"A minha história com Amália" por:

Herman José
Carlos Cruz
António Sala
Inês Maria Meneses
José Carlos Malato
Filipe La Féria
Álvaro Covões
Marco Paulo
Cristina Branco
Carminho
Katia Guerreiro
Fábia Rebordão
Lila Fadista
Ana Laíns
Elsa Laboreiro
José Gonçalez
Stereossauro
Joana Mortágua
João Soares
Luís Soares de Oliveira
Francisco Sena Santos
Joana Machado


A minha história com Amália é muito simples e conta-se em três atos:

O primeiro passou-se em 1977 nas bombas de Pombal, ao lado do Nicolau Breyner, a caminho dos espetáculos. Uma pujante Amália com 57 anos – sempre de cigarro em riste – dava-me um beijinho e parabenizava o seu amigo Nicolau pela descoberta de um jovem talento para o seu “Senhor Feliz e Senhor Contente”.

O segundo ato começa quando me atrevi a convidá-la para a festa do meu 35º aniversário na Casa da Comida em 1989. Nasceu nesse ano uma amizade que durou até ao final da sua vida.

Finalmente o terceiro ato, feito de almoços tardios com amigos comuns, de jantares regados a gargalhadas e de sumarentas conversas até às tantas da madrugada. O seu 74º aniversário comemorou-o num programa meu da RTP, o “Parabéns”, rodeada de amigos e família, e que pode felizmente ser recordado no YouTube.

(Herman José dispensa apresentações. Devemos ao humorista e a Joaquim Monchique, em "Herman Enciclopédia", uma das melhores e mais icónicas representações de Amália. 'Muito obrigada, obrigada')

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Conhecia a Amália relativamente bem. Nunca pertenci ao círculo privado dela, embora tenha ido duas ou três vezes a sua casa — mas sempre em trabalho. Convivi com ela mais de perto em julho de 1977. Eu estava em Nova Iorque, e a Amália foi aos Estados Unidos cantar no Dia de Portugal, em New Bedford, convidada pela comissão das comemorações do 10 de junho, a que presidia o Major Vítor Alves. E o Major pediu-me para organizar um espetáculo por fora das comemorações, um espetáculo com bilhetes pagos, público.

Eu desenrasquei-me, mas consegui de facto produzir um concerto dela no Carnegie Hall, uma sala mística onde atuaram os grandes artistas de todo o mundo. E, portanto, convivi muito com ela nessa altura. Ela esteve inclusive em minha casa, onde lhe ofereci um pequeno cocktail, a ela e aos guitarristas, com os portugueses com quem eu convivia mais, e com pessoal da missão portuguesa.

Depois, apresentei o espetáculo dos 70 anos do aniversário dela. No meu programa "Quinta do Dois" deixou-se entrevistar com total sinceridade; respondeu, muitas vezes, emocionando-se. Chegou mesmo a chorar. E eu tive que dar a volta à entrevista, para a colocar noutra situação emocional. E foi muito engraçado, porque ela passou das lágrimas à gargalhada...

Ela tinha uma "implicação" comigo muito divertida, não sei porquê. Sempre que se encontrava comigo, dizia: "Ó Carlos Cruz, diga-me lá uma coisa: porque é que você não gosta de mim?". Quando eu a adorava, e dizia-lho... Mas ela insistia: "você não gosta de mim", com aquele ar malandreco.

Isto para dizer o quê? A Amália era uma pessoa especial, única. Não só como artista; acho que é a melhor voz feminina de sempre do fado. Em Portugal, não há ninguém que consiga chegar lá, por muito que tentem imitá-la. Ela tinha uma voz privilegiada, um sentimento que nem toda e qualquer pessoa consegue expressar. Fui grande admirador dela como cantora. Não cantava só fado, às vezes cantava umas "espanholadas". Era o lado divertido dela, e ela própria se divertia. Punha o público a cantar com ela.

Acho que a alma da Amália nada tinha a ver com a imagem que, no geral, as pessoas têm dela. Ela tinha uma humildade interior, até no conviver com as pessoas, que de facto as tocava. Uma grande artista, única, em Portugal, e um ser humano que dependia muito da forma como conseguia controlar a sua fragilidade. Era uma pessoa tímida, ao contrário do que possa ter parecido a alguém, e essa timidez era exatamente o resultado da fragilidade que existia. Isto é uma opinião minha, pessoal, só me compromete a mim. Posso estar completamente enganado, mas era essa a imagem que tinha dela, das variadíssimas vezes que convivemos.

Pareceu-me sempre que o ambiente natural dela era a sua casa, o seu mundo, e um círculo muito restrito de amigos íntimos - não apenas da música. Essa era a zona de conforto dela. Ela sabia que tinha responsabilidades públicas, porque era uma vedeta. Mas nunca se comportava como tal.

(Carlos Cruz contou numa entrevista antiga ao SAPO24 que Amália foi única pessoa que chorou numa entrevista sua. Em programas de televisão como "Zip-Zip" (1969), "Quinta do Dois" (1986) ou "Carlos Cruz Quarta-Feira" (1991), o apresentador cunhou um estilo de conversas ainda hoje seguido)

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A minha amizade com Amália já vinha dos anos setenta. Era uma amizade pautada por estima e respeito mútuos. Sempre gostámos muito um do outro. Entre muitas, conto-vos duas histórias.

Em 1986, assinalei 20 anos de atividade profissional. Para comemorar fiz um concerto no Coliseu dos Recreios em Lisboa, com lotação esgotada, e que foi programa na RTP 1 em horário nobre. Ali fui acompanhado pela Orquestra da Felicidade do Brilho e da Glória, sob a direção do maestro Jaime Oliveira. Mas, ao passarem vinte anos desde o início da minha carreira, ter nessa altura Amália ao meu lado como convidada principal dessas comemorações, era ter muito, mas muito mais do que alguma vez eu poderia ter sonhado. Tive como convidada de honra uma pessoa com quem sempre mantive uma grande amizade e por quem nutri uma admiração muito especial até ao fim da sua vida. Ali esteve Amália em palco comigo.
 
