Da confiança ao choque

No ar, aquilo que se sentia durante o dia das eleições era aquela típica agitação, aquela intensidade tão bem capturada por Enric González nas suas Histórias de Nova Iorque (editadas em Portugal pela Tinta-da-China), misturada com um certo otimismo. Famílias inteiras passeando com os autocolantes indicativos de que tinham votado; uma efervescência algo tensa, mas ao mesmo tempo plena da expectativa de quem aguarda um grande acontecimento, junto dos poucos locais onde diferentes grupos de apoiantes de Trump e Clinton se concentravam, nomeadamente junto da Trump Tower.

Não há como dizê-lo de outra maneira: testemunhar o processo eleitoral em Nova Iorque é passar pela experiência do blue state por excelência. Nova Iorque é a misturada, o melting pot onde confluem pessoas com as origens, modos de vida e objetivos mais díspares, onde Wall Street convive com a cena artística ou o ativismo político de esquerda, outrora personificado no movimento Occupy e em tempos mais recentes na campanha de Bernie Sanders. Por isso, e apesar da agressividade do ambiente, da competição e velocidade inegáveis da vivência nova-iorquina, não há como negar que aqui estamos numa cidade liberal que, com maior ou menor dificuldade, sabe acomodar e conviver com uma diversidade que lhe é constitutiva.

Por tudo isto, é óbvio constatar que a maioria da população nova-iorquina apoiava Hillary Clinton embora, em boa parte dos casos, a contragosto. Numa eleição tão polarizada, a narrativa que colocava a opção entre Trump e Clinton como a escolha entre o “menor de dois males” não era totalmente falsa. Desse ponto de vista, sentia-se, entre os apoiantes de Clinton em vésperas de eleições, um misto de ansiedade e confiança, mas sobretudo a sensação de que o pesadelo acabaria em breve. A campanha eleitoral tinha sido longa, intensa e plena de percalços inesperados. Nenhum dos dois oponentes que lhe apareceram à frente, nem aquele que quase a derrotou nas primárias [Sanders], nem o que efetivamente a derrotou na eleição geral [Trump], eram candidatos prováveis. E talvez nenhum tenha sido levado suficientemente a sério, nem pelos analistas mainstream, nem pela própria campanha de Hillary.

Ambos conseguiram explorar as fraquezas de uma candidata demasiado associada ao establishment, ao estado de coisas tal como elas estavam constituídas. No entanto, entre o eleitorado que a apoiava e que tentava, apesar de tudo, fazer barragem ao populismo autoritário, xenófobo e misógino de Trump, a firme convicção era a de que o personagem cor-de-laranja acabaria por desaparecer, mais cedo ou mais tarde, com maior ou menor resistência, do cenário político “a sério”, embora pudesse tentar manter a sua presença no espaço mediático através de um novo projeto televisivo. Nesse sentido, tudo se passava como se, depois do stress da reabertura do caso dos e-mails por parte do FBI nas últimas semanas das eleições, e findo que estava esse caso com a segunda confirmação de que nada de incriminatório tinha sido encontrado, os apoiantes de Clinton pudessem finalmente deixar de suster a respiração, respirar de alívio.

Foi com esse estado de espírito que a maioria dos nova-iorquinos acordou na manhã de terça-feira; e foi com o estado de espírito oposto que essa mesma maioria se levantou 24 horas depois, na manhã de quarta-feira. Porque entretanto algo tinha acontecido. Algo que foi revolucionário à sua maneira, ou revolucionário-reacionário se o preferirmos. Em suma, um acontecimento que mudou radicalmente o mapa eleitoral dos Estados Unidos da América bem como o seu clima político e social e que, provavelmente, também mudará a face do mundo como o conhecemos, já que as implicações geoestratégicas de uma possível alteração brusca da política externa do seu país mais poderoso não deixará incólume nenhum recanto da Terra.

