Nós, que éramos jovens adultos na altura (há quem aponte que fomos a primeira geração de adolescentes em idade adulta, teens fora do prazo), tornámo-nos viúvas da comédia estilizada, da coreografia dos costumes, ou da subtileza dos lugares-comuns que Seinfeld preconizava. Por outro lado, o fascínio grotesco da realidade fez com que poucos de nós resistissem completamente à cultura mirone (diria “cultura vouyeurística”, não fosse “voyeur” uma palavra de sonoridade demasiado elegante para a grosseria a que nos entregámos) dos reality shows. Ver o Big Brother para gozar era, apesar de tudo, ver o Big Brother. O consumo destes programas, quer pela vertente irónica, quer pela vertente mexeriqueira e telenovelística, era em todas as medidas um consumo.

Vivia-se o desmame do estilo, vivia-se a habituação à realidade exposta (como uma fractura), vivia-se uma adolescência perene. Neste ambiente, o início do século revelou-se terreno propício para a comédia ligada ao real, onde o riso facilmente se associa ao desconforto e ao defeito social. Na televisão floresceu o “mockumentary”, que numa tradução tosca se refere ao género dos “documentários a fingir”. Os mockumentaries simulam o estilo de filmagem e de edição dum documentário, e perseguem os personagens como se fossem pessoas reais em cenários reais, mas são comédias meticulosamente escritas. O caso de maior fama e influência será o da série britânica The Office, mais tarde emulada nos Estados Unidos num programa com o mesmo nome.

A premissa dos mockumentaries passa por dar um mergulho no cenário mais banal e enfadonho, de forma a desarmar o espectador. A popular “vergonha alheia” é um sentimento que só acontece quando nos sentimos próximos das características de quem nos está ali a embaraçar – podíamos ser nós, podia ser quem conhecemos; é gente à mão de semear – e essa tornou-se a cartada forte destes pseudodocumentários: obter resultados hilariantes pelas disrupções numa banalidade que podia ser a das nossas vidas. Submergimos no que aparenta ser real, envergonhamo-nos com o que parecia real, rimo-nos realmente.

Os britânicos Ricky Gervais e Stephen Merchant, criadores do “The Office”, não inventaram o mockumentary, mas tornaram-no seminal. Temos visto repercussões dessa comédia num sem-número de outros programas, consolidando o género de tal forma que hoje em dia quase não se dá por ele por ser tão mainstream. Fora deste paradigma está outro britânico, mas também ele a emergir em grande escala com o início do século. Sacha Baron Cohen gozou dos exactos mesmos ingredientes para enveredar pelo tipo de comédia que preda o real. O que Cohen passou a fazer pode, também, ser muitas vezes chamado de mockumentary, mas a abordagem é demasiado díspar para que consigamos pôr tudo no mesmo saco. Enquanto que Gervais e Merchant descobriram como cozinhar a ficção num lume brando de realidade, Baron Cohen deita água numa frigideira com óleo a ferver. Com os seus personagens Ali G, Borat ou Bruno, Sacha não traz a realidade para dentro da ficção, faz o inverso: leva a ficção para o mundo real, e é demasiado incrível para não ser credível.

Ali G é o rapaz branco dos subúrbios londrinos, apedeuta extremo, amante da cultura gangster do hip hop ao ponto de se achar negro. Borat é o jornalista cazaque que parece saído duma mistura bizarra de cultura pop eslava dos anos 80 com espírito medievo, machista e anti-semita. Bruno é o repórter de moda, caricatura frívola e excêntrica duma cultura frívola e excêntrica. Todos estes personagens são lançados na vida real, em entrevistas que excedem os limites da correcção e do decoro – o resultado era tão desconfortável quanto hilariante, e o escárnio estava descontrolado: ora se fazia pouco das ideias abjectas dos visados, ora se fazia pouco dos defeitos sociais que o entrevistador simulava.

Sacha Baron Cohen revolucionava assim o formato do “programa de apanhados”, e não havia Guilherme Leite que se aproximasse da desavergonhice do inglês. Engenhoso, inteligente, mordaz mas, acima de tudo, o grande trunfo do actor/autor era a tal desavergonhice. O desplante e a coragem física de Cohen tornaram-no numa figura a ter em conta nos anos zero. Para além disso, verificava-se na sua comédia uma blindagem excepcional. Quando fazia humor rasteiro (e fê-lo muitas vezes), podia entender-se que satirizava o humor rasteiro ou, por outro lado, podia estar simplesmente a usá-lo como provocação às classes mais sobranceiras, passando elas a ser o alvo da crítica. Aqui se verifica a tal blindagem: Baron Cohen mistura-se com a realidade, e quer a sua atitude seja de conivência ou de provocação, no final salvaguardava-se sempre o espírito da mordacidade; a culpa da baixaria não era dele, é de todos nós.

A comédia de Ali G, sendo genuinamente britânica, não encaixa de caras em nenhuma tradição específica de humor britânico. É tão distante de John Cleese como de Benny Hill, tão distante de Stephen Fry como de Sid James, tão distante de Ronnie Corbet como de Rowan Atkinson. E ainda assim próxima de todos em alguns aspectos -  na lascívia, na justaposição da absurdidade com a realidade, no clownesco, na sátira. Os paralelos óbvios estarão noutros comediantes britânicos, aqueles que se comprometeram com os seus personagens para lá do razoável: de uma forma menor podemos lembrar-nos do contemporâneo Steve Coogan e suas figuras (desde o famoso Alan Partridge ao Tony Ferrino – o português que ganhou a Eurovisão antes do Salvador); de uma forma maior, lembramo-nos das metamorfoses de Peter Sellers (provavelmente o mais grandioso actor que nunca ganhou um Óscar).

Se Sacha Baron Cohen tinha algo da esquizofrenia de Sellers (e eu, admirador de Sellers, estou a dizê-lo com todas as cautelas do mundo), conseguia-a fora do ambiente controlado de que o reverenciado actor gozava, e isso é notável. Cohen contracenava com pessoas que desconheciam que cena era aquela, e ao improviso acrescentava coragem. Por isso é que, entre 2000 e 2004, enquanto “Da Ali Gi Show” se manteve na televisão, o séc. XXI parecia ser um palco inesgotável para a lata hilariante de Sacha. Não eram apenas os 3 personagens (Ali, Borat e Bruno) a brilhar naquela parada; o cidadão incauto, ou a celebridade entrevistada, ou o político vilanizado, todos eles se tornavam personagens orquestrados pela audácia de Baron Cohen.

Em Julho de 2018, e com moldes muito semelhantes aos do “Da Ali G Show”, o comediante inglês voltou à televisão. Será que está tudo na mesma? Que o modus operandi dele é o mesmo? Que o nosso entusiasmo é o mesmo? Que as gargalhadas e pasmo que nos arranca são iguais e em mesmo número? Creio que não. Mas vou só ali espreitar o 3º episódio e logo vos digo o que penso.

A espreitar

A grande celebridade portuguesa de que Portugal nunca ouviu falar.

Quando não estou no YouTube a ver as tops das 10 melhores jogadas do Michael Jordan, estou a ver tops do Peter Sellers.

O líder do mundo livre e o Donald Trump.

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