Quatro pessoas no balcão de entrada para um voo internacional, todas fardadas devidamente, com o ar mais profissional do mundo, incluindo o agente do SEF que deveria estar a assegurar-se de que uma alma era mesmo recambiada para o destino final. Dos quatro assistentes de terra, será que se designa assim a profissão?, nenhum se digna ao contacto visual. Estão absorvidos pelas suas tarefas especializadas, conversam e verificam os computadores, há muito que verificar. O voo está atrasado uma hora e as pessoas mantêm a fila com dificuldade. Ao meu lado, um senhor de Pernambuco diz em voz alta, para a geral, que está a fotografar tudo, porque o filho é advogado e a TAP não ficará a rir. Não sei bem qual é a situação do senhor, tenho quase vontade de lhe apresentar as minhas desculpas, afinal a empresa é portuguesa e eu também, mas mantenho a vigilância, alimentando mentalmente a dose de paciência minuto a minuto.

Lá vamos no autocarro aéreo ver as vistas, um voo de nove horas e tal comporta muita logística, mas o A330 recebe-nos com aquele conforto de não ter onde meter as nossas pernas e tal, embora mais 60 euros até se conseguem uns centímetros extra. Tudo bem. Temos direito a uns headphones e uma almofada e a uma manta. À minha frente vai uma mãe com uma criança de meses. O senhor que se senta ao lado dela nem suspira, está só em pânico. O voo não está cheio, a mãe poderia viajar de forma mais confortável. A hospedeira vem dizê-lo, a mãe não consegue compreender o que lhe estão a dizer e, mal por mal, quer um lugar à janela.

E depois começa esta coisa que irrita muito os adultos que é ter outros adultos a corrigir e a ordenar, não podemos fazer isto, temos de ter atenção àquilo. Para mim está tudo bem, compreendo e aceito e tomo um comprimido para dormir que não vou para nova e preciso de descansar. Vou acordando várias vezes, à conta de algumas situações e de necessidades fisiológicas. Hospedeiras? Não as vejo. E quando as vejo é para aquilo a que se chama pequeno almoço: café ou chá, rodelas de laranja, um pão, uma manteiga, um pacote de doce, uma fatia de queijo, uma fatia de fiambre, uma fatia de mortadela ou algo dessa família.

A saída do voo é mais ou menos o que se espera, o caos das malas, as crianças a choramingar, as pessoas a acelerar para os telemóveis e milhares de apitos com avisos de entrada de mensagem. Chegámos. O senhor de Pernambuco mantém a sua ideia de que nunca mais vai viajar com esta companhia, sinto-me de novo tentada a ir pedir desculpas.

Fui educada dentro do espírito da TAP: tem os melhores pilotos do mundo, é a nossa companhia. Foi um comandante da TAP que me sossegou alguns receios quando me explicou que os aviões têm tudo em duplicado, todo o equipamento. Se é verdade ou não pouco importa. A lei das probabilidades e os acidentes? Pois, fiquei mais sossegada. Viajei uma vida inteira com a TAP, gosto de algumas pessoas que trabalham na TAP. A revista UP é maravilhosa e reconhecida internacionalmente. O serviço, senhores? A comunicação? O nível de empatia? A qualidade do pãozinho e daquela folha cor de rosa a prometer ser fiambre? Por favor, não é só o voo sair atrasado, é a companhia não ter sabido acompanhar os tempos, as necessidades, etc e tal. Comunicar com o público não é fazer anúncios a anunciar mundos e fundos com rostos sorridentes e um logótipo que, afinal, carrega uma história, logo uma responsabilidade. A TAP merecia melhor, quem voa com a TAP merecia melhor. O advogado, filho do senhor de Pernambuco, talvez vá deixar a administração sem um sorriso? Bom, eu  já tenho dúvidas quanto ao Pai Natal...

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