As memórias e a saudade, enquanto o fado permanece

Alexandra Antunes
Alexandra Antunes

Se uma gaivota viesse
trazer-me o céu de Lisboa
no desenho que fizesse,
nesse céu onde o olhar
é uma asa que não voa,
esmorece e cai no mar.

Uma estrofe basta. Não lemos o poeta, ouvimos a fadista. A sua voz continua a ressoar nos dias de hoje. É Amália Rodrigues. A nossa Amália, que celebra neste estranho 2020 o seu centenário. A data do seu nascimento, embora com as dúvidas dos registos da época — se foi a 1 ou a 23 de julho —, pouco interessa. Como escreveu Paulo André Cecílio num dos artigos do Especial sobre Amália Rodrigues do SAPO24, "o povo, o mesmo que fez do seu nome uma lenda, pouco se importará com o mapa astral daquela que é commumente considerada como uma das maiores cantoras do século XX – ou até mesmo a maior, dependendo da pessoa a quem se pergunte tal coisa. Nem os astros, em toda a sua magnificência, poderão rivalizar com a garganta que fez do fado património imaterial da humanidade".

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

No coração de todos os portugueses retine o nome da mulher que cantou pelo mundo. De quem cantou a saudade tão portuguesa, a tristeza e o amor que é de todos também. Mas será que sabemos tudo sobre ela? A vida de Amália aparece um pouco por todo o lado: documentada em livros, em entrevistas, nas mais diversas homenagens. Mas existem sempre curiosidades que nos podem passar despercebidas. E são algumas dessas que reunimos em mais um artigo. Por exemplo, sabia que Amália era adepta do Belenenses? Ou que convidou Rui Reininho para beber um copo? São 10 histórias para ler e guardar na memória.

Se um português marinheiro,
dos sete mares andarilho,
fosse quem sabe o primeiro
a contar-me o que inventasse,
se um olhar de novo brilho
no meu olhar se enlaçasse.

Tal como as aventuras que os portugueses sempre contaram sobre as suas conquistas e descobertas, também quem privou com Amália ou se sentiu perto dela — mesmo sem a ter conhecido — tem um lugar neste centenário. Aquela que é considerada a voz de Portugal é retratada pela música e pelo que dela recordam. E muitos são os que têm algo a contar.

Uma pujante Amália com 57 anos – sempre de cigarro em riste – dava-me um beijinho e parabenizava o seu amigo Nicolau pela descoberta de um jovem talento para o seu “Senhor Feliz e Senhor Contente”, conta Herman José.

Amália está espalhada em fotografias pela minha casa. A intemporalidade dela merece uma vénia diária. Ainda fico fascinada com o que vestia e dizia, com aquela sageza que muito poucos têm, diz Inês Maria Meneses.

Tive o privilégio de me encontrar com ela quando tinha 12 anos. Guardo esse episódio no meu coração. Vi-a chegar e não estava a acreditar que ela fosse tão baixinha. Imaginava-a uma figura altíssima — e essa continua a ser a figura da Amália na minha cabeça, uma figura imponente, recorda Carminho.

E tantas, tantas outras memórias. Hoje, é delas que se faz Amália. Das memórias e da saudade, enquanto o fado permanece.

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