Por tudo isto, esta nunca poderia ser uma crónica tranquila; é antes, caso ainda não se tenham apercebido, uma crónica inquieta e escrita num misto de urgência, choque e incredulidade, espécie de caixa de ressonância daquilo que me parece ser, do meu próprio ponto de vista, necessariamente subjetivo, o estado de espírito de grande parte da população que me rodeia, mas também de milhões de observadores por todo o mundo. Não é, por isso, a crónica de um observador imparcial. Porém, digamo-lo de passagem, não existem, na esfera dos “assuntos humanos” observadores imparciais. Apenas observações tanto quanto possível imparciais, por motivos metodológicos ou deontológicos. Mas um acontecimento da magnitude de uma eleição presidencial nos Estados Unidos da América convoca-nos a todos. Algo que, em Portugal, foi muito bem exemplificado na campanha “I give a fuck” – embora, por ironia, quem acabou por don’t give a fuck para essa tentativa de mobilização tenham sido os próprios eleitores americanos, pelo menos a julgar pelos resultados.

Foi, portanto, nessa condição de observador mais ou menos externo – não posso votar – de um processo cujas implicações nos afetam a todos que decidi aproveitar a minha breve permanência nos Estados Unidos para tentar acompanhar de perto o processo eleitoral e a forma como ele foi vivido. Esta foi uma observação feita a partir de baixo, tentando compreender as motivações dos diferentes atores sociais e reconstruir algum do sentido daquilo que se iria passar, e que efetivamente acabou por se passar.

O dia das eleições

O meu dia começou no Upper West Side de Manhattan, em Morningside Heights, zona onde fica situada a Universidade de Columbia. É uma zona afluente, com uma vida cultural vibrante, na qual habitam muitos jovens estudantes ou profissionais com um nível de instrução elevado. A campanha de Clinton teve uma forte implantação nesta área, estando regularmente presente junto do campus principal de Columbia, entre as ruas 114 e 116. Aí, era difícil encontrar qualquer apoiante de Trump e vivia-se precisamente o clima de confiança a que aludi anteriormente, entre uma população que parecia esmagadoramente ter votado em Clinton.

Entre os apoiantes de Trump, pelo menos em Nova Iorque, parecia registar-se o seguinte fenómeno: ou uma adesão envergonhada e pouco dada à exposição pública ou, pelo contrário, em muito menor número mas de forma muito vocal, uma afirmação ruidosa, como se fosse necessário marcar pelo excesso a visibilidade rebelde no coração da grande cidade liberal.

Porém, para encontrar estes últimos havia que procurar no sítio certo, isto é, onde pensavam poder causar impacto. E nenhum outro local em Nova Iorque era tão profícuo nesta demonstração como a própria sede simbólica do poder de Trump: a famosa torre homónima, situada na 5ª Avenida, entre as ruas 56 e 57. Foi esse, portanto, o meu ponto de paragem durante a tarde, como o fora em dias anteriores.

É que a Trump Tower foi, durante esta campanha, um ponto de confronto democrático quase permanente, tenso, mas relativamente pacífico. Constantemente alvo de uma forte vigilância policial, era regularmente palco de manifestações e contramanifestações, de apoio e rejeição a Trump, muitas vezes circulando juntas, com membros misturados (!), à porta da Torre, por entre a vigilância da polícia e a constante parafernália de turistas e, por vezes, também alguns jornalistas incessantemente a tirar fotografias, filmar, ou a interpelar os manifestantes. No dia da eleição, este movimento foi elevado ao paroxismo, com o corte total do quarteirão à volta da Torre, e até ao hotel Hilton (onde a campanha de Trump festejou os resultados e ele fez o primeiro discurso enquanto Presidente eleito) situado na rua 53, junto da 6ª Avenida. Sob forte aparato policial, os transeuntes tinham instruções para não poderem parar no passeio mais do que poucos segundos. E, no entanto, as interações entre apoiantes e manifestantes anti-Trump abundavam.

Aí, foi possível falar com Paul, 54 anos, apoiante renitente de Clinton, “o menor dos males”, que se passeava a tentar vender crachás pouco abonatórios para Trump, e acreditava ser quase impossível a sua vitória nessa noite. Ao mesmo tempo, expressava grande preocupação com a influência de Trump no Supremo Tribunal caso ele de facto ganhasse, receando a perda de direitos como o do casamento entre pessoas do mesmo sexo, ou a interrupção voluntária da gravidez.