Mas, há outra grande história que guardo no melhor das minhas memórias. Amália, que tinha atuado nas maiores salas de todo o mundo, mas que - incrivelmente - nunca tinha feito um concerto apenas seu, ou seja, um espetáculo a solo em Lisboa. Orgulho-me muito de o ter conseguido. Fui o responsável, um ano antes, em 1985, no Coliseu, por um concerto da nossa maior cantora no mundo, numa parceria com o jornal A Capital. Recordo que, algumas semanas antes, num almoço no Tavares Rico, a Amália deu-nos uma entrevista de vida fantástica, num trabalho que fiz com o jornalista Sousa Neves. Ela nunca esqueceu esse concerto, e referiu isso inúmeras vezes em público e em privado, sempre com muita ternura. Estas foram palavras de Amália à comunicação social:

“Acabei por me decidir a ir à América do Norte consultar um médico, primo do meu marido. Pensava que ia morrer, todos os dias adiava a operação e fazia planos de suicídio. Fui operada e soube que se tratava de um tumor benigno. Voltei a Portugal e a minha depressão persistia. Então, aconteceu o segundo “milagre”. O António Sala convidou-me para fazer o meu primeiro concerto sozinha em Lisboa, no Coliseu dos Recreios.

Eu que dei concertos a solo por todo o mundo, de Tóquio a Nova Iorque, mas em Portugal nunca. Pode parecer um paradoxo, mas assim é. Foi a primeira vez, em toda a minha vida, que dei um recital completo no meu país. Foi o António Sala que o realizou. Foi ele que me levou a solo ao Coliseu em Lisboa. E se o espetáculo aconteceu, devo-o também ao António Sala, que insistiu comigo para que se fizesse. Nesse espetáculo começou a minha ressurreição. Deu-me força para a vida. As pessoas foram ver se eu ainda cantava. Algumas iam mesmo com vontade de que eu estivesse liquidada. Mas, não estava. Foi o começo de uma nova fase da minha carreira. Ao Sala o devo.”

Recordo que esse dia do concerto foi tumultuoso. Só o João Viegas Soares e a minha assistente Luísa Espírito Santo sabiam da ameaça telefónica que tinha ocorrido no final da manhã do espetáculo. Uma voz masculina, em tom violento, prometia: “Os fascistas vão ter o que merecem. Esta noite uma bomba vai rebentar no Coliseu.”

Tudo isto me foi ocultado, assim como à Amália. Durante essa tarde, uma equipa de minas e armadilhas da PSP “varreu integralmente” a velha e prestigiada sala das Portas de Santo Antão. Declararam o edifício limpo. O concerto foi fantástico, e só no final me contaram a história da ameaça. Quiseram poupar-me a mais dores de cabeça. Quando, já altas horas, no camarim de Amália, a Luísa lhe contou o empolgante episódio, eu estava lá. Recordo que nessa altura, a nossa diva olhou-a de frente, pegou-lhe na mão e disse serenamente: 

- Minha filha, eu não tenho medo de morrer.

Nessa noite, nada, mas mesmo nada, lhe iria perturbar o sabor delicioso de um festejado regresso e de um êxito absolutamente memorável. A única bomba no Coliseu chamava-se Amália.

Que saudades dessa mulher e Artista tão inteligente, e tão incomparável.

Que saudades dessa grande amiga e grande Senhora.

Que saudades de Amália.

Nunca as mato, mas consigo atenuá-las um pouco sempre que ouço a sua Voz.

(Comunicador por excelência, seja na televisão ou na rádio, há mais de cinco décadas que a voz António Sala é inconfundível. Esta fotografia em casa de Amália, com data de 1990, mostra a cumplicidade entre os dois)

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Lembro-me de tardes que desaguavam em noites com o meu pai sempre a ouvir a Amália. Lembro-me de ser miúda e sentir uma dor ainda sem cabimento (porque não cabia em mim mesmo) ao perceber tantas palavras que davam corpo a um sentimento de adulto mas que afinal pode já nascer connosco. Vem desse tempo o meu deslumbramento pela Amália, a mulher mais bonita que Portugal já viu, e o mundo ouviu.

Amália está espalhada em fotografias pela minha casa. A intemporalidade dela merece uma vénia diária.

Ainda fico fascinada com o que vestia e dizia, com aquela sageza que muito poucos têm.

Um dia estive em casa dela (ela estava no quarto a descansar). Não nos recebeu. Fiquei na sala em suspenso a saber se ia conhecer a mulher que tinha feito de mim crescida antes do tempo. Não aconteceu. A casa estava cheia de flores e havia peso – o peso da história – naquelas paredes. Saímos de lá sem falar com ela mas vim a ajudar a realizadora Rita Nunes a fazer um vídeo chamado “Amália por nós” onde todos demos a nossa voz.

No momento em que vos escrevo, preparo-me para entrevistar alguém que conheceu muito de perto Amália e já a meio deste pequeno texto recebi uma encomenda que me trazia livros e discos que a evocam.

Rio-me deste acaso e é como se Amália, na parede, me piscasse o olho.

São poucos os intemporais. E essa intemporalidade nunca pode ser mimetizada ou repetida. Ninguém será a “nova Amália” porque todos têm a sua essência e os rótulos são sempre demasiado fáceis ou injustos.

Celebremos Amália. Que sorte foi o país tê-la.

(Inês Maria Meneses é uma das vozes mais carismáticas da rádio portuguesa. Depois de "Amores (Im)Possíveis" (2018), publicou recentemente o livro "Caderno de Encargos Sentimentais")

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Amália está em todos os momentos marcantes da minha vida. É a minha banda sonora.

O que gosto em Amália, para além da sua voz e da forma como interpreta, é a profunda coerência entre a sua vida e pensamento e as palavras que lhe saem da garganta. 

A inteligência na escolha do repertório e a escrita própria. Ela cantou, toda a vida, a vida toda. 

Eu identifico-me com o seu lado mais negro: o de achar que, por existir morte, a vida é absurda!

(O comunicador e apresentador da RTP 1 faz parte do Conselho Geral da Fundação Amália. São públicas as várias homenagens que ao longo dos anos tem feito à artista)

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A minha história com a Amália marcou-me profundamente. Foi ela quem me desafiou a fazer o musical "Amália", que durante seis anos encantou Portugal. As pessoas iam ao Teatro Politeama quase que a fazer um culto pela Amália. 

