O "cenário é dramático de forma homogénea, em todo o território nacional", sintetiza ao SAPO24 a secretária geral da Associação da Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal (AHRESP), Ana Jacinto, numa entrevista onde o SAPO24 mediu o pulso à restauração.

Há falta de clientes em todo o país. Mais de um quarto dos estabelecimentos da região Norte (27%) referem não ter tido qualquer faturação no mês de julho. No Algarve, 83% dos estabelecimentos têm quebras de faturação superiores a 40%. "O cenário é avassalador em todo o território nacional", conclui.

O setor começou a ter valores negativos em março deste ano e a pouco e pouco está a recuperar, segundo o Instituto Nacional de Estatística, mas, ainda assim, em junho, registava uma diminuição do índice de volume de negócios para metade do que se verificava há um ano.

Segundo o que a associação apurou no inquérito mais recente, percebem que "continua a não haver clientes suficientes, quer pelo sentimento de insegurança a que infelizmente os restaurantes foram associados, quer pelo teletrabalho que ainda perdura, e também pela ausência de turistas internacionais", explica Ana Jacinto.

Para dar a volta a situação, desenvolvem-se estratégias, tecnologias e programas de inovação.

Fomos ver como funcionam algumas soluções em que a tecnologia foi colocada ao serviço de uma maior eficiência dos restaurantes e procurar perceber que impacto podem ter no setor.

Compras a qualquer hora de qualquer dia num mercado online

A Associação da Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal (AHRESP) vai disponibilizar aos seus associados um marketplace online, onde será possível comprar produtos alimentares e não alimentares, assim como serviços técnicos especializados – tudo a “preços competitivos” - a “fornecedores de referência ao nível local, regional e nacional”.

Os clientes podem fazer uma encomenda 24 horas por dia e 7 dias por semana. E é possível “a sugestão de agregação dos seus próprios fornecedores”.

Através do Mercado Global Online AHRESP, as empresas “terão acesso a crédito em instituição bancária com prazo até 120 dias em condições financeiras únicas”.

Estão abertas as candidaturas da terceira edição do From Start-to-Table, o programa de aceleração da Startup Lisboa para negócios ligados à restauração. Este ano o programa, que é apoiado pela AHRESP e o Turismo de Portugal, tem 20 mil euros para distribuir em duas categorias do programa, em vez das habituais três: Tecnologia para Restauração” e “Conceitos de Restauração e Produtos de Food & Beverage Sustentáveis”.

Pode candidatar-se até dia 20 de setembro, no site do programa. O From Start-to-Table está à procura de quem queira “mudar o futuro do ecossistema da restauração”. A procura por inovação vai decorrer de 11 de outubro a 10 de dezembro.

O sistema online quer ser “simples e rápido”, já que “não exige instalação de software” e estará acessível em qualquer local e dispositivo.

Em comunicado, a AHRESP escreve que a grande vantagem do Mercado Global Online AHRESP para o fornecedor “é a garantia atribuída pelo banco do pagamento imediato da encomenda”.

A plataforma é apenas para profissionais e para ter acesso, como comprador ou fornecedor, basta registar-se na plataforma e ver aprovada a sua candidatura. O Modelo integrado de Gestão é operacionalizado na plataforma Winds.

Zomato - a plataforma inovou para “manter o moral dos restaurantes”

A Zomato é uma plataforma de descoberta de restaurantes criada há 12 anos, na Índia. Em Portugal, tem um milhão de utilizadores que se mantém ativos por mês. Os restaurantes não têm de pagar para estar na plataforma, que dá indicações aos utilizadores sobre os menus, condições do espaço, entre outras indicações, como o horário. Com a Zomato, qualquer “foodie” já podia, antes da pandemia, reservar mesa num dos restaurantes disponíveis. Durante o confinamento e nos meses que agora lhe sucedem, a plataforma apostou em disponibilizar informação adicional que ajudasse os utilizadores e ao mesmo servisse para “manter o moral dos restaurantes”, explicou  ao SAPO24 Nuno Fernandes, responsável de marketing e parcerias da Zomato.

Restaurantes. Faturam metade, mas há quem mantenha a abertura de novos espaços. Mas também se pede a descida do IVA e o adiamento da eliminação do plástico
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A plataforma está disponível em Lisboa, no Porto, Braga, Santarém e na zona costeira do Algarve, preparando-se para cobrir toda esta última região, e cobre “todos os locais onde se pode comer ou beber” – seja o café do bairro ou o restaurante de hotel.

Desde abril que é possível usar a Zomato para reservar o pedido para take away, em 300 restaurantes em Lisboa e no Porto, sendo só necessário levantar a encomenda. O pagamento é feito digitalmente, o que reduz o contacto entre cliente e loja. Também para minimizar o impacto da Covid-19 nos ganhos dos restaurantes, a Zomato lançou um serviço Contactless, “que permite fazer o scan do QRcode que está nas mesas do restaurante para ver o menu e fazer o pedido digitalmente”, explica Nuno Fernandes. De imediato, o pedido é enviado para a cozinha. O menu físico deixa de ser necessário - e é menos um objeto a manusear. “E o pagamento também pode ser feito através da aplicação”, remata.

