Ainda assim, tenho muitas saudades do meu pai. Por alguma razão, nos meus sonhos nunca damos mergulhos na praia da Aberta Nova. Nunca fazemos jogos de cartas que eu ganho sempre. Nunca discutimos se o The Times é um jornal liberal ou conservador. E nunca reclamamos que o Moreira é que devia ser o guarda-redes do Benfica. Tenho saudades disso.

Acho que o meu pai também deve ter saudades. O meu pai tem sempre saudades. É por isso que ele é tão bom a contar histórias. Toda a gente sabe que uma história sem saudades é como um bife tártaro sem duas colheres de chá de sumo de limão: não tem interesse nenhum. Com saudades é que as histórias são apetitosas. Fazem-nos crescer água na boca – e lágrimas nos olhos. Queremos voltar lá, ao lugar onde foram vividas.

Sai esta semana o último livro do meu pai («Não Respire» de Pedro Rolo Duarte, Editora Manuscrito, 2018). É um livro cheio de saudades. Tem saudades da balbúrdia criativa da revista K. Saudades do primeiro número de O Independente. Saudades do risco, da fotografia e do design do DNA. Saudades das noites no Targus e no Frágil. Saudades de Mário Bettencourt Resendes. E de Carlos Cáceres Monteiro. Saudades de Zé Miranda no Pap’Açorda. Da aldeia do Penedo. Da Zambujeira do Mar antes da loucura do Sudoeste.

Este livro tem saudades que nunca mais acabam. Talvez seja por isso que, quando o começamos a ler, não conseguimos parar. Tem tantas saudades, tão bem contadas, que só nos faz pensar: que bom que é, isto das saudades! Quero mais!

Com saudades recordamos os que não estão cá. E com saudades em livro podemos falar deles no presente. Afinal de contas, é o meu pai que está ali, na obra. É através das palavras do meu pai que embarcamos, com ele, numa viagem às pessoas, aos lugares e às histórias da sua vida. E é com o ritmo das frases dele que acabamos por voltar a ouvir a sua voz.

Nenhum de nós vê o meu pai há seis meses. Excepto eu, que sonho com ele todas as noites. E excepto todos os que lerem este livro – para quem o ler, há um reencontro marcado. O meu pai está de volta. E temos 296 páginas para matar saudades. Ou para deixá-las viver.


O livro do jornalista Pedro Rolo Duarte, “Não respire”, editado pela Manuscrito, é hoje, 21 de maio, apresentado às 18h00 no Museu da Eletricidade, em Lisboa.

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