Quando entrei para a escola primária, em 2000, o Nuno Delgado tinha acabado de se tornar no primeiro português a vencer uma medalha olímpica de judo e eu tinha acabado de me tornar no primeiro aluno a fraturar a tíbia no ano lectivo. Delgado foi à minha escola para que os miúdos tivessem a oportunidade de o vitoriar e eu, porque tinha de estar imobilizado e não tinha capacidades para ir para o recreio, fiquei atrás dele sentado num banco, de muletas, enquanto o atleta exibia a medalha de bronze conquistada em Sydney. 

O triunfo do judoca fez com que muitos miúdos da minha escola começassem a interessar-se pela arte marcial, que a escola oferecia como actividade extracurricular. Eu próprio me inscrevi nas aulas, mas nunca tive jeitinho nenhum, apesar do professor ser nada mais nada menos do que o antigo seleccionador nacional e treinador de Telma Monteiro, Rui Rosa. Fui a um único "torneio", organizado numa outra escola, em que perdi na primeira ronda contra um adversário que, recorda acintosamente o meu pai, tinha metade do meu tamanho. Foi, para mim, o fim da utilização de kimonos e de cintos que não sirvam para sustentar calças.

Poucos anos mais tarde, fui convencido a ter aulas de natação. O ensino em casa (ou na praia) dessa competência essencial à sobrevivência num país com mil quilómetros de costa não estava a resultar em mais do que numa boa imitação de um golden retriever a chapinhar, pelo que não barafustei no momento da inscrição. Ainda hoje, recordo com nenhuma saudade o cheiro a cloro, a humidade permanente, o chiar dos chinelos, os gritos dos instrutores, os espirros ao sair do pavilhão. O professor de natação chamava-me Luís, o que, uma vez que eu prefiro que me tratem por Manuel, desinteressava-me ainda da atividade. Assim que obtive os conhecimentos suficientes para poder evitar ser uma pessoa que tem de dizer, numa qualquer festa de piscina, "não sei nadar", fiz birra até que me deixassem sair.

A partir daí, não tive aulas de mais nenhum desporto. Como muitos portugueses, a minha formação desportiva passou sobretudo por jogar à bola no recreio, ir às aulas de educação física, onde se jogava sobretudo à bola, e ir para a sala de jogos jogar matraquilhos (sala essa que tinha sempre os três jornais desportivos, que falavam, imagine-se, de jogos de futebol). 

Nesse sentido, a minha cultura desportiva é muito fraca e não me sinto legitimado a tecer considerações derrotistas sobre prestações de atletas olímpicos. Suspeito que muitos dos que criticam Telma Monteiro pela eliminação precoce nos Jogos também fazem parte desta cultura desportivamente monotemática, irritam-se quando as televisões transmitem notícias do hóquei em vez de um debate de uma hora sobre um rumor de uma transferência e terão sido também luíses na sua infância, sem qualquer interesse por aquilo que se passa em complexos desportivos, excluindo o edifício do bar. 

Vinte anos depois de Sydney, ainda nos falta muito que não seja indispensável ganhar medalhas para se conseguir convencer um miúdo da primária a inscrever-se nas aulas de judo. Mesmo que seja para perder com um puto de metade do tamanho dele.

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