Estamos na era das redes sociais e da informação digitalizada. O Presidente dos Estados Unidos diz o que pensa directamente aos seus seguidores e opositores através do Twitter. Os órgãos de informação digital (como o SAPO24) chegam às pessoas antes da televisão, que chega antes da imprensa em papel. Neste quadro, pode perguntar-se para que serve uma agência informativa como a Lusa, que fornece notícias aos fornecedores tradicionais de notícias. A Lusa custa dinheiro aos contribuintes, mediante o pagamento de uma indemnização compensatória. O modelo de negócio é o seguinte: a empresa, que é maioritariamente detida pelo Estado (50,14%) vende as notícias aos órgãos de comunicação social assinantes (qualquer entidade pode assinar) e o Estado paga o prejuízo que possa haver. A tutela é do Ministério da Cultura. Para fazer as notícias, a Lusa tem 280 jornalistas espalhados por dezenas de países, inclusive os PALOP – é uma rede de correspondentes que nenhum órgão de comunicação social pode manter e assim a agência supre essa necessidade.

Ao longo dos anos, a agência tem vindo a lidar com problemas políticos que foram resolvidos melhor ou pior, conforme a conjuntura. A empresa foi constituída na sua presente denominação em 1986, vinda de outra, a ANOP, que por sua vez vem da ANI, a agência noticiosa do Estado Novo. Ao ser formada a ANI (1947) não havia qualquer pretensão de imparcialidade; o Governo informava o que achava do seu interesse e omitia o que não lhe convinha. Depois da Revolução, a situação andou ao sabor das ideologias dominantes nos vários momentos políticos, os governos garantindo sempre que não interferiam na orientação das notícias, as oposições queixando-se precisamente do contrário. Provavelmente, ambos tinham razão; se já é difícil ser neutro e imparcial numa notícia (há quem admita que é impossível) quando ela vem de um organismo tutelado por um Ministério, a assunção de parcialidade é difícil de evitar.

Outro problema é o custo, sempre insustentavelmente deficitário em termos operacionais. Quanto custa uma rede internacional de jornalistas? Em 2015 foram 13 milhões de euros, em 2016, 16 milhões. E não chegavam, nunca chegam. A Lusa é tutelada por um dos ministérios menos favorecidos no Orçamento de Estado, que tem de dividir os parcos fundos por monumentos nacionais, instituições culturais (como os museus) e iniciativas de divulgação com custos nunca cobertos pelas receitas.

A estrutura da empresa tem um conselho de administração, dirigido por um Presidente, e várias direcções, a mais importante das quais é, como seria de esperar, a de Informação. Desde 2015, a Presidente era Teresa Marques, uma jurista especializada em Recursos Humanos; e o Director de Informação o jornalista Pedro Camacho.

Para além dos problemas políticos e económicos, levantou-se ultimamente a questão de haver necessidade de uma empresa noticiosa deste tipo. Os seus principais clientes, a comunicação social escrita, viram a sua circulação diminuir 26% só em 2016, numa tendência constante de redução de influência. As redes sociais e a informação digital, em formas como o Snapchat ou o Instagram, fornecem cada vez mais dados para a comunicação social – se são notícias verdadeiras ou fake, é outra questão. Ou seja, a Lusa enfrenta uma competição de “amadores” que, quer se queira ou não, é muito mais rápida a informar e a reagir à informação.

Talvez por não querer continuar a lidar com estes problemas, talvez por outras razões, Teresa Marques anunciou há semanas que sairia da Presidência da Lusa. Na semana passada o jornal “O Público”, num artigo que tem sido muito criticado, informou que o Governo estava a pensar em colocar um deputado da AR no seu lugar; e que os “candidatos” seriam os socialistas João Soares e Gabriela Canavilhas.

As críticas que imediatamente surgiram assentavam em duas vertentes: uma, a politização que representaria uma agência que se quer apolítica ser dirigida por um deputado, obviamente do partido no poder, o PS; duas, os nomes apresentados, precisamente de duas figuras que já tinham sido ministros da Cultura e saíram em circunstâncias de acrimónia, para uma agência cuja necessidade se coloca cada vez mais em questão, seria uma espécie de beijo da morte.

Mas a notícia do “Público” não tinha fundamentos sólidos – alguma “fonte” terá havido, mas pelos vistos era tão credível como a maior parte do que sai nas redes sociais... Ambos os supostos candidatos declararam imediatamente que nada sabiam da história; João Soares estava em Cuba e disse que não tinha sido abordado e se fosse não aceitaria; Canavilhas meteu os pés pelas mãos mas, obviamente, foi apanhada desprevenida.

Desde o anúncio da saída de Teresa Marques que obviamente teriam de haver movimentação de bastidores no Ministério da Cultura e até no Governo. Delas resultou, afinal, uma escolha muito consensual: Nicolau Santos, o sub-director que está de saída do Expresso. Começou a sua carreira no jornal em 1980, na área de economia, e é considerado um profissional competente e atento. (Há quem lhe aponte isto e aquilo, mas qualquer figura pública tem sempre os cães nas canelas...) A esquerda considera-o de direita e a direita considera-o de esquerda, o que é um bom indício de imparcialidade q.b.

Claro que houve logo – nestes dois ou três dias – quem visse na escolha de Nicolau Santos a mão de Francisco Pinto Balsemão, que assim o compensaria por sair do Expresso; mas, dadas as relações, ou melhor, não relações, que existem entre Balsemão e o actual Governo, a hipótese é meramente especulativa e pode ser incluída nos mexericos que rodeiam decisões deste porte.

Um jornalista a dirigir a Lusa é uma boa notícia (embora outros jornalistas que já ocuparam o lugar fossem bastante discutíveis...). Nicolau Santos tem uma missão difícil pela frente: fazer da Lusa, com as limitações orçamentais de sempre, uma peça significativa numa época em que o xadrez está a mudar de regras. Só desejamos que consiga.

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