O que Hollywood sabe fazer com mestria é contar histórias. Um dos grandes momentos dessa festa do cinema está nos discursos de aceitação ditos no palco pelos premiados. São quase sempre discursos bem pensados, bem estruturados e que, tal como o cinema muitas vezes faz, têm foco nas questões da vida, da política aos costumes, do aborto ao ambiente. Nos últimos anos, a produção do show parece optar por desvalorizar esses discursos no pódio ou, pelo menos, cede à pressão do superficial tudo como se fosse um tuíte e, após uns 30 segundos de discurso a orquestra é posta a abafar a fala e a pôr o premiado fora do palco. Seria bom que se deixassem desse tudo a correr e dessem tempo de fala a quem tem opiniões e sentimentos para expressar, como aconteceu com o “Joker” Joaquin Phoenix nos Golden Globes deste ano, em que o deixaram dizer ao longo de 3 minutos e 20 segundos aquilo que queria dizer.

Julia Roberts, já em 2001, tinha dirigido ao maestro esse pedido de liberdade de tempo. Foi comovente o discurso de Lupita Nyong’o, em 2014, com a dedicatória às crianças que procuram um sonho. É memorável aquele vigoroso “tenho algumas coisas a dizer” de Frances McDormand, nos Óscares de 2017 a puxar pelas mulheres do cinema naquele ano “Time's Up”. Patricia Arquette, já em 2015 tinha clamado a questão da igualdade de direitos nos EUA. Também tocante o emocional discurso de Hale Berry em 2002, primeira mulher negra a ser premiada com um Óscar. Marcante nas memórias da noite dos Óscares, a de 1973, boicotada por Marlon Brando, o lendário ator que confiou a uma atriz ativista o discurso de protesto pelo modo como a indústria do cinema e da televisão trata os índios da América.

Fica o desejo de que, agora, nos Óscares, Joaquin Phoenix (não se vê que o Óscar para melhor ator lhe possa escapar, apesar de Leonardo DiCaprio e de Adam Driver) tenha tempo para dizer o que entender dizer.

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E que Sam Mendes e Martin Scorsese também possam estar no palco a dizerem como quiserem o que entenderem dever ser dito. Não importa se como o melhor realizador se como líder do melhor filme. Ambos merecem, merecemos a satisfação de os vermos premiados, apesar de Quentin Tarantino e até de Pedro Almodóvar – quem já viu Parasite, também acrescenta Bong Joon Ho.

“O Irlandês”, de Scorsese, já está disponível por Netflix. Scorsese, em 26 filmes que dirigiu em 51 anos como cineasta já por várias vezes nos mostrou prodigiosos retratos sobre o mundo tenebroso das máfias. Aqueles assassinatos brutais devem reproduzir a realidade e a câmara de Scorsese mete-nos na cena de forma seca, eloquente, como mais ninguém faz. O final deste O Irlandês, em atmosfera de ocaso físico e mental, fica para sempre na história dos inesquecíveis desenlaces de um filme. Que seja premiado e que seja posto no insubstituível ecrã maior das salas de cinema.

Em “1917”, Sam Mendes inventa uma nova linguagem para o cinema – e agarra-nos, não nos dá descanso. O cineasta britânico ousa o plano sequência, ficamos com a noção que que não há cortes, vamos sempre, num trepidante movimento contínuo, ao longo de duas horas ao lado das duas personagens, dois jovens soldados ingleses, numa missão de alto risco, a de sair das trincheiras para uma heróica travessia de campo aberto inimigo (a frente ocidental alemã), com a missão desesperada de, perante o corte de comunicações, conseguirem avisar o comando de um batalhão mais à frente de que a aparência de retirada dos alemães é falsa, é uma armadilha com o objetivo de massacrarem esse batalhão. Sam Mendes fez este filme que nos mostra o pesadelo da Primeira Grande Guerra a partir da experiência do avô, Alfred Mendes, carismático narrador, que aos 19 anos era cabo do exército britânico durante a Guerra, na frente belga. Neste filme dedicado ao avô, Sam Mendes surpreende-nos, inquieta-nos, angustia-nos e comove-nos. E faz-nos pensar no horror das guerras. Também é para isso que servem os filmes.

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