Não é difícil ser psicóloga e perceber que há muito a dizer sobre o que é, o que acontece e quem está envolvido nos processos psicoterapêuticos. A importância da saúde mental e do bem-estar emocional tornou-se clara durante os períodos de confinamento, mas são temas que continuam a precisar de ser conhecidos e debatidos - e cada vez com mais qualidade.

É também por isso que presto especial atenção a filmes, séries, livros, histórias onde o espaço terapêutico está representado, umas vezes com a figura do terapeuta, outras vezes sem. Mas são todos objecto de curiosidade, reflexão e alguns de inspiração. Não importa se já viram ou não os episódios de Ted Lasso, a série que inspirou este texto porque não irei escrever exactamente sobre ela. À partida, e de uma forma redutora, deveria escrever sobre uma equipa de futebol, mas a série não é só sobre futebol, é sobre relações e sobre a sensibilidade das personagens que as compõem. Amizade, companheirismo, amor. Inícios com a adrenalina e entusiasmo da descoberta do outro, fins com os seus processos de luto. Faz-nos balançar entre a comoção e o riso como nas relações que mantemos na nossa vida. Para mim, foi em especial sobre o aparecimento de uma psicóloga que espelhou de forma subtil, mas muito bem aos meus olhos, alguns pormenores da relação terapêutica.

Porquê conversar com um psicólogo se podemos conversar com os nossos amigos, questiona uma das personagens num dos episódios. A resposta é: não se substituem. Ter a nossa rede de apoio, estabelecermos relações de intimidade e proximidade são um pilar importante do nosso bem-estar. Nas relações de amizade é natural utilizarmos as nossas crenças e experiências pessoais para avaliar e partilhar qual o caminho que consideramos mais vantajoso. Já a relação terapêutica é um espaço para se poder pensar e sentir, de forma acompanhada, mas sem a intromissão dos valores ou julgamentos de outros. Como profissionais, baseamos a nossa comunicação não nas nossas opiniões, mas na empatia (a capacidade de vermos o mundo, as relações, as dificuldades através dos olhos da outra pessoa), no conhecimento científico e no conhecimento adquirido ao longo da formação e prática profissional. O objectivo é ajudar quem nos procura a descobrir os padrões que afectam o seu bem-estar, criando autoconsciência e terreno fértil para a mudança e para a sua aplicação em diferentes áreas de vida e/ou em diferentes situações percebidas como desafiantes.

Se por um lado esta natureza da relação terapêutica parece uma característica preciosa, na série levanta-se ainda outra questão. Não é com facilidade que todas as pessoas começam o seu processo terapêutico. As sessões de terapia envolvem exposição e vulnerabilidade, muitas vezes não expressa nas nossas relações, e é, por isso, natural precisar-se de segurança. Segurança de que o espaço da terapia é um lugar de liberdade de expressão emocional, de que quem nos escuta o faz com cuidado e respeito e tem a capacidade de nos compreender, conter emocionalmente e desafiar. Tudo numa mesma pessoa que no início do processo é apenas um estranho. A desconfiança pode mesmo surgir por se pensar que a postura do terapeuta se deve apenas à remuneração do seu trabalho, negligenciando a parte humana da terapia. É verdade que estar em sessão é o nosso trabalho (que nos dedicámos a aprender e devemos dedicar continuamente a saber mais e a melhorar), mas isso não significa que a relação não seja autêntica e de interesse genuíno em ajudar cada pessoa a alcançar os objectivos a que se propôs ao iniciar o seu processo terapêutico. É no contexto da relação terapêutica que o cepticismo ou, por exemplo, posturas mais desafiantes ou agressivas dirigidas ao terapeuta se transformam, progressivamente, em confiança. Para isso, é valiosa a consistência do terapeuta e da sua presença, a cada momento. É natural existirem momentos de tensão e desacordo a serem trabalhados ao longo do processo.

A relação terapêutica é tão humana como todas as relações significativas e precisa de tempo e investimento para se consolidar. As características e necessidades do paciente são quem orienta a construção da relação, contudo, a importância das características do terapeuta não pode ser esquecida. O lado “pessoa” do terapeuta será sempre um complemento ao seu lado “profissional”, acrescentando-lhe pequenos detalhes. A forma como nos apresentamos, como nos dirigimos aos pacientes, como demonstramos o nosso sentido de humor, como somos espontâneos, como nos comprometemos nos processos terapêuticos que acompanhamos pesam, claro, na autenticidade e genuinidade das relações. O nosso lado “pessoa” torna-nos mais humanos aos olhos do paciente, como aconteceu na série, e talvez menos assustadores. No fundo, deixa apenas de ser uma relação entre um especialista e alguém que procura ajuda e transforma-se numa relação entre duas pessoas.

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