É por essa saudade fatalista que conhecemos menos de cor o 20 de Fevereiro de 1967 - em que nasceu - do que o 5 de Abril de 1994 - em que decidiu interromper a própria vida com um tiro de caçadeira na boca. Ando há quase 23 anos a lembrar-me dele em cada Abril, e a ser requisitado para escrever-lhe elegias fúnebres, mas nunca neste tempo todo me dignei a aproveitar um Fevereiro para lhe dar os parabéns. Não acredito que me ouça, mas tenho-me atirado ao desabafo “Sacana, deixaste-nos”. Se calhar hoje é altura do “Parabéns, sacana, pelo que nos deixaste”.

É-me impossível escrever sobre os Nirvana e o Kurt Cobain fora da minha perspectiva pessoal. Não acho, contudo, que o mundo precise de mais uma colherada subjectiva no assunto. Há é questões geracionais que me abalizam para ser testemunha credível da matéria, e assim poupo-me a entrevistar outros velhotes da minha idade para lhes perguntar “como é que era naquela altura?”. Dada a minha profissão, não é nada raro colocarem-me a questão “qual foi a banda que mais te marcou?” e dou por mim a contrariar a sequência clássica que aprendemos nos testes da escola, porque justifico primeiro e só de seguida dou a resposta. “Eu tinha 12 anos quando saiu o álbum Nevermind, e 14 quando o Kurt se suicidou” – é assim que começo sempre, para que depois “Nirvana” seja uma resposta por demais óbvia, e para que a pergunta “qual a banda que mais te marcou?” se torne um pró-forma retórico quando colocada a alguém da minha geração.

Nas dezenas de convites para escrever sobre os Nirvana, tendo a ter sempre a petulância provocadora de afirmar que foram a maior e melhor banda dos anos 90. Mais petulante e provocador sou ao abster-me de justificar, como se o meu decreto se tornasse verdade absoluta, e quem pensa o contrário está errado. Como já referi, normalmente esses textos vêm na sequência do aniversário da morte de Cobain, pelo que aproveito o contexto pesaroso para decretar coisas sem as fundamentar – qualquer contraditório fica embargado como um desrespeito pelas famílias enlutadas.

Por ser agora altura de aniversário de vida, não de morte, vou abster-me de largar afirmações como quem sepulta um caixão que jamais voltará a ser perturbado. Mantenho que os Nirvana foram a maior e a melhor banda dos anos 90, acrescento até que terão sido a última grande banda que existiu, mas desta vez compilo alguns  argumentos para justificá-lo. Tiro o fato preto e ponho o chapéu de festa; assim, sem desrespeito por qualquer luto, todos poderão discordar dos poucos motivos que aqui vou enunciar (quem o fizer continuará, obviamente, a estar errado).

De novo o exemplo pessoal, não para subjectivar, mas porque hoje acordei a sentir-me case study. Nirvana foram a maior banda da última década do século passado logo pela forma como conseguiram apelar ao jovem Úria. Em 1991, com 11, 12 anos, eu não tinha especial apreço por qualquer afluente de rock ‘n’ roll que passasse nas rádios. Achava o hair metal piroso e torcia o nariz ao fenómeno Guns ‘N’ Roses que tinha varrido tudo, até os trabalhos de Educação Visual da minha turma. Ouvia coisas pop morninhas sem grande critério, já que as rádios generalistas estavam lá para conferir normalidade a um pré-adolescente (normalidade - esse El Dorado dos miúdos que prezam ser meio invisíveis). E eis que chegam os Nirvana. A primeira vez que os ouvi não sabia quem eram; a atenção que prestei não foi motivada por nenhum hype; o deslumbramento súbito não aconteceu por me fazerem lembrar qualquer coisa que gostasse ou sequer conhecesse. Fui tomado de assalto. Na entrada para o primeiro refrão eu podia ter pensado “onde é que estes gajos andaram toda a minha vida?”, mas foi mais “o que é que eu vou fazer à minha vida agora que ouvi estes gajos?”. Uma banda que resgata um garoto da sua distracção crónica só pode ser grande, maior que Ritalina. Uma banda suja que fez ouvidos misófobos quererem nela lambuzar-se - só pode ser grande. Uma banda que com 4 acordes definiu mais a minha entrada na adolescência do que a própria puberdade - só pode ser a maior.

Se acham que partir da história pessoal para concluir uma verdade universal é um exercício egoísta, enganam-se. É por me achar tão banal, tão comum e despersonalizado nos anos 90 que me sinto confortável para generalizar. Eu era só mais um, e é de nós - os comuns - que se formam as massas. Para explicar a ascensão mediática galopante dos Nirvana temos de contemplar as massas anónimas e anódinas - é aí que singularmente me suponho plural. Bem avisei que tinha acordado a sentir-me case study.