Por outro lado, a poucos metros de distância, Ron, 52 anos, vendia ele também crachás e bonés, mas de apoio a Trump. Perante a minha interpelação, Ron afirma a sua descrença total em relação ao estado de coisas e declara fervorosamente que Trump “fez dele um crente” e que, sendo ele um “outsider” e um “homem de negócios de sucesso”, será ele a “trazer a mudança” tão necessária. Como muitos apoiantes com quem foi possível falar ao longo do dia e da noite, uma das suas maiores esperanças é que, uma vez eleito, Trump consiga... colocar Hillary na prisão.

Já Jan, 65 anos, apoiante convicta de Hillary, acredita que grande parte da força da sua candidata provém de ter sido capaz de resistir a todos os ataques de caráter e investigações, mantendo no entanto a sua capacidade de “nunca desistir”. Jan mostra-se igualmente muito preocupada com a imagem internacional da América na eventualidade de uma administração Trump, mencionando a sua “total falta de preparação”, contrastada com a experiência de Hillary.

Caída a noite e chegada a hora da verdade, decidi assistir aos resultados das eleições, acompanhado por alguns amigos, num bar e restaurante com nome de música dos U2, o Angel of Harlem, completamente a abarrotar, com uma audiência maioritariamente afro-americana e, como é evidente, também ela totalmente pró-Clinton. Foi portanto aí que a confiança inicial se começou a esboroar, à medida que os primeiros resultados, acompanhados através da emissão da CNN, foram aparecendo. Primeiro, o ávido acompanhamento dos resultados na Florida, um dos estados onde ambas as campanhas tinham concentrado maiores esforços, e que viria a revelar uma sólida vantagem de Trump. Depois, aos poucos, com a vantagem nos votos do colégio eleitoral que Trump manteve quase sempre ao longo da noite e com a confirmação, já de madrugada, da derrota em toda a linha na Rust Belt, a cintura industrial americana, e nomeadamente no Wisconsin, Michigan e Pensilvânia, aquilo que parecia inacreditável algumas horas antes tornava-se uma realidade demasiado dura para aceitar. Como num jogo de futebol em que se é goleado por uma equipa mais fraca, a audiência foi paulatinamente abandonando o bar ao longo da noite, um pouco em choque, algumas pessoas em lágrimas, perante o peso daquilo que acabavam de testemunhar.

À medida que as reações iam chegando, e que eu mesmo tentava começar a digerir o acontecimento, desloquei-me ainda ao epicentro do apoio a Trump, onde tentei perceber o que poderia passar pela cabeça dos vencedores mais que improváveis. Aí, foi possível falar com Tom, jovem de 25 anos e que, na realidade, nunca tinha votado antes. Empunhando bem alto a sua bandeira e concedendo inúmeras entrevistas a diferentes órgãos de comunicação social de vários países.

Tom afirmou ter votado em Trump porque ele irá “acabar com o Obamacare” que, na sua opinião, tem sido um verdadeiro “pesadelo”; menciona ainda a promessa de corte nos impostos que, acredita, irá “beneficiar em muito a classe média”. De forma um pouco mais surpreendente, deparo-me ainda com um entusiasmado grupo de 5 homens negros – todos os outros apoiantes de Trump com quem tinha conseguido chegar à fala eram caucasianos –, autodenominados Blacks for Trump, e cujo animado porta-voz Michael, 57 anos, evita a questão que lhe faço sobre o porquê de se identificar especificamente como um “negro apoiante de Trump”. No entanto, defende que as medidas económicas de Trump serão uma espécie de “declaração de independência” que “libertará” brancos e negros da opressão do Estado uma vez que, “beneficiando os negócios, e criando mais emprego, as pessoas terão mais dinheiro e deixarão de se matar umas às outras”. Afirma também que muitos negros apoiavam Trump; simplesmente tinham medo de o afirmar.

Por entre tudo isto, nunca faltou a contramanifestação. Junto do Hilton, de madrugada, algumas pessoas gritam “Nova Iorque é Bernie Sanders; Nova Iorque nunca será Trump” e envolvem-se em discussões acaloradas com os apoiantes de Trump. Antes disso, no local onde Trump iria votar, duas manifestantes pertencentes ao coletivo Femen tinham invadido o local num protesto simbólico contra o discurso discriminatório do candidato republicano.