O espetáculo começou na Madeira, e a Amália não o assistiu por um mês. Estreou com enorme êxito após a sua morte. Teve uma carreira nacional e internacional: esteve seis anos em cena, o que é absolutamente fantástico. 

Tive muita pena de que a Amália não o tenha assistido. Tive muitas conversas com ela. Lembro-me de uma cena que me tocou profundamente: uma vez, numa festa de homenagem, eu estava ao lado dela no Teatro e um pianista tocava um medley dos fados que a Amália interpretou durante toda a vida. E eu lembro-me de ela agarrar a minha mão, a tremer. Olhei para ela, e a Amália estava a chorar.

A Amália é de facto uma diva, e ficará para sempre na história de Portugal.

(Filipe La Féria é um nome maior no entretenimento nacional, sendo responsável pela revitalização do chamado teatro de revista. "Amália – o Musical" foi uma das últimas vontades de Amália Rodrigues, que em 1998 manifestou ao encenador o desejo de ver a sua vida num grande musical)

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A Amália tornou-se, pelo que vemos na sua história, na artista portuguesa com a carreira internacional mais forte. Muito estranhamente, a carreira internacional estava desligada da carreira nacional, principalmente no pós-25 de Abril.

Depois de a ver a cantar num concerto organizado pelo António Sala, pensei ‘como é que que a Amália nunca deu um concerto em nome próprio no Coliseu de Lisboa’?. 

Em 1987, ainda estava na Universidade, juntei uma equipa e assim o fizemos. Fizemos duas noites no Coliseu espetaculares.

Lembro-me que a jovem Teresa Guilherme tinha uma pequena empresa e foi ela a responsável pela comunicação do evento. Nunca mais me esquecerei da conferência de imprensa — surreal — em casa da Amália. Juntámos uma série de jornalistas, na altura havia muito mais tempo de antena para a Cultura do que há hoje. Um deles perguntou: “Ó senhora Dona Amália, a senhora faz concertos na Holanda. Toca para os emigrantes?” E ela respondeu; “Não menino, quando vou à Holanda toco para holandeses!”. Outro perguntou “Ó senhora Dona Amália, a senhora vai tocar ao Japão, mas no Japão não há emigrantes portugueses?” e ela respondeu: “Estou-lhe a dizer-lhe, quando toco no estrangeiro toco para os locais”. Os títulos dos jornais no dia seguinte diziam todos que a Amália era a artista mais internacional de Portugal, porque ela cantava no mundo inteiro e raramente em Portugal. Esse concerto, felizmente, foi a redescoberta. O povo tinha respeito por ela, mas era uma artista esquecida.

Amália era uma pessoa absolutamente extraordinária de trabalhar. Lembro-me que antes de ela subir para o palco tremia, tremia, tremia e estava gelada. Ainda muito miúdo, disse-lhe: “Passa-se alguma coisa consigo?”; e ela respondeu: “Não, sempre que subo a um palco parece que é a primeira vez”. Era muito genuína.

(Álvaro Covões nasceu e cresceu no mundo da cultura. É o homem forte da Everything is New, promotora que organiza, entre outros espetáculos, o festival NOS Alive)

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O meu gostar da Amália vem desde criança. Estava habituado a ouvi-la na rádio, a televisão não existia nessa altura. Quando apareceu a televisão, a preto e branco, achava que aquela imagem era uma coisa única. Ficava preso aquela voz e à sua presença mágica. Encantava-me.

Com 14 anos tive o privilégio de cantar na mesma casa de fados onde ela cantava, o Café Luso. Anos mais tarde, com 18-19 anos gravo o meu primeiro disco na mesma editora onde estava a artista que mais admirava e idolatrava, a Valentim de Carvalho.

Tive o prazer de a conhecer no lançamento de um disco seu no Solar do Vinho do Porto, no Bairro Alto. Tenho fotografias desse dia. Conversámos e apercebi-me que ela também nutria uma grande simpatia por mim. Disse que gostava de me ver na televisão e que os meus traços eram parecidos com os dela.

Comecei a fazer algumas partes dos concertos da Dona Amália. Num, em Torres Vedras, levei a minha mãe e perguntei-lhe se não se importava que lhe a apresentasse. A minha mãe também tinha uma paixão muito grande por ela. A Dona Amália disse logo que sim. Achei-as sempre muito parecidas, porque eram da mesma idade.

Dona Amália. Ela não gostava que eu a tratasse assim: “O menino trata-me por Amália”.

Quando gravei o tema “Amália” disse na minha editora que só o lançaria se a Dona Amália o ouvisse e gostasse. Pedi ao meu produtor, porque não tinha a coragem de ir a casa dela pedir-lhe a opinião, e ele levou. Não a queria deixar mal vista. Ela ouviu, ficou muito sensibilizada e deu-me o sim para lançar.

A Amália nunca veio a minha casa nem eu fui à dela, só depois de falecer. No dia em que a Dona Amália morreu eu estava na Madeira a dar concertos. Vi o funeral todo pela televisão, no hotel. O desaparecimento da Diva, ela para mim é a Diva, foi um momento muito complicado de digerir.

Quando já tinha mais confiança com ela, em todos os seus aniversários mandava-lhe rosas vermelhas. Conforme o número da idade da Dona Amália era o número de rosas que lhe enviava — se fosse hoje mandava-lhe cem. Assim que as recebia, ligava-me e perguntava se eram do meu jardim. Eu dizia que não, que era de uma florista. “É que se fossem do seu jardim devia mandar-me todos os meses. São tão bonitas, adoro-as”, dizia-me como agradecimento.

Há mais de vinte anos, quando tive um cancro muito agressivo e estive entre a vida e a morte, a Dona Amália fez o favor de me visitar. Foi-me contado pelas enfermeiras e pelos auxiliares médicos. Mas das duas vezes que foi ao Hospital eu estava a fazer exames. Ela fez o que mais ninguém teve a simpatia de me fazer. Foi muito bonito. Ser a Amália a lembrar-se de alguém de quem ela gostava e que estava no hospital.