Referi a ascensão mediática galopante; é um dos argumentos incontestáveis para a grandeza dos Nirvana. Se, por um lado, o alastramento nos tomou a todos de assalto, já a pujança instalada do fenómeno é mais fácil de explicar: estávamos ainda num mundo pré-internet, onde o acesso a música era mais limitado e as paixões acabavam por se restringir ao cardápio reduzido do nosso alcance. O que atingia fama logo ganhava balizas de obsessão. Ou seja, é fácil explicar o vigor da popularidade dos Nirvana, e como o fenómeno pôde secar outros à volta (embora irrigasse uns quantos na sua cauda); o que carece explicação é o porquê da popularidade, o porquê do fenómeno, e a avidez com que deixámos um trio de gente mal vestida e guitarras sujas reverter a cultura duma década num ápice.

Praticamente todos os grandes prodígios pop estabeleceram-se no apelo certo aos adolescentes, sobretudo titilando o lado mais libidinoso da efervescência hormonal. O apelo de Cobain, Novoselick e Grohl decerto não se equipara ao esmero sincronizado e limpo dos cabelos e roupas dos Beatles, nem tinha a sexualidade orquestrada e semi-homoerótica de qualquer boy band. A maneira como a música dos Nirvana se relaciona com os adolescentes é ao ser ela própria um resumo e um símbolo da adolescência: a temperamentalidade - alegria e depressão, às vezes na mesma canção; a energia destrutiva; a incerteza e a obsessão; as dores de crescimento e de amores; a rebeldia por causas e as causas por rebeldia. Cabelos compridos tornaram-se elmos, camisas de flanela bandeiras, e a marcha da vitória tinha vários “yeah!” assertivos e prolongados. Não só ouvíamos Nirvana, alistávamo-nos.

Musicalmente também se pode falar em tempestade perfeita. Cobain foi o alfinete no interior dum balão de música underground americana que se ia enchendo fora de vista. Influenciado por esse património quase clandestino, Kurt acabou por ser traído pela latência pop de outras influências; digo “traído” no sentido em que, fazendo música propositadamente agreste, nunca se despegou dos Nirvana o magnetismo que acabou por condená-los ao sucesso. A banda não virou moda pelos caprichos alternativos, ela virou moda por estar na linha de sucessão das maiores e melhores bandas pop. Eram esconsos e indigentes como os Pixies, os Sonic Youth ou os Vaselines, mas tinham predestinação mediática próxima duns Beatles. Paradoxalmente, o que também abeirou os Nirvana do establishment e da popularidade foram os discursos e atitudes anti-establishment e impopulares; repelente era o novo atraente. Depois dos exageros, da superficialidade, do colorido e do optimismo dominantes na cultura de massas dos anos 80,  estávamos saturados. Precisávamos duma verdade rude, indecorosa e desgrenhada; percebemo-lo melhor quando escutámos a música de tipos rudes, indecorosos e desgrenhados. Entronizámos esses vadios, sobretudo porque incitavam a rebelião contra os tronos – isso só agravou a nossa vontade de coroá-los. De novo o paradoxo: o grupo que praticamente cunhou o termo “música alternativa” era agora a norma, de tão popular. O contra-senso estava reservado à melhor banda da década. A última grande.

No futuro teremos sempre fenómenos de grande envergadura, mas quase todos a brotarem de meios ou géneros por si já muito populares. Quase sempre virão colmatar necessidades ou gostos manifestos, não fazer-nos descobrir aquilo que nem sabíamos que queríamos. As coisas grandes jamais voltarão a ser tão grandes, e o mundo está demasiado ligado a tudo para voltar a ser tomado assim de surpresa; andamos distraídos com as nossas demasiadas atenções.

Não sei que caricatura deprimente seria um Kurt Cobain vivo hoje. Não sei há quanto tempo o cinquentão já teria malbaratado o legado de, algures na História, ter sido o maior. Não sei nem interessa, porque é um exercício tão estéril como o de falar para mortos. Ainda assim, deixo-lhe os parabéns pelos 27 anos em que resistiu. Parabéns a nós que viemos a tempo de não lhe resistir.

SÍTIOS CERTOS, LUGARES CERTOS E O RESTO

25 coisas que eu não tenho a certeza que você devia saber sobre Nirvana, mas que não desajudam.

E porque sem o punk britânico original nunca teria havido (obviamente) o punk-rock de Seattle, fica aqui um documento impressionante destes magníficos estafermos londrinos.

Ainda na música: o Lusitano Clube é um sítio de Lisboa que me suscitará sempre boas memórias de parcerias. Há quase 8 anos, o b Fachada e eu partilhámos lá uma noite de canções e lançamentos de discos. Na próxima terça-feira será uma dupla de maior gabarito a tomar conta do Clube.

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