Eu estava lá, no meio da multidão, naquele dia 20 de Janeiro de 1993. Era a cerimónia de tomada de posse de Bill Clinton, nos jardins do Capitólio, em Washington, DC. Milhares de pessoas em êxtase. Era o princípio do mundo. Também a minha vida iniciava um novo ciclo. Acabava de chegar aos EUA, com uma pequena mochila, para viver como correspondente do Público, primeiro em Washington, depois em Nova Iorque. Lembro-me de que naquela altura ainda não tinha casa. Instalara-me num hotel barato perto da Dupont Circle. Estava em mudança, como o próprio país a que decidira entregar os meus próximos três anos de vida.

Os milhares de pessoas que enchiam o parque vinham de todos os pontos do país, movidas por um sentimento de confiança, de recomeço. Quando a escritora Maya Angelou leu o poema que tinha escrito para a ocasião, On the Pulse of Morning, as pessoas choraram. “Venham… e eu cantarei as canções que o Criador me deu quando eu, a Árvore o Rochedo éramos só um…”. A afro-americana Angelou, que morreu há dois anos, contou na altura que, depois de lhe ter sido encomendado o poema da cerimónia, recebia mais de mil cartas por semana. “As pessoas vêm ter comigo na rua e fazem sugestões para o meu poema, pedem: 'Diga qualquer coisa que nos una de novo. Diga qualquer coisa que acabe com o ódio no nosso país. Conte a nossa história. Sabemos que dirá a verdade. Senhora Angelou, contamos consigo para dizer o que este país precisa'”, contou ela numa entrevista.

A expectativa quanto a Clinton era imensa. Ele era o primeiro presidente pós-Guerra Fria. O mundo parecia estar pacificado, era preciso reconstruir. Agora, que o muro de Berlim tinha caído, que a União Soviética se extinguira, nada nos separava de um futuro de prosperidade.

Clinton ganhara as eleições sob a palavra de ordem (inventada pelo seu lendário chefe de campanha, James Carville) “It’s the economy, stupid”. E era. Foram as promessas de salvar a economia que atraíram o voto de 45 milhões de americanos, entre os quais os do Wisconsin, Ohio, Michigan, Illinois, Iowa e toda a região industrial em torno dos Grandes Lagos que agora garantiu a vitória de Donald Trump.

Clinton prometeu e cumpriu. Prometeu liberalizar o comércio mundial, garantindo que isso multiplicaria as exportações e criaria milhares de empregos nos EUA. Lembro-me de um discurso, a que assisti, do secretário do Comércio Michael Cantor a brandir na mão um incrivelmente pequeno (para a época) telemóvel Motorola de fabrico americano e a gritar algo como “É por causa disto que eles têm medo”, referindo-se às renitências do Japão em assinar os tratados de Livre Comércio.

Mas eles seriam assinados, os acordos com os países do Pacífico, a NAFTA, com o México, etc. E a economia cresceu. Era o início da globalização, que surgia como um ideal ligado à liberdade, a inclusão e a justiça.

Clinton era o primeiro “baby boomer” a chegar ao poder na América. A geração dos nascidos após o fim da Segunda Guerra Mundial, e que protagonizaram a revolução cultural dos anos 60, do rock n’Roll, do feminismo, do pacifismo, chegava à meia-idade com um renovado sentido de missão. Foram hippies, experimentaram drogas, protestaram contra a guerra do Vietnam, colocaram tudo em causa, no Maio de 68. Depois adaptaram-se a um mundo que não mudou como desejaram, para voltarem agora ao proscénio da História, munidos de experiência, sabedoria e poder, para fazer cumprir os seus sonhos interrompidos. Foram os arautos das novas causas, fossem elas a luta contra a discriminação dos gays, ou o aquecimento global.

Bill e Hillary Clinton, tal como Al Gore, simbolizaram isso, mas também, num mesmo gesto, a liberalização económica mundial, que abriu de facto novos mercados à indústria americana, mas permitiu depois que essa mesma indústria deslocasse as suas unidades produtivas para países de mão-de-obra mais barata, criando desemprego nos EUA, e depois a própria destruição da indústria americana, com a entrada de produtos japoneses, e depois chineses, mais baratos.

O que parecia ter sido feito em nome do povo fora-o afinal em benefício das grandes empresas, mas o povo eleitor sempre estivera na posse de todos os dados para ter percebido isso. Duas décadas mais tarde, a que era conhecida como “manufacture belt” ganhou a alcunha de “rust belt”, com um rasto de destruição de fábricas, desemprego, salários baixos.

Ao mesmo tempo, a globalização permitia o crescimento industrial nalguns países do mundo e destruía o tecido produtivo de outros. A subnutrição aumentou em África, enquanto na China centenas de milhões de pessoas se deslocavam das aldeias para as colossais cidades onde todos os dias abriam novas fábricas. Por cada emprego perdido nos EUA ganhavam-se mais de 500 só na China, nem contando com a Índia, a Rússia, a Turquia ou o Brasil. O reverso da tragédia americana e europeia foi a glória de centenas de milhões de pessoas que, do outro lado do mundo, ascenderam à classe média, vencendo a miséria de gerações, durante milhares de anos.

Mas esses vivem, na sua esmagadora maioria, em regimes ditatoriais. Nos EUA, o povo, que pode escolher livremente, entregou agora a presidência a um autoritário racista, xenófobo, machista e homofóbico.

A democracia não nos salva das tragédias históricas. Torna-as até mais penosas, porque não podemos culpar ninguém além de nós próprios.

A democracia serve apenas para que o mundo seja mais nosso. Incluindo o sofrimento. Sobretudo o sofrimento.

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