Tenho duas fotografias lindíssimas com ela no sítio onde tenho os meus prémios e as fotografias da minha família. Passados estes anos todos, a Amália continua a ser a voz mais bonita do mundo e nós tivemos o privilégio de a ver nascer em Portugal.

Tenho uma paixão e uma saudade pela Amália como tenho pela minha mãe.

(Para além de "Amália", Marco Paulo gravou ainda "O Grito" e "Com que Voz". O cantor português de inúmeros sucessos, e que revelou no início deste ano que tinha sido novamente diagnosticado com cancro, já tem data para o regresso ao palcos. Será a 20 de março de 2021 no Super Bock Arena, no Porto)

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A minha história com Amália é na verdade a minha história. Tudo começa com ela e passa por ela. Sempre. E estou convencida que até ao fim (e o que será o fim?) será sempre por ela, através dela, como um filtro. Quando me reinvento, parte da descoberta de mais um pormenor seu, uma respiração que seja, como se só nela o chão fosse mesmo chão, ou a tristeza mais triste que nenhuma outra.

Tinha eu 18/19 anos e recebo como controverso presente de aniversário um disco “Dela”. "Rara e inédita" era o nome do vinil e controversa era a minha vontade de o ouvir bem como a minha opinião sobre o fado até aí, até esse disco, o marco, o ponto de partida de toda a minha história.

Com Rara e inédita veio a surpresa não da voz portentosa e deslumbrante de Amália, que era óbvia para lá das minhas dúvidas com o género Fadista, mas sim com a capacidade imensa dessa voz contar uma história para lá de qualquer música que estivesse a “cantar”. Era contar, cantando, dando a possibilidade a quem a escutava de entrar dentro de um cenário, dentro de uma história. Isso foi o que mais me sensibilizou ao longo do tempo da descoberta; mas foi o confronto agreste naquele instante, que me chocou, como se toda a verdade com que eu refutava e rebatia as opiniões do meu avô — grande culpado desse encontro com Amália — de tão puro me fizesse cair por terra toda a verdade absoluta em que eu me apoiava.

Amália era, é absolutamente única, de magistral, de elevada criatura que nasce ensinada!

(A fadista editou recentemente "Eva", onde dá vida e voz à personagem Eva Hussman. A influência de Amália Rodrigues é assumida, tendo revisitado a sua música ao longo dos anos e discos)

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A minha história com Amália tem quase a minha idade. Comecei a ouvi-la antes de saber falar e antes de saber cantar.

Tive o privilégio de me encontrar com ela quando tinha 12 anos. Guardo esse episódio no meu coração. Vi-a chegar e não estava a acreditar que ela fosse tão baixinha. Imaginava-a uma figura altíssima — e essa continua a ser a figura da Amália na minha cabeça, uma figura imponente.

Amália ouviu-me cantar; não gostava de ouvir crianças a cantar e eu senti que tinha de dar o meu melhor. Nunca soube o que pensou, mas inspirou-me a dar o meu melhor em cada palco. Até hoje.

Amália revolucionou o fado. E se o canto desta forma, deve-se a ela.

(Carminho editou recentemente o livro biográfico "Amália, já sei quem és" para crianças. Com ilustrações de Tiago Albuquerque, o livro conta, de forma cronológica, a vida e o percurso artístico de Amália Rodrigues)

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Amália e eu…

Amália foi entrando na minha vida subtilmente mexendo com as minhas emoções, mesmo antes de eu as poder decifrar.

Era muito pequena. Amália surgia na televisão, cantava na rádio e eu parava de brincar. Hipnotizada, absorvia com os meus olhos grandes aquela mulher que me roubava o tempo de criança.

Quando já sabia ouvir, mas ainda não entendia nada do que era sentir, gravava os seus fados, comprava os seus discos, e fechava-me no quarto ouvindo repetidamente, já prestando atenção à poesia, já procurando o peso das palavras na vida. Era uma experiência solitária. Não havia, da minha idade, quem falasse de fado ali no meio do Atlântico. Não havia casas de fado.

Já em Lisboa, aprendia a ouvir fado ao vivo e, desafiada por amigos, cantava os poucos fados que me sentia confiante para cantar.

Chegou o dia 6 de outubro de 1999 e, a caminho da faculdade, de pé no autocarro, recebi o telefonema da minha mãe a dar-me a notícia. Amália morreu. Senti-me triste, muito, muito triste, e por momentos tive vontade de dizer bem alto para que todos ali soubessem, como eu, que a nossa Amália já não estava entre nós. Não disse..., com medo de cair no ridículo.

Entrei na faculdade, no Campo de Santana, e os olhos voltavam-se para mim em jeito de abraço. Todos me perguntavam: “estás muito triste, não estás? Morreu a tua Amália…”

No dia em que fiz o último exame do curso, em finais de setembro de 2020, chegou a sensação de chegar ao final da meta. A emoção tomava conta de mim a cada instante e o mais dos inesperados telefonemas chegou no meio de tantos outros a felicitar-me. João Braga dirigiu-me o convite que me baralhou as cartas tão bem arrumadas. Organizava o concerto no Coliseu de Lisboa que marcava o primeiro aniversário sobre a morte da Diva. Ouviu falar de mim. Confiou no João Mário Veiga, com quem eu andava a fazer alguns eventos privados a cantar alguns fados, e quis que eu fizesse parte do elenco. Aceitei, sob a euforia do que vivia naquele dia.

No dia 6 de outubro subi ao palco, de forma inconsequente, aventurando-me numa experiência que havia um dia de contar a filhos e a netos. Não foi assim. A crítica, o público e promotores repararam em mim e dois meses depois gravava um primeiro disco que achava ser o único.

Canto Amália há 20 anos com a imensa gratidão que lhe tenho.

Nunca a vi, mas vivo-a em cada nota, mesmo as mais sussurradas.

Não haverá muitos artistas como ela que consigam chegar ao mais íntimo de nós.

Tudo se poderá escrever sobre Amália, mas há um mistério que não nos deixará nunca decifrá-la por inteiro. O segredo é sentir, sentir, sentir…

(Katia Guerreiro traz Amália na voz. A fadista estreou dia 13 de junho, dia de Santo António, uma marcha de sabor popular, “Amália, Nome de Lisboa”, assinada pelo poeta, compositor e também fadista Carlos Leitão. A pandemia impediu-a de ser ouvida nas ruas, mas não de celebrar o centenário do nascimento da artista)

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Existe uma história que me contaram ... não sei se será conhecida ou não...