O day after: será mesmo possível uma América governada por Trump?

Já na ressaca do acontecimento, quarta-feira, foi-me possível medir o pulso à reação nova-iorquina. Rony, 60 anos, americano de origem israelita e agente imobiliário, votou Trump e frisa as suas capacidades de liderança, aquelas que serão precisas para que “as coisas mudem” e a América se assuma como “um líder no mundo”, frisando, para além das medidas económicas, a importância da sua postura mais dura face à emigração ilegal. Adam, 22 anos, um jovem corretor de ouro, libertário por convicção, votou em Clinton para tentar impedir que Trump chegasse ao poder. É crítico da política de Washington e da Reserva Federal, mas não confia em Trump. Exprime receio em relação à sua imprevisibilidade como presidente, temendo, especificamente, o impacto das suas propostas para o ambiente. Já Crystal, 28 anos, americana com ascendência porto-riquenha e mexicana, sente-se profundamente desapontada com a eleição de Donald Trump. Nascida nos E.U.A., emigrante de terceira geração, sente-se americana, mas está chocada que tantos eleitores tenham confiado num candidato cujo discurso a ofende duplamente, enquanto “latina” e enquanto mulher. Votou em Jill Stein, mas afirma que teria votado em Hillary se acreditasse que o voto dela faria a diferença. Menciona ter vários amigos, emigrantes legais a trabalhar nos E.U.A., que neste momento consideram seriamente a hipótese de voltar aos seus países de origem, e mostra-se preocupada com o clima de tensão e divisão racial que provavelmente se fará sentir nos próximos 4 anos.

Também na quarta-feira, novas manifestações começavam já a surgir, desta vez mais numerosas, sobretudo junto da Trump Tower, com o slogan “[Este] não é o meu Presidente”, dando a entender que uma parte substancial dos cidadãos nova-iorquinos não se conforma com o resultado das eleições, o que pode ser um sinal do clima tenso e das lutas político-mediáticas dos próximos anos. Não seria surpreendente, por exemplo, o ressurgimento do movimento Occupy numa nova forma.

Comunicação Social, Washington e a “reação branca”: causalidades cruzadas na explicação da tragédia democrata

Estes testemunhos de diferentes cidadãos americanos serão talvez suficientes para dar conta, de uma forma rápida e algo impressionista, da miríade de questões diferentes que se entrecruzam na avaliação destes dois candidatos. Tentemos, porém, avançar um passo e arriscar uma breve análise daquilo que talvez tenha tornado possível este desfecho e do que ele poderá significar, afinal de contas, para os E.U.A. e o mundo. É que se foi de facto surpreendente - tendo em conta todas as sondagens e expectativas prévias - o resultado das eleições, e se é mesmo chocante constatar que uma personalidade com um comportamento e um discurso tão desrespeitadores para tanta gente se pode tornar Presidente do país mais poderoso do planeta, aquilo que não pode ser ignorado são as motivações dos votantes de Trump, nem as condições, quer conjunturais quer estruturais, que o permitiram.

Em primeiro lugar, importa invocar a figura ausente mas, de certa forma também sempre presente no imaginário democrata, de Bernie Sanders. A debacle eleitoral de Clinton, mostram-nos os números, explica-se em grande medida pelo abandono da classe operária branca. Para além disso, uma das questões constantemente invocadas em relação a Clinton sempre foi a perceção generalizada de que era uma candidata em quem “não se podia confiar”, uma candidata de muitas faces; o spin da campanha bem tentou promover essa característica como “pensamento estratégico” e até o insuspeito Louis C.K. tentou virar a questão de cabeça para baixo e vendê-la com piada ao elogiar a tough bitch mother de que os E.U.A. precisariam... mas a verdade é que, apesar das inúmeras verificações de factos mostrarem que Trump mentia muito mais frequentemente que Clinton, ainda assim os níveis de confiança em Hillary não eram mais elevados. Acresce igualmente que parte dessa desconfiança foi reforçada pela forma pouco transparente como o Democratic National Committee conduziu as eleições primárias. Entre muitos apoiantes de Bernie Sanders ficou a sensação que o processo tinha sido manipulado de diversas formas e que o seu candidato tinha sido injustamente afastado. Para mais, várias sondagens foram mostrando, até ao desfecho da nomeação de Hillary como candidata democrata, que Bernie Sanders era o candidato melhor colocado para vencer Trump nas eleições presidenciais. Perante tudo isto, não pode deixar de ficar a pergunta no ar: que resultado poderia ter tido Bernie, um político visto como incorruptível, uma lufada de ar fresco capaz de mobilizar os jovens democratas, ele próprio uma força anti establishment, numa eleição contra alguém tão manifestamente desonesto como Trump?

