Há demasiado de tudo. Tudo é demasiado. Há coisas muito graves a acontecer e gente pronta a agravá-las, ou a relegá-las gravemente. Há aproveitamento político, aproveitamento político do aproveitamento político e gente que não se aproveita. Há facciosos, capciosos, panfletários, propagandistas, arsénicos e asténicos. Enquanto isso, tudo arde - literalmente, figurativamente e num estranho compromisso entre ambos. Céus! não quero mais assuntos, quero um só.

É Agosto, quase. Sinto desejo de escrever sobre nada e a época ainda é do tanto.

Fui até à janela ver se me inspirava o suficiente para ficar sem assunto. Debrucei-me sobre o Tejo, senti calor e cheiro a queimado - quase escrevi “esturro”, mas seria uma falsa alusão desconfiada, que este perfume a incêndio já se tornou a fragrância mais garantida de qualquer Verão. Torrefacção por torrefacção, que cheirasse antes a bolacha americana; nada me daria mais gozo. Duplamente bom: se o aroma predominante no Verão fosse a bolacha americana, por um lado voltava a acoplar esta época a memórias agradáveis de praia, por outro irritava essa gente que, de olhos inflamados, anda a ver imperialismo americano em todo o lado. São os maduristas de serviço, que ingnoram massacres e indultam totalitarismos com as velhas palas da Glavlit. O salivar americano pode ser muito claro, mas só olharmos a isso é, no mínimo, muito turvo. A Venezuela sangra e por cá abanam-se bandeiras da cor da carnificina. Que prazer me daria irritar essa gentalha - quase escrevi “escumalha”, mas seria uma falsa alusão desconsolada, que este perfume a podre já se tornou a fragrância mais garantida da nação.

Fugiu-me a boca para a actualidade, e eu só queria flutuar numa crónica veranil. Entretanto fui salvo pelo Tejo, pelo calor e pelo fumo – deram-me sede e impôs-se um cocktail. Talvez uma receita seja a receita. Tenho limas, hortelã e uma bebida gasosa de gengibre. Rum ou vodka, ainda estou a decidir. São os ingredientes para transformar o artigo de opinião no estival artigo de recomendação de um refresco. Passo a redigir as devidas instruções e ainda faço, após quase meia centena de textos semanais por aqui, o primeiro apelo à moderação. Bebam com critério.

Para aquietar a minha fulminância anti-madurista de há pouco, vou chegar-me à esquerda e ensinar o cocktail mais comunista de sempre. Derivei-o do (falsamente) castrista mojito e do (falsamente) soviético moskow mule. Os primeiros passos são rudes e esmagadores (basicamente as características que Trump procurava no seu novo director de comunicação, Anthony Scaramucci): no copo colocar um punhado de folhas de hortelã, meia lima cortada em quartos e uma colher de sobremesa de açúcar de cana não refinado. Com um pilão, macerar estes elementos até que os verdes da lima e hortelã se mesclem com o acastanhado do açúcar num líquido de cor pantanosa, tom de Brexit. Quando fiz esta bebida pela primeira vez, a minha mulher pensou que eu tinha usado açúcar de coco e ficou um pouco aborrecida com o desperdício desse adoçante mais caro. O facto de abundarem açúcares diferentes aqui em casa, nenhum deles o clássico (e opressor) branco refinado, faz de nós um casal do séc XXI. Irritantes como os casais do séc. XXI.

O próximo passo é colocar gelo no copo. Não especifiquei o tipo de copo porque, sinceramente, não sei como se chama o tipo de copo que usei, nem tenho a paciência queirosiana para descrevê-lo. Sei, por outro lado, que tipo de copo não é – mais ou menos o género de certeza que tenho em relação às autárquicas em Lisboa: sei em quem não me apetece votar, e é um número coincidente com o de candidatos que conheço. Voltando ao copo, diria que (fazendo uso das palavras distraídas de Marques Mendes sobre os portugueses que não são ciganos nem muçulmanos) é “normal”. Já com o gelo sou mais específico: cubos grandes, para mais bem filtrar as folhinhas de hortelã. “Mais bem” é melhor que “melhor”.

Seguem-se cerca de 15cl de ginger beer. Não traduzi porque é um esticão chamar-lhe cerveja. Na verdade, estou a optar antes por uma gasosa de gengibre que comprei num super-mercado de produtos biológicos. Chama-se “Whole Earth”, é orgânica, sem conservantes, sem corantes, e é adoçada com Agave, mas apesar disso tudo nem é assim tão odiosa.

Para rematar, optei pelo rum branco em detrimento da vodka. Nada contra a segunda, até confesso simpatia pela única bebida que conheço que pode ser feita de batatas. Defendo as batatas, que estão lentamente a tornar-se no patinho feio da alimentação. A demonização do tubérculo pode ser justa em termos nutricionais, mas não o será noutros campos, como um que roça o emocional e toca o patriótico. A britânica revista Monocle distinguiu, pela primeira vez, um restaurante português como melhor do mundo. Foi o “Bistro 100 Maneiras”, exactamente um sítio cujo chef e proprietário já teve a alcunha de “Rapaz Batata”. Ljubomir Stanisic aprendeu o lado criativo na cozinha quando, em tempos de privação e guerra na Jugoslávia, só comia batatas. Num ano e meio em que mais nada havia para comer, Ljubomir conta que a mãe não repetiu uma única receita em torno deste ingrediente. Não tenho vergonha alguma em assumir a minha simpatia pelo chef, nem sequer pela mais recente vertente televisiva de Stanisic. O “Pesadelos na Cozinha” foi o único reality show português que me pareceu ter algum interesse na última década. Quem diria que o azeite dominante dos domingos à noite na TVI podia ser o literal?

Do rum branco final, apontaria para qualquer coisa entre os 25 e os 50ml. Também podia ter dito a quantidade em onças, porque para além de unidade de massa é ainda um ponto na escala de medir amizades falsas. No fundo estão os amigos da onça, no topo os amigos do Grupo Lena. A piadinha metida a ferros tem uma justificação, e chama-se rum branco. Os 50ml dele.

Não há nome para este cocktail, nem para esta espécie de crónica. Pelo jeito confessional como tudo começou, e pelo Agosto que a tudo instou, pensei chamar-lhes, bebida e artigo, “Confissão de Santo Agostinho”. É claro que a ideia era péssima, e contrariava a urgência de moderação para o que se bebe e para o que se escreve. Já não está cá quem falou.

SÍTIOS CERTOS, LUGARES CERTOS E O RESTO

Lubjomisar por aí.

...o bistro.

...o monóculo.

...o pesadelo.

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