1. Vivi anos no Brasil mas nunca tinha ido ao Uruguai, vizinho de baixo. O Brasil engole-nos, esquecemos os vizinhos. Então, só agora pisei esta cidade, Montevideu. Uma cidade para respirar e caminhar, dizia um dos seus maiores escritores, Eduardo Galeano. O que é verdade, ainda, como um alívio, se não uma cura. E de quantas cidades podemos dizê-lo?

2. Há muitas marginais, corniches, calçadões pelo mundo. Mas Montevideu, sendo uma das capitais mais pequenas, tem vinte e cinco quilómetros de passeio à beira-água, piso sem obstáculos, horizonte infinito. Esta proporção altíssima só tem par na proporção altíssima de plátanos, de colinas verdes, de livrarias e de pinturas murais. É assim uma capital de bolso, maneira, tão voltada para fora como para dentro, com várias espécies de oxigénio.

3. A água é meio doce, meio salgada, meio rio de la Plata, meio Atlântico. Toma-se banho no Verão (se a poluição não interditar), há praias, areal, dunas. Mas agora corre um suave Outono, e os uruguaios pela rambla. É como chamam aos seus vinte e cinco quilómetros de passeio, as ramblas, que vão mudando de nome. E o recorte da cidade, que forma uma pequena península, faz com que por vezes possamos avistar água à esquerda, ao fundo e à direita.

Há marginais em que os olhos tanto vão para a água como para a arquitectura em volta. Em Montevideu, a arquitectura ao longo das ramblas recua, tudo puxa para a água. E quando isso não acontece, é uma colina, um declive verde do outro lado da estrada, onde os uruguaios estão sentados, deitados, voltados para a água.

4. Leio num censo que há 300 mil árvores na cidade. Nem todas plátanos, mas a grande maioria. São ruas compridíssimas com plátanos de um lado e do outro, e praças de plátanos, uma após outra. Apesar das alergias na Primavera, dão sombra no calor, sol no Inverno. No Outono, como agora, fica uma filigrana, sol-sombra, ainda copas verdes, já passeios dourados, das folhas caídas, aqueles troncos que parecem dorsos de animal. E aqui, ao contrário da rambla, os olhos vão de fachada em fachada, art déco, modernismo, madeira trabalhada, platibandas, vitrais, azulejos, ferro forjado, umas cuidadas, outras decaídas, muitas pintadas, ilustradas, escritas. Como se Montevideu tivesse também uma proporção altíssima de grafiters, de pintores e escribas murais, como parece ter de leitores.

5. As livrarias. A gente abre um mapa de Montevideu no google, e saltam à vista. Nada de multinacionais, de grandes cadeias: livrarias independentes. No meu toca-e-foge na cidade fui apenas a quatro, bem diferentes, mas a lista das recomendadas é extensa.

Começando pela Más Puro Verso, que fica na mais célebre rua pedonal, a Sarandi, entre a Praça da Independência e o velho porto. E antes mesmo de entrar, antes dos vitrais, da escadaria, do café lá em cima, o que impressiona é a montra estar cheia de Walter Benjamins, filosofia e ensaio em geral. A montra de uma grande livraria da rua mais famosa. Nada de best sellers como isco. O que diz isto sobre Montevideu?

Na travessa em frente está a minúscula livraria Lupa, apenas um corredor com uma mezzanine, mas aproveitado ao milímetro, e com uma selecção “exquisita”, o que em espanhol é um grande elogio, incluindo um nicho infanto-juvenil.

Voltando à Sarandi, rumo ao porto, há uma bela pracinha de onde se desce para o café mais antigo da cidade, o Brasileiro, onde Eduardo Galeano parou por vinte anos. Era hora de almoço, lá estavam os espelhos, as vitrines oitocentistas, os retratos de época. Mas não havia turistas, menus manhosos, música alta. Só uruguaios a comer e conversar, mesas livres. Um lugar de verdade, ainda.

Como bem de verdade me pareceu a ponta final da Sarandi, e ruas em volta, quando a jovem Montevideu orgânica, de fusão, até padeira artesanal, em terras que não são de pão, dá lugar à velha Montevideu do porto, das tascas e armazéns de pescadores, esquinas mal-afamadas, a onde nos disseram que não fôssemos.

6. Mas para ir a outro pólo livreiro, há que caminhar para outra ponta da cidade, algumas dezenas de quarteirões. Aí se encontram os alfarrabistas da rua Tristán Narvaja, como o Babilónia, com a sua clarabóia, os seus espelhos, as suas plantas pendentes. Ou a prima Babilónia na outra esquina, especialista em banda desenhada e vinis.

Saindo daqui, é uma pequena caminhada até uma das livrarias geralmente favoritas da cidade, a Escaramuza, numa bela casa art déco com alto pé-direito, clarabóia-vitral, um restaurante concorridíssimo com pátio, e uma lousa negra de actividades regulares. Muitas edições vêm de Espanha e da Argentina, mas muitas são também locais, o que é impressionante pensando que o Uruguai tem apenas três milhões e tal de habitantes, um terço de Portugal.

Só não votaria a Escaramuza como favorita por causa da música alta, descartável. Mas talvez eu tenha tido azar. Não tira que esta pareça a capital menos ruidosa da América Latina. Uruguaios incluídos: a um pulinho de barco de Buenos Aires, mas de temperamento muy distinto. Talvez isso ajude a manter Montevideu como um meio-segredo no mundo.

7. De resto, na minha bagagem onde já não devia caber mais nada, porque ao Uruguai se segue um mês de andança pelo Brasil, meti um Felisberto Hernández, um Francisco Espínola, e duas Cristinas Peri Rossi, menos mal. Obrigada a quem me recomendou estes escritores uruguaios. A possante Cristina está viva, activa, e em Espanha, onde se exilou nas vésperas da ditadura militar no Uruguai. Eis toda uma Montevideu que nesta vinda de raspão mal vislumbrei, a dos vestígios da violência, a das antigas prisões, hoje shoppings ou centros de arte. Nem a zona rural onde mora Pepe Mujica.

8. Se há que voltar, e voltar, o aeroporto de Montevideu ajuda. Melhor aeroporto do mundo. Tudo, da segurança à imigração, custa minutos, nada. Novo em folha, mas não menos amigável do que a cidade.

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