Por outro lado, esta questão deixa-nos no limiar daquilo que existe de verdadeiramente novo nestas eleições: a forma como uma nova forma de mediocracia foi capaz de catapultar um candidato que investia na quantidade de exposição e não no seu conteúdo para uma espécie de padrão duplo de avaliação e baralhar todas as táticas políticas tradicionais. Hillary nunca conseguiu ser uma candidata inspiradora e a sua campanha nunca percebeu exatamente como lidar com os novos media ou o tipo de ameaça que Trump representava. O mesmo lhe acontecera, até certo ponto, em 2008, quando defrontou Barack Obama e uma campanha de angariação de fundos virada para os pequenos doadores, policêntrica e altamente organizada. Mas a questão é que, por mais que se esforçasse, a luta era desigual. Trump conseguiu mobilizar de forma aguerrida um conjunto de apoiantes fanáticos que votariam sempre nele, acontecesse o que acontecesse, mesmo que, como ele chegou a afirmar explicitamente “desse um tiro a alguém no meio da quinta avenida”. Para o candidato pós-político, que se gabava de ser um outsider, “não como as pessoas de Washington”, e para quem ocupar o espaço mediático era mais importante do que dizer algo de substancial, nada do que pudesse afetar um político tradicional era importante.

Trump criou as regras do seu próprio jogo. Doze mulheres vieram a terreiro acusá-lo de conduta sexual inapropriada. Poderiam ter sido cento e vinte, e talvez não tivesse feito diferença. Perante um eleitorado tão alienado das elites políticas e, por vezes, tão ressentido com a perda do nível de vida da classe média, com os resultados desiguais de uma globalização cujo sentido muitas vezes lhe escapa e para quem, em suma, a vontade de mudança, fosse em que sentido fosse – até mesmo no de, passe a expressão, “lixar isto tudo” – se sobrepunha à avaliação política racional, o candidato maverick poderia dizer ou fazer aquilo que lhe apetecesse e ser avaliado simplesmente pela sua capacidade de entretenimento, e ainda ser considerado mais entusiasmante do que “os políticos aborrecidos que não fazem nada”.

Aliás, diga-se de passagem que, de forma irónica, duas máquinas contribuíram de forma decisiva para este fenómeno: a republicana, na medida em que a sua oposição empedernida à administração Obama, sobretudo no Senado, deixou por diversas vezes os E.U.A. à beira de uma paralisia total que muito contribuiu para a imagem generalizada da inutilidade dos políticos em Washington; e a mediática que, sem o saber, ou talvez sabendo-o e julgando aproveitar-se disso por motivos auto-interessados de captação de audiências, deu livre-trânsito a Trump para se colocar em direto em todo o lado e a qualquer hora, muitas vezes através de telefonemas que complementavam os seus constantes tweets, numa estratégia de comunicação feita de soundbytes e repetição de frases feitas, vazias de sentido, e gestos grandiloquentes e repetitivos. Tudo isto, aliado à imagem de suposta independência (uma campanha alegadamente feita quase só com o seu próprio dinheiro: contemple-se quem não pode ser comprado!) e completo desrespeito por uma postura “politicamente correta” que, aos olhos destes eleitores, se tornara enfadonha... contribuíram para o fortalecimento do fenómeno Trump.