Vincitables torna a gestão do seu negócio mais fácil

Criada por dois portugueses em 2018, a aplicação Vincitables também se propõe a ajudar os restaurantes na retoma económica. “O bloco central da aplicação é a gestão de reservas internas ou feitas online. E o objetivo é que um restaurante fique completamente independente na gestão do seu negócio”, conta Mariana Frade, uma das criadoras da aplicação, juntamente com Pedro Gonçalves.

A aplicação foi pensada para grupos de restaurantes e restaurantes de hotéis “que tenham especial cuidado com a experiência do cliente” e queiram centralizar a gestão dos negócios. A característica que distingue esta tecnologia é o “acesso do restaurante ao perfil de consumo dos clientes, o que permite antecipar as preferências do cliente”.

Já era possível ver a carta dos restaurantes e agora a aplicação tem novas funcionalidades, como “ferramentas que permitem digitalização” na forma de QRcodes nas mesas, para diminuir o contacto. Nos hotéis aderentes, também é possível fazer pedidos de room service pela aplicação.

Também vão permitir o serviço de take away com a aplicação. Em breve, terão a vertente da entrega na app.

Mariana dá conta de um crescimento de 40% do serviço no contexto da pandemia, o que representa cerca de 40 subscrições. Um dos motivos para o aumento é abertura do leque de serviços: “Os restaurantes têm agora a necessidade de controlar a ocupação e na Vincitables é possível gerir o número de reservas e as mesas disponíveis, por exemplo”. Sublinha que "gerir um restaurante é extremamente complexo” e por isso acredita no valor de soluções que permitem facilitar todos os processos desde a hora de sentar clientes.

A Vincitables faz também agora as reservas da piscina e do spa do Sheraton de Lisboa, e reservas de atividades de crianças no Pine Cliffs Resort, por exemplo. Para um estabelecimento se juntar à aplicação basta visitar o site da Vincitables e inscrever-se.

Reinventar o peixe e aproximar consumidores

Muitos restaurantes recebem peixe fresco. Alguns até se deslocam às lotas para meterem a mão ao melhor, pelo melhor preço. Mas "o peixe mais fresco é agora mais fácil de fisgar!", como escreve o projeto Lota Online nas redes sociais.

Já era possível acompanhar o peixe “desde a captura até ao prato”, com a Lota Online, mas com um financiamento de 350 mil euros por parte do Fundo Inovação Social, mais locais no país vão ter acesso a esta tecnologia que aproxima pescadores, vendedores, restaurantes – e consumidores.

Começou em 2017 e dois anos depois estava implementado em Peniche. Segundo dados da Lota Online, há 30 embarcações aderentes, “representando a maioria das artes de pesca artesanal e variedades de pescado da costa continental”.

Com a Lota Online é possível comprar o peixe ainda quando está no barco, diretamente ou em leilão online. A Lota Online serve vários clientes na restauração, peixarias, supermercados e grandes grossistas, aproximando-os. Qualquer pescador/armador, cliente da Docapesca ou comprador pode registar-se no site.

Too Good To Go

A empresa Too Good To Go, cujo nome pode ser traduzido para “Demasiado bom para deitar fora”, quer combater o desperdício alimentar ao permitir que supermercados, restaurantes, pastelarias e hotéis (e mais alguns estabelecimentos) vendam os excedentes alimentares, diariamente, a quem queira comprar. Isto por um preço reduzido. Só este ano, salvaram 84 mil refeições de ter como fim o lixo.

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Ao dar uma segunda oportunidade a alimentos em perfeitas condições de consumo, mesmo que a preços mais baixos, rentabilizam a produção de um estabelecimento e o caminho daquele alimento até ao prato.

Por exemplo, ao vender uma ‘magic box’ por 3,99€, um restaurante ganha maior parte desse valor. O consumidor paga pela app e só tem de levantar a caixinha no estabelecimento. Algumas vezes, até pode trazer o próprio recipiente e, assim, poupar no plástico. A aplicação recebe uma comissão cujo valor não revela, mas Madalena Rugeroni, representante da Too Good To Go em Portugal, assegura ao SAPO24 que “é um valor reduzido”.

Os 221.000 utilizadores da aplicação Too Good To Go evitaram o desperdício de 100 mil refeições, desde outubro de 2019, o que significa que os 735 estabelecimentos parceiros da app conseguiram monetizar algo que ia para o lixo apenas por sobrar. Se tem um negócio e se quer juntar ao movimento, pode fazê-lo no site.

Pesquisa e testemunhos recolhidos por Magda Cruz

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