saí para ver como tinham ficado os negócios, a minha casa. E então é que percebi a destruição. Lembro-me de ser miúdo e ver as notícias do Tsunami na Ásia [X. ainda não tem 30 anos], e foi isso que vi ao sair. As árvores todas caídas, pessoas mortas na rua por causa das árvores, das chapas dos telhados, uma delas tinha a barriga aberta por uma chapa. Postes de electricidade caídos, casas só paredes, e outras sem paredes…” Foi andando de carro, como pôde, até aos edifícios onde trabalha. Estavam inundados, sem telhados, carros esmagados. Depois, a casa onde mora. “O telhado não existia mais, tinha voado, e o depósito de água também.” Passando entre chapas caídas, entrou. “O rés do chão estava OK, mas o primeiro piso tinha dois a três centímetros de água.” E a toda a volta, um cenário de catástrofe. “Não havia energia, os multibancos não funcionavam, as lojas estavam fechadas, bombas de gasolina, tudo. Uma cidade fantasma. Andei dois dias a comer bolachas.” E por acaso tinha umas garrafas de água no frigorífico. “Mas foi negligência nossa. A gente nunca acreditou que fosse assim. Houve alertas, a meteorologia foi correcta, eles avisaram que haveria ventos de 180 quilómetros por hora. Fui burro, nunca imaginei.” O governo apelara para, na quinta-feira do ciclone, “toda a gente ir para casa às 11 da manhã, e isso as pessoas fizeram”. Mas não muito mais.

Sexta e sábado foram dias e noites fantasmagóricos. Domingo abriu uma bomba de gasolina, combustível para os geradores. Mas entretanto já havia saques, lojas roubadas. “Violência, não, não vi.” E começaram a vir notícias das redondezas, do outro lado da baía, onde fica Búzi, nem uma hora de barco, habitualmente. “Búzi está toda dentro de água, morreu muita gente lá.”

Imagens terríveis, de gente em cima de árvores ou outros pontos altos, cercada por água mortal, doenças, crocodilos. Mães que seguraram bebés com água pela cintura. Crianças a beberem a água castanha onde estavam enfiadas. Isso, a Beira não viveu. Mas os bairros precários da cidade, os mais pobres, foram varridos, dezenas, centenas de milhares de desalojados, entre o centro e as zonas rurais.

“Hoje o fornecedor de bebidas já não tinha água em garrafas. Mas está a chegar ajuda.” Depois do angustiante isolamento dos primeiros dias. “A sensação agora é de que não estamos esquecidos, de que o mundo está a ajudar. Desde segunda-feira, a cidade está a ser reconstruída, o povo foi para a rua limpar as estradas, tirar as árvores. As estradas já não estão todas cortadas. A energia é que vai demorar…”

2. Em Maputo, Sérgio Costa, 48 anos, fotojornalista natural da Beira, sofreu durante uma semana até conseguir falar com a mãe. “Só ontem consegui”, conta-me, numa ligação entrecortada, porque entretanto na capital moçambicana chove muito. “Não foi nada fácil ficar uma semana sem poder falar com ela, com família, amigos, sem saber se estavam bem.” E continua a não saber muitos detalhes, porque ainda não é fácil conseguir ligação, ou mantê-la. “Não sei como a minha mãe deve estar a dormir. A casa é do tipo de construção de antigamente, mais resistente, mas mesmo assim o vento levou uma parte do tecto.” E ela estava a recuperar de uma malária.

