O assalto ao congresso é uma jornada rude. Mas ao mesmo tempo, encorajadora: a democracia americana, apesar de debilitada, mostra ter anti-corpos suficientemente fortes para derrotar esta vaga de ataque.

O que aconteceu no Capitólio estava anunciado: Trump, ainda em dezembro, já tinha avisado que “o 6 de janeiro seria brutal”.

Trump jogou com uma vantagem que tem explorado: não é levado a sério. Se fosse, evidentemente, mesmo com cumplicidades de forças de segurança na organização desta insurreição, seria impensável que a horda furasse as barreiras do Capitólio e entrasse a profanar este templo da democracia na América.

Mas ele é um incapaz até para urdir com inteligência uma conspiração. O que promoveu foi um fiasco que o derrota ainda mais. A manobra resulta num desastre para ele e os amigos: não só Biden está confirmado como presidente, muitos céticos ficaram a vê-lo como salvador e Trump perdeu a possibilidade de continuar a influenciar o Partido Republicano. Tanto ele como o clã familiar que tem tanta aspiração de protagonismo saem de rastos.

Aquele vídeo que Trump teve de gravar e publicar no Twitter enquanto os fanáticos dele invadiam e saqueavam o Capitólio é a confissão do bombeiro pirómano: diz àquela tropa de seguidores que “os ama”, vê-se obrigado a pedir-lhes que voltem, fracassados, para casa, embora a insistir que o trumpismo teve uma vaga eleitoral que “lhes foi roubada”.

Trump é o responsável pela irresponsabilidade. É o responsável pelos acontecimentos violentos no Capitólio e é o responsável pelo dano causado à democracia americana. Também ao Partido Republicano, que o acolheu, que se serviu dele e que depois se pôs, sem pudor, ao serviço dele.

O direito à contestação de resultados eleitorais é incontestável numa democracia. Argumentou que uma conspiração entre as multinacionais e o aparelho do Partido Democrata estava a confiscar-lhe o triunfo pelo voto. Apresentou dezenas de queixas e recursos, mas nunca juntou qualquer prova que pudesse dar alguma substância à acusação. Conseguiu puxar milhões de seguidores para a adesão a essa engrenagem das alegadas forças satânicas “contra Trump e o seu povo”.

A maioria dos dirigentes republicanos deixou-se tomar pelo medo de perder essa vasta base eleitoral. É um erro que provavelmente lhes vai custar muito caro. Já se viu, nesta semana, como dois democratas conquistaram a representação da Georgia no Senado que tradicionalmente era dos republicanos.

O líder republicano no Senado, Mitch McConnell, ainda tentou, a abrir a sessão que foi violada pela horda de assaltantes, salvar a honra republicana ao reconhecer que nenhuma norma democrática pode impedir a proclamação de Joe Biden como o próximo Presidente dos Estados Unidos da América. Mas o mal estava feito.

Tanto tempo de cumplicidade de dirigentes republicanos com as derivas de Trump levaram ao caos desta quarta-feira e fragilizaram muito a democracia americana. A recuperação vai ser muito demorada e complexa. O mal trumpista parasitou outros males que já estavam a minar a sociedade americana.

Foi com a exploração “populista” desses males que Trump se fez eleger há quatro anos. Ele protagonizou a revolta eleitoral contra os vícios do detestado sistema político elitista assente nas duas costas, a do Atlântico e a do Pacífico. Hillary Clinton personifica como pouca gente esse sistema tão detestado pela América do meio que, no tempo de Trump, foi encorajada a armar-se cada vez mais.

Mas Trump é um egocêntrico. Em vez de utilizar esse enorme capital político como base a evolução inclusiva da América, usou-o quase exclusivamente ao serviço dos interesses do clã que encabeça.

Sai derrotado. Tem muito seguidores com ele entre o vasto nacionalismo branco, mas o traumatismo do golpe final que lançou acaba por servir a Biden para ficar fortalecido como o reconciliador que trata de revitalizar partes do corpo da América que a loucura destruidora de Trump fez infetar com vírus maligno.

O presidente cessante sai em queda pela porta pequena. Deixa em herança muita gente nutrida com o ódio que ele alimentou com as contra-verdades que espalhou.

Não está excluído que os 13 dias de presidência ainda no calendário de Trump tenham novas ameaças. Seria um bom começo se os dirigentes do Partido Republicano tivessem a coragem de lhe retirar a confiança.

Para ajudar à convalescença da América há muito a fazer. É preciso saber como é que as forças de segurança, sempre duras a reprimir manifestações como as do movimento Black Lives Matter, deixaram aquela horda invadir o Capitólio. Trump sai do palco político, mas falta apurar responsabilidades pelo dano que causou. Também é preciso investigar quem é cúmplice e responsabilizar esses implicados.

E falta que a nova liderança política dos EUA seja mesmo capaz de tratar os males da sociedade americana.

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