O sonho de todos os compositores seria, imagino eu, serem cantados por Amália. E ela , segundo sei, recebia sempre imensas composições de autores conhecidos, outros nem tanto , mas que se tornariam conhecidos mais tarde porque Amália os cantava.

Alberto Janes era farmacêutico e alentejano, mas a sua grande paixão era a música, composição e escrita.

Num belo dia, Alberto Janes chega a casa de Amália e contou-lhe que era farmacêutico e que tinha uma farmácia em Reguengos, mas que a sua grande paixão era a música, era ser artista e que tinha um fado para ela.

Sentou-se ao piano e tocou o que tinha composto.

As pessoas que estavam na sala e que ouviram o seu Fado disseram a Amália que não deveria cantá-lo, que talvez não fosse um Fado à sua altura.

Amália tinha adorado aquele Fado, e disse que gostaria de gravar aquele que foi um dos seus grandes êxitos, “FOI DEUS”.

Imagino que tal como esta história, existam pelo menos mais umas quantas dezenas de histórias daquela que foi o maior nome do nosso país, que foi considerada também uma das cinco melhores vozes do século passado.

(Fábia Rebordão, uma das vozes da nova geração, apaixonou-se pelo fado pela voz de Amália Rodrigues. Fadista residente da Casa de Linhares desde os 21 anos, o seu álbum de estreia data de 2012. Nesse ano, é distinguida como Artista Revelação dos Prémios Amália)

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Eu nunca conheci Amália.

Tinha 13 anos quando ela morreu e nem sabia onde era a rua de São Bento. Nem a Pena ou o Retiro da Severa. Com 13 anos, a crescer nos subúrbios de Lisboa, criado por um pai de esquerda e anticlerical, eu achava que o fado era a coisa mais anacrónica do mundo e, apesar de ser em português, não entendia uma única palavra e os gemidos lânguidos faziam-me revirar os olhos. Eu fechava-me no quarto à noite, a ler livros demasiado complexos para a minha idade e a ouvir música feita por mulheres zangadas (Courtney Love ou Alanis Morissette, por essa altura), não via as notícias e não havia internet, claro, só vim a saber que tinha morrido a Amália dois dias depois, porque alguém o referiu num intervalo e, mais tarde, ao jantar, enervei-me com o meu pai por não mo ter dito. Ele riu-se. Uns dias mais tarde, troçou de alguma cantora americana na televisão, que nunca chegaria aos pés da genialidade da Amália (ou algo assim), e eu quis ripostar, defender o meu mundo novo contra o desdém do passado e da tradição, mas não consegui. Foi nesse dia que a Amália começou a crescer em mim.

Acho que o primeiro fado que eu ouvi foi o "Estranha forma de vida". Não o primeiro que ouvi na rádio ou na televisão mas o primeiro que eu escolhi ouvir. Um poema escrito por Amália para o Fado Bailado e que trago comigo até hoje. Pouco a pouco, ela converteu-me ao fado. Não como a uma religião de crítica interdita mas mais como um código secreto que, não precisa de intérpretes para mediar a compreensão, apenas de canais abertos para ser sentido, nutrido e levado, ao longo do tempo. Depois de "Estranha forma de vida" (se não sabes onde vais, porque teimas em correr? dúvida lancinante e exortação ao desconhecido que partilho com ela), outro terá vindo, talvez "Lágrima" ou "Medo". Vinham um a um e demorava-me sempre muito antes de passar para o próximo. Já nem sei onde encontrava estes fados, talvez num vinil ou cassete perdida do meu pai?

Comecei a descobrir na voz dela uma companhia para o breu que ganhava forma dentro de mim, à medida que tentava manter as paredes do meu mundo de pé e não encontrava, na linguagem que ia aprendendo, palavras novas que me salvassem do vazio de não me ver refletido no espaço à volta de mim. Outras palavras, como paneleiro, nojo, ameaça, segredo ou sida dançavam furiosamente pelos meus dias e eu fazia o melhor que conseguia para me esgueirar delas e conseguir deitar a cabeça na almofada para dormir, todas as noites. A Amália não falava especificamente delas mas quando cantava "gritar quem pode salvar-me do que está dentro de mim, gostava até de matar-me", eu tinha a certeza que era sobre ela e sobre mim também. Depois de ouvir dezenas de vezes de seguida, desligava a aparelhagem e tentava esquecer, estudava ou deitava-me na cama a olhar para o teto ou escrevia um poema adolescente. Seguia em frente. Aquela purga permitia-mo, como se tivesse estado de olhos fechados e mãos dadas com ela, a chorar o inevitável, o medo da rua e do futuro, e depois a Amália me tivesse dito, na sua voz sensual e firme, vá, vai lá, a vida espera-te, leva o teu coração pesado, que não há outra forma.

(Lila Fadista dá voz aos Fado Bicha. Um dos primeiros temas interpretadas pelo duo foi o “Namorico do André”, uma adaptação do fado “Namorico da Rita”, que ficou conhecido pela voz de Amália Rodrigues)

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Amália!

Será sempre majestosa a imagem que me surge quando escrevo ou oralizo o seu nome.

Há muito de intocável em Amália! Talvez porque foi o grande desencontro da minha Vida. Eu comecei a cantar profissionalmente aos 19 anos, no ano da sua morte, e é nesse mesmo ano de 1999 que venço a Grande Noite do Fado no Coliseu dos Recreios, apenas alguns meses antes da sua passagem. Cantei o Fado “Gaivota” do seu reportório, com letra de Alexandre O´Neill e música de Alain Oulman. Vesti um vestido negro, usei lábios muito vermelhos, um eyeliner pronunciado, e o cabelo solto e planturoso. Coloquei um xaile nos ombros, que me pesava mais que os nervos de ter de cantar Amália para um Coliseu a abarrotar de gente muito conhecedora do género fadista. Porque é inevitável sentir uma certa proteção provinda da imitação do boneco Amaliano! Como se isso me tornasse mais próxima, mais íntima  mais inclusa no fantástico Mundo inatingível da única verdadeira Diva que Portugal conheceu!