3. Helton Gimo, 29 anos, também a viver em Maputo, onde estuda Direito, e também da Beira, onde tem toda a família, só conseguiu falar “um minuto” com o pai ao fim de seis dias. E também não antecipou a escala do que aconteceu.
“Na quarta-feira antes do ciclone houve um pequeno vendaval. Na altura não havia grandes preocupações, alguns até pensaram que fosse o ciclone.” Um rapaz gravou mesmo um vídeo a mostrar que “nem um coco caiu!” Helton falou com a família nesse dia. “Eles estavam normais. O meu pai não tinha a dimensão do que se aproximava. Mas disse que se estavam a organizar.” Um pouco. Uma das irmãs de Helton, que mora na Baixa da Beira e tinha o marido em Maputo, mudou-se com a filha para casa do pai na noite do ciclone, para estar mais acompanhada. Apenas esse tipo de preparação.

O ciclone passou quinta. Na sexta, as primeiras informações alcançaram Maputo. “Mas ainda havia muito pouca informação”, diz Helton. “Mesmo a rádio moçambicana não sabia.” Ligou vezes sem conta ao pai, em vão, até terça, enfim, ouvir a voz dele. “Ficou tudo bem com eles, graças a Deus. A casa, os vidros não quebraram, só entrou um pouco de água pela varanda. Mas até hoje, só consigo falar quando eles ligam. Não sei se as mensagens entram.” O pai tem carregado o telemóvel numa loja que tem um gerador. “Todo o mundo diz que é o pior acontecimento na Beira. Toda a cidade está muito danificada. Como a água não está a sair das torneiras, eles recorrem a um poço do outro lado da estrada, de uma empresa. E dizem-me que as pessoas vão buscar água de manhã e voltam às 15h, porque todo o bairro está a recorrer àquele poço.” Comida, tinham? “Alguma, mas não a suficiente.” Isto, no bairro do Maquinino, que é mais interior. “Mas na zona da Praia Nova não sobrou uma única casa. As pessoas estão ao relento, na Praça do Município. O mesmo em bairros suburbanos.”

Quanto visitei a Beira, em Setembro, a monumental ruína do Grande Hotel, junto ao mar, continuava ocupada por incontáveis famílias, em condições lamentáveis. Impossível não pensar no que terá acontecido a todas essas pessoas. Ou onde estarão aquelas dezenas de crianças com quem estive no centro da cidade, numa sessão de histórias e desenhos, vindas de várias partes, incluindo zonas mais precárias.

A fúria deste ciclone é um resultado das mudanças climáticas, que têm desacelerado as tempestades e aumentado o nível das águas, fazendo com que chova mais intensamente em cada local. Helton tem noção disso, mas critica a falta de preparativos. “O impacto teria sido menos gravoso se o alerta tivesse sido comunicado com mais antecedência. O governo tomou conhecimento há mais de um mês, e há duas semanas uma agência sul-africana voltou a alertá-los. Mas só três dias antes do ciclone é que as autoridades comunicaram. Isso não foi o suficiente. Muita gente fora da Beira não tinha conhecimento, nem todos têm acesso às redes sociais, onde as informações circulam mais rapidamente. Podia ter-se tirado populações de zonas de risco, comunicado com prazos razoáveis. Agora, os números de mortes e sem abrigo na comunicação social estão aquém da realidade. Fala-se de enchentes nas casas mortuárias. As famílias estão a ser obrigadas a ficar com os entes queridos falecidos. E no berçário do Hospital Central muitos bebés e mães perderam a vida.”

4. Independentemente da imprevidência local, mal a escala do que estava a acontecer ficou clara, caberia ao governo português avançar com ajuda de imediato, sem esperar por União Europeia. Numa catástrofe como esta, cada minuto conta, e a responsabilidade da resposta portuguesa é única, entre todos os países estrangeiros. Sobre isso teriam algo a contar os pais do jovem Helton, nascidos imediatamente antes e no começo da guerra que, para os moçambicanos (e guineenses, angolanos, cabo-verdianos, são tomenses), se chamou da Libertação, ao fim de um longo, penoso, traumático domínio colonial.

Também por isso, possa Moçambique sentir-se amparado pela onda solidária que se multiplicou de tantas partes de Portugal, quando a dimensão da catástrofe ficou à mostra.

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