Finalmente, não se pode menosprezar a importância da síndrome da vitória consensual e antecipada. Enquanto Trump mobilizava de forma massiva uma população branca nostálgica de um passado de dominação monolítica de um país muito menos diverso e onde as minorias não tinham acesso a nada ou quase nada (ou, na expressão acertada do comentador Van Jones no comentário da noite eleitoral na CNN: um whitelash, uma “reação branca”), a já de si pouco mobilizadora candidata Clinton contou com uma parafernália de sondagens que davam a sua vitória como garantida, o que, neste Zeitgeist de sentimento anti-sistémico e de revolta contra as elites políticas, poderia ter o efeito, como efetivamente teve, de não mobilizar algumas pessoas a votar por ela por acharem que a vitória estava assegurada – afinal de contas, como será possível que um “maluco” como Trump ganhe? É impensável! – e ainda de acentuar, com força redobrada, a mobilização das forças anti-sistema.

Pode-se concluir que as responsabilidades são múltiplas. De certa forma toda a gente caiu no jogo de Trump, quer quem o apoiava, quer quem se lhe opunha fosse porque não o levava a sério, fosse porque se permitiu continuar a dar-lhe o tempo de antena que o catapultou para a Casa Branca.

O dia depois de amanhã: Quo Vadis America?

Por que é que este acontecimento é chocante? Em primeiro lugar, em termos de uma ética pública básica, porque é extremamente preocupante que um candidato com um discurso divisor, que mobiliza uma imagem extremamente negativa das mulheres, dos estrangeiros e das minorias raciais possa ser eleito. Mais: é desencorajador perceber que quase metade dos eleitores (Hillary ganhou o voto popular, com cerca de 200 mil votos a mais que Trump) ou pensa como Trump, ou tolera que o seu Presidente possa pensar assim. Os danos que uma Administração Trump pode causar quer internamente quer externamente, se cumprir nem que seja 10% das suas promessas de campanha, podem ser devastadores, desde o isolacionismo e a quebra de cooperação com a Europa, passando pela rejeição dos acordos climáticos, até à infame construção do muro na fronteira com o México e a influência brutal que terá na composição dos juízos do Supremo Tribunal.

É claro que, por esta altura, muitas pessoas mostram a tímida esperança de que o Presidente Trump não equivalha ao candidato Trump. Por outras palavras: que ele se revele ser, afinal, um político “normal”, que tenha usado aquele tipo de discurso que lhe parecia ser mais mobilizador para chegar ao poder, e que agora o abandone normalmente quando chegar à Casa Branca. De facto, algumas das declarações de intenção do candidato Trump foram tão vazias de sentido que parece pouco provável que as consiga levar a cabo. Para além disso, não só a comunicação social já começou a tentar “normalizar” a imagem do vencedor como, numa iniciativa que seria de esperar, quer Clinton quer Obama fizeram discursos apaziguadores em relação à transição de poder que se avizinha. Porém, à hora a que acabo de escrever estas linhas, na noite de quarta-feira, Trump já anunciou as suas supostas dez promessas para o primeiro dia na Casa Branca. Entre elas, encontramos a dissolução do Obamacare, a deportação de milhões de imigrantes ilegais, a redefinição dos termos da pertença dos E.U.A. à NATO e... sim, a construção do muro na fronteira com o México, alegadamente obrigando os mexicanos a pagá-lo.

Há várias lições a tirar de tudo isto. Uma delas é que a divisão ou a união podem ser meramente circunstanciais e nada nos dizer sobre o futuro. Clinton conseguira unir, pelo menos em aparência, o partido democrata em seu torno. Contou com a presença e o apoio enérgico de Sanders, Barack e Michelle Obama, e com um exército de celebridades, para além de todos os meios de comunicação social mainstream. Porém, e apesar da sua vida de dedicação à causa pública e dos muitos e variados contributos que deu, acabará provavelmente por ficar na história como a pessoa cujo falhanço eleitoral permitiu que Trump acedesse à Casa Branca. Trump, pelo contrário, beneficiou do descontentamento das bases republicanas com os oito anos de governo de um Presidente negro, e do tom agreste que já vinha a ser preparado, há décadas, por figuras políticas como Newt Gingrich primeiro, ou Sarah Palin e Ted Cruz mais recentemente, e de comentadores políticos como Rush Limbaugh, Sean Hannity ou Ann Coulter. No entanto, conseguiu alienar, no decurso da campanha, quase toda a máquina republicana, incluindo as figuras mais tradicionais como os Bush e McCain, quer o próprio Tea Party. Acontece que o partido se encontra neste momento na conjuntura histórica de dominar não só o poder executivo como também ambas as câmaras do congresso. Neste contexto, a probabilidade de que Trump e a máquina do partido coloquem de lado as suas diferenças e colaborem para implementar uma agenda conservadora como os E.U.A. nunca viram parece ser enorme.