Vivemos um grande desencontro...

Não que não a tenha (re)conhecido nas histórias que me foram contando os seus pares ao longo dos anos. Talvez porque Ela é também um pouco nossa, não sinto que pudesse ter sido preponderante conhecê-la presencial e fisicamente. Acredito que este desencontro, ainda que me entristeça e empobreça de alguma forma, também alimenta a idolatria que lhe dedico, tornando tudo ainda mais mágico.

Desencontrámo-nos!

Mas Amália existe na minha música, no meu canto, indissociável da minha raiz, da minha matriz, e de todo o Universo a que soa Portugal. Porque ser Amália é ser Portugal! E de repente, esta afirmação categórica, é o cais do nosso Encontro. O Amor que sinto pela condição de ter nascido portuguesa, talvez personifique o nosso abraço. Aquele que não tive oportunidade de materializar, mas que acontece em todos os momentos que subo a um palco, orgulhosa da minha alma Lusitana.

O Toque de Midas não é para todos. Não tem de ser para todos! A Amália, quis o Cosmos que lhe coubesse o Toque Divino. A todos nós, comuns mortais, coube a deliciosa humildade consciente de sermos o outro lado da sua Divindade: A Contemplação, e a Eterna Peregrinação ao seu Mundo.

(Com mais de 20 anos de carreira, Ana Laíns tem uma carreira sólida com reconhecimento internacional. Com três discos editados — "Sentidos", em 2006, Quatro Caminhos, em 2010, e Portucalis, em 2017 –, a cantora sempre mostrou admiração por Amália Rodrigues).

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Corria o ano de 1988, ano em que por sorte do destino, concretizei o maior sonho que o meu coração de jovem fadista aguardava ansiosamente que um dia se tornasse realidade. Conhecer Amália. Estar perto dela e simplesmente olhá-la, ouvi-la, maravilhar-me com cada pequeno  gesto de simpatia, com cada sorriso que a todos ofereceu tão genuinamente.

Conheci Amália em março desse ano, na Adega Machado. Após a fantástica e emocionante actuação, o convívio, os cumprimentos, os  autógrafos. Aguardei até chegar a minha vez de a cumprimentar.

Quando Amália me deu dois beijinhos, me sorriu e autografou o meu programa, o meu coração quase explodiu de alegria. Ri e chorei de felicidade. E subi a Rua do Norte a correr, de volta para o Café Luso, onde cantava, pensando e desejando que um dia ela também nos visitasse. E assim foi!

Em Setembro desse mesmo ano, Amália  iria cantar no Café Luso. Rejubilei. Foi um dia raro e maravilhoso. À chegada cumprimentou todo o staff do Café Luso, um a um. Quis ir à cozinha, sentir a azáfama dos preparativos para o jantar, pediu aos cozinheiros para ser ela a temperar de sal a sopa. Temos uma foto desse momento.

Depois recolheu ao camarim que lhe foi destinado, o das bailarinas, por ser mais espaçoso. Tão perto do nosso que a ouvíamos falar. 

Hora do espetáculo, o elenco da casa preencheu a primeira parte. E depois foi vê-la subir ao palco, ouvi-la cantar maravilhosamente, como só ela sabia. No final oferecemos-lhe flores, todos em palco com ela. Foi um momento mágico. A sala estava linda, toda decorada com flores amarelas e brancas. Amália adorava flores.

E depois do espetáculo, a descontração. Amália trocou de roupa, ceou, conversou, riu, até tarde, matou saudades do Luso. Tal como fizera à chegada, antes de sair, despediu-se de todos um por um. Jamais esquecerei essa noite. 

Dois anos depois, em 1990, por ocasião do espetáculo dos 50 anos de carreira de Amália, a RTP recolheu depoimentos de alguns artistas, eu fui um deles. 

Passada uma semana sobre esse espetáculo, chamaram-me ao telefone do Luso, perguntei quem era, responderam “Amália”. Incrédula, atendi, e ouvi-a agradecer-me pelas palavras que tinha dito sobre ela. Só consegui responder que eram vindas do coração, porque a trazia sempre no coração, com tanto carinho, respeito e admiração.

Amália era assim, tão simples, tão grande.

Única. Eterna. E eu trago-a sempre no coração.

(Elsa Laboreiro é fadista residente do Café Luso, em pleno Bairro Alto. Foi nesta Casa de Fados, fundada em 1937 e onde Amália também foi artista residente, que gravou o primeiro disco de Fado ao vivo da história)

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Estávamos em 1990, tinha eu 19 anos quando me cruzei com Amália pela primeira vez. Eu gravava o meu primeiro disco, ainda vinil, "Fado Lusitano", nos estúdios da Valentim de Carvalho, em Paço de Arcos, e um dos meus músicos era o prof. Joel Pina, o viola baixo de Amália. Nessa mesma altura, nos mesmos dias, Amália entrava em estúdio a gravar o álbum "Obsessão", e pedimos ao prof. Joel Pina se não seria possível, quando Amália chegasse, que a cumprimentássemos.

Ele disse que seguramente que sim. Quando Amália chegou, o prof. foi dizer a Amália que nós lhe queríamos falar, eu queria muito conhecê-la, e assim foi, Amália lá veio, sorridente e educada, muito bem disposta, lá nos veio cumprimentar, e o melhor? Não, não nos cumprimentou só e foi-se embora, não. Convidou-nos para ficar, e para assistirmos, se assim quiséssemos às gravações, e assim fizemos. O que foi algo inesquecível, para além de conhecer Amália, nesse dia conheci Jorge Fernando, e até hoje mantemos uma estreita e profunda amizade e cumplicidade musical.

Guardei uma recordação única, e ganhei um amigo para a vida!

(Foi pela mão de José Gonçalez que nasceu "Em Casa d'Amália", um programa da RTP inspirado nas célebres noites em que Amália Rodrigues recebia em sua casa, na Rua de São Bento, amigos. Fadista, compositor, letrista,  José Gonçalez é também radialista, programador e diretor artístico do Caixa Alfama, Caixa Ribeira e Caixa Luanda. Canta regularmente no restaurante Dom Leitão)

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Amália é um tesouro, tem um encanto na voz Especial e diferente de todas as outras vozes. Sinto-me um privilegiado por poder ouvi-la a cantar a cappella nas multipistas a que a Valentim de Carvalho me deu acesso para fazer o disco "Bairro da Ponte".