No fundo, e esta é outra das lições que muitas vezes esquecemos mas que a eleição de Trump vem relembrar, a ação humana é imprevisível. As sondagens são um método, falível como qualquer outro. E a democracia é um exercício de vontade coletiva que muitas vezes podemos considerar irracional, mas cujos resultados não podemos contestar, a partir do momento em que haja certeza da validade do processo. Não há forma nenhuma de prever o que acontecerá a partir do momento em que a nova Administração tomar posse. É provável que venhamos a viver num mundo mais volátil e ameaçador. Mas talvez as condições se estejam a formar para que algo de verdadeiramente novo se lhe suceda.

Algo aconteceu. E esse algo foi a eleição do candidato mais ofensivo de que há memória na história dos E.U.A. Caso as expectativas da revolução-reacionária se venham a concretizar, inclusive nos seus elementos isolacionistas e protecionistas, é possível que, por um lado, a globalização como a conhecemos mude de figura e, por outro, que a própria composição das forças políticas americanas sofra um abalo. Numa entrevista recente, o filósofo esloveno Slavoz Zizek, seguindo a velha lógica revolucionária do “quanto pior, melhor” afirmou preferir uma vitória de Trump porque isso seria algo que quebraria o consenso e obrigaria ambos os grandes partidos a repensar-se a si mesmos. Já Michael Moore, num post de Facebook publicado na manhã de quarta-feira, apelou a que o “Partido Democrata seja devolvido ao povo” e a que os congressistas democratas estejam dispostos a resistir à Administração Trump até ao limite. Fala igualmente na “bolha” na qual muitos observadores viveram, incapazes de se aperceber do sofrimento de muitos cidadãos comuns e, logo, do ressentimento que quase necessariamente levou à eleição de Trump.

O candidato homem de negócios e de espetáculo, supostamente antipolítico por excelência, acabou por ganhar também, em parte, por ter percebido um elemento fundamental de qualquer vida política sã: o seu elemento agonístico. Percebeu o quão cansadas as pessoas estavam num suposto consenso elitista imposto de “cima”, o que é um elemento também partilhado com a Europa, como se viu com o Brexit, e como corre o risco de se ver nas próximas eleições em França. Por isso, com a sua retórica populista, quebrou esse consenso; simplesmente, fê-lo a partir de posições absolutamente inaceitáveis para qualquer espírito que preze os valores da inclusão democrática em sociedades liberais. De alguma forma, nem as mensagens politicamente mais moderadas, nem as alternativas de um populismo de esquerda (em sentido não forçosamente pejorativo – como argumenta Chantal Mouffe, o populismo pode ser uma ferramenta democrática útil, desde que sirva para defender os princípios certos) têm sabido responder a fenómenos deste género.

É imprevisível, mas infelizmente parece mesmo possível que, nos próximos anos, o estado de coisas nos E.U.A. e no mundo mude tanto, talvez até piore tanto, que a seguir só possa melhorar. Resta saber a que preço. Com que alteração de paradigma. Algo mudou. E para o que vem aí, talvez ainda não tenhamos nome. Resta-nos talvez tatear em busca de novas soluções para este novo desafio. Dizem que Nova Iorque nunca dorme. Talvez seja bom que também nós nos mantenhamos despertos.

Gonçalo Marcelo(Investigador no CECH, Univ. de Coimbra; Prof. Convidado Católica Porto Business School; Visiting Scholar no Departamento de Filosofia da Columbia University no semestre de outono de 2016)

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