Todo o processo de sampling e acesso às multipistas foi muito engrandecedor. Desde a ajuda do [Fernando] Rascão a escolher os melhores takes, como depois todo o processo de escuta e escolha em casa, que ainda demorou umas semanas a fazer. Pelo caminho tive oportunidade de ouvir coisas da Amália que pouca gente ouviu, e só isso é um privilégio enorme, toda a grandeza desse arquivo é gigante e eu sinto que só toquei na ponta do iceberg.

(DJ, produtor e uma das metades dos Beatbombers, Stereossauro editou em 2019 "Bairro da Ponte". Para o disco teve acesso aos masters originais de Carlos Paredes e Amália Rodrigues do acervo da Valentim de Carvalho)

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A primeira memória que tenho da Amália é a de ouvir uma cassete —ouvida e reouvida, nem sei como é que aquela cassete sobreviveu —, nas viagens de carro com os meus pais. Lembro-me que a nossa música preferida era “O Namorico da Rita”. A gente achava um piadão àquilo. Fazíamos sempre viagens muito longas e aquele era um dos hits. 

Depois houve um hiato, entrei na adolescência e comecei a ouvir outras coisas. Nunca fui a uma casa de fados até ter quase 30 anos. Não sabia que gostava. Sabia que tinha uma memória de criança, de achar piada a algumas músicas. Embora a minha família sempre tivesse gostado de fado, e eu tivesse sempre tendência para me escapulir para os discos do meu avô para ouvir umas coisas de fado, não havia esse hábito. 

Já em adulta, fui uma vez, por uma ocasião de celebração, ao Senhor Vinho, onde conheci um grande amigo meu, o Duarte, que é fadista. Ficámos muito amigos, e eu relembrei-me que gostava daquilo. A partir daí, nunca mais saí das casas de fado. A Amália era por isso uma inevitabilidade. Todos os fadistas, em algum momento, falam sobre ela. Toda a gente tem coisas para dizer sobre ela, toda a gente tem histórias. Algumas reais, outras inventadas... Isso acontece sempre. Portanto, tornou-se uma presença contínua. 

No outro dia, ouvi o David Ferreira falar sobre o que é que ela representava para o país, se ela representava o país. E ele dizia que a Amália era muito virada para dentro, representava-se sobretudo a si própria, às suas inquietudes, à sua maneira de ver o mundo e de se ver a si própria. É uma coisa que eu ainda tenho de estudar. Há pessoas que têm memórias da Amália enquanto a "diva" de Portugal, o símbolo de Portugal, o símbolo de Portugal no mundo. Há pessoas que reconhecem a Amália pelo papel que ela teve na representação de Portugal. Para mim, a questão prende-se com o que é que ela fez ao fado, e o que é que o fado representa para Portugal.

A Amália tem uma frase em que diz que o Zeca Afonso é o dia e ela é a noite. O Zeca era, obviamente, um génio. E o século XX foi partilhado entre dois génios absolutamente extraordinários. É uma sorte tremenda uma geração poder conviver com um génio como a Amália, e eu acho que as pessoas não têm noção disso. Veem-na como "diva", uma versão muito simplificada, muito unidimensional da Amália. Provavelmente, é a história que nos quiseram contar sobre ela. As pessoas não têm noção de como ela, além de ser, enquanto artista, muito complexa (e isto não é uma coisa assim tão fácil de entender), transformou não só o fado mas, de certa maneira, a cultura portuguesa. 

Fez encontros que ninguém achava que eram possíveis. O encontro do fado, que é uma música popular, bairrista, que foi durante muitos anos vista como insubmissa, mal vista pelo poder político, pelas elites... A maneira como a Amália junta aquilo com os grandes autores, com os grandes poetas, e quebra todos os cânones, sejam políticos ou musicais, e continuamos a chamar àquilo, ainda hoje, fado... Acho que isso é de génio, não é?

(Deputada à Assembleia da República e vereadora na Câmara Municipal de Almada pelo Bloco de Esquerda, Joana Mortágua é fã confessa da cantora)

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Sou, como muitos portugueses da minha geração e das que se seguiram, um fã da Amália. Tenho memória dela desde a minha infância mais remota, de a ouvir cantar as muitas coisas com que nos iluminou ao longo da sua vida de grande cantora. Depois, tenho um enorme respeito pelo seu percurso no plano pessoal. Nasce num meio humilde, vendedora de limões, há quem diga que era vinho, e que se fez a si própria. Respeitando sempre as suas origens, sobre sempre estar junto do nosso povo.

Tive o prazer de a conhecer pessoalmente. Cruzei-me com ela uma vez antes do 25 de abril e várias depois, sobretudo quando fui autarca. Tenho orgulho de ter dado o nome dela — foi decisão da CML, mas por ideia minha — ao jardim desenhado pelo arquiteto Gonçalo Ribeiro Teles no alto do Parque Eduardo VII, o jardim Amália Rodrigues.

Lembro-me de vários espetáculos a que assisti, nomeadamente de um, já não sei em que contexto, mas sei que foi nos jardins do Palácio das Galveias, no Campo Pequeno. Durante o espetáculo dela, uma coisa absolutamente deslumbrante, como aliás era habitual nela, os pavões do jardim começaram — sendo quase abusivo dizê-lo desta forma— a meter-se com a Amália. E no meio daquilo tudo a Amália respondeu-lhes cantando para eles. Isso prova a qualidade que ela tinha, assim como a maneira de estar na vida, uma coisa absolutamente fantástica.

(João Soares foi Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, entre 1995 e 2002, e ministro da Cultura do XXI Governo Constitucional, entre 2015 e 2016)

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De Amália não tenho muito a dizer além de declarar que a venerava, e isto porque era uma senhora. Tratava todos com gentileza nata, até para os Casanova improvisados tinha paciência: não os enxotava, respondia-lhes com humor e punha-os no seu lugar — vi um então membro do governo ser tratado deste modo.

Amália era uma companhia maravilhosa. Fazia-nos rir a todos com as suas histórias e a capacidade espantosa que tinha de imitar sotaques regionais em várias línguas.

Na minha vida diplomática anfitrionei duas vezes reuniões em que ela foi a estrela: uma em Londres, nos tempos da outra senhora, e outra em 1989, em Seul. A segunda foi mais interessante, ocorreu na residência da Embaixada. Vieram os alunos de Português da Universidade de Hanyang que, em homenagem a Amália, cantaram alguns dos seus fados. Amália, comovida, chorou e acabou por cantar com eles. Ela já ali era popular, pois que uma novela televisiva então muito apreciada abria tendo por fundo Amália a cantar o Barco Negro. Os Coreanos, tanto como nós, dão valor à expressão do sofrimento. Depois de tudo presenteou-nos com uma sessão de anedotas de morrer a rir.

Não posso dizer que foi a Amália quem me ensinou a gostar do fado, pois que dessa tarefa se encarregou Alfredo Marceneiro, mas reconheço que, embora noutro estilo, a Amália era uma artista fabulosa.

(Luís Soares de Oliveira, 92 anos, foi o primeiro Embaixador de Portugal em Seul. Até receber uma proposta de José Manuel de Mello, para liderar a diversificação do grupo CUF no Brasil, passou ainda pelas Nações Unidas, São Paulo ou Londres)

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Entrevistei-a uma vez, a conversa não fez história.

Alta tensão foi na manhã daquela quarta-feira 6 de outubro em que ela morreu. No domingo seguinte havia eleições gerais (duelo Guterres/Durão mesmo em cima da máxima crise em Timor, todos éramos timorenses). A Antena 1, em todas as manhãs de campanha fazia a emissão a partir de um distrito diferente e, entre as 10 e as 12, havia debate ao vivo, a partir de um café, com os cabeças de lista pelo distrito. Naquele 6 de outubro calhou-me Coimbra. 

Estúdio montado no café a Brasileira, logo à entrada da Rua Ferreira Borges, pelo lado da Praça da Portagem. Em cima das 10h00, estavam todos, incluindo Manuel Alegre (PS) e Pedro Santana Lopes (PSD). O debate começava às 10h00, após uma curta síntese de notícias. Mesmo em cima da hora, através do intercomunicador, a Joana Latino na redação em Lisboa avisou a produtora que estava ao meu lado, a Ana Fernandes, que a Amália tinha falecido. Imaginem a loucura a seguir: desde o ir a uma discoteca perto comprar todos os discos possíveis da Amália (na ocasião não havia solução na internet) até ao candidato (MRPP) que protestava por estar ali para um debate e não para falar da Amália... Foi um stress inesquecível.

(Francisco Sena Santos é cronista do SAPO24 e, diariamente, dá a voz a "Um dia no Mundo" na Antena 1)

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A minha Amália. Não quero nem posso definir Amália como um facto repleto de certezas. Se Amália não as tinha, quem sou eu para as ter? Acima de tudo, sei que sou mais uma, no meio de tantos, que gostam dela. Tão simples assim: gostar de Amália. Gostamos da voz, da lucidez, da inteligência, da sua sensibilidade que brincava com a tristeza e a tristeza que brincava com o sentido de humor. Vou falar-vos da minha Amália, a vossa será certamente diferente.

A minha história com Amália começa como tantas outras. Mesmo tendo nascido nos finais da década de 90, seria impossível crescer em Portugal sem saber quem é Amália e o que significa para a Cultura Portuguesa. Não me lembro de quando me apresentaram a sua voz, as suas cantigas. Lembro-me apenas que as conheço desde miúda. Lembro-me de azucrinar o meu avô com o “careca tira a boina”, de cantar a casa portuguesa e ouvir falar do povo que lavas no rio. Não foi preciso dizerem-me “Esta senhora é a Amália Rodrigues, é a voz do teu país”, sabia-o apenas. Era tão natural e automático como saber que eu sou portuguesa.

Aos doze anos visitei o Panteão Nacional, onde estava patente na altura a exposição “Amália no Mundo” (2009). Qual não foi o meu espanto quando me apercebi que aquele nome com o qual eu identificava a minha cultura era muito mais do que todos nós. Perceber a carreira internacional de Amália, foi sem dúvida a maior surpresa. Parecia quase uma aula de geografia, a cada digressão um país novo, uma cidade e um público diferente. Estou convencida que a minha melhor professora de cultura foi Amália e talvez ela se esteja a rir neste momento. Talvez dissesse “com três anos e três meses de escola, o que tenho eu para lhe ensinar?” A dimensão artística de Amália permitiu-me aceder às rancheras mexicanas, ao flamenco, ao folclore italiano e todos aqueles artistas internacionais, e mesmo nacionais, com os quais ela conviveu e que provavelmente as diferenças de geração impedir-me-iam de os conhecer.

Ao longo destes 10 anos de descoberta, apercebi-me que o que mais me fascina em Amália, não é a voz, nem mesmo a sua sensibilidade ou entrega enquanto canta, é a sua lucidez mascarada com um sentido de humor delicioso. Foram as suas respostas rápidas e bem-humoradas que me fascinaram. A sua certeza em ser simples e a dificuldade de o ser, numa época e num meio em que tudo parecia complicado. Foi Amália. É Amália, só ela, que nos agarra e nos convida para um mundo de solidão só seu, ajudando-nos assim a compreender o mundo dos outros.

Sei que construí uma Amália e que todos nós temos uma Amália diferente ou até mesmo várias Amálias. Talvez ela tenha tido consciência que isto iria acontecer. Atrevo-me a dizer que Amália pode ser o Fado, mas não é fadista. Amália é a voz de Portugal, mas não é só portuguesa. Amália é mito, contudo, é a sua verdade e autenticidade que nos une nesta estranha forma de vida. Sei que lhe devo um bocadinho daquilo que eu sou. Não a conheci e tenho saudades dela. Sei que Amália faz parte de mim, da minha identidade. E sei que me faltam as palavras para expressar tudo o que ela significa, para mim e para todos.

(Joana Machado é investigadora da Fundação Amália Rodrigues e mestranda na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, no curso de Cultura e Comunicação, onde está a desenvolver uma dissertação sobre a fadista)

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