Por definição, vamos à escola para aprender e o Future of Computing começa por ser isso mesmo: um espaço para aprender sobre as tecnologias de computação. Mas quando na mesma sala se juntam académicos, investigadores, alunos de doutoramento de várias partes do mundo a falar de computação quântica, neuromórfica, bioquímica e programação com recurso a GPUs é difícil não sentirmos que estamos um pouco no domínio da ficção científica.

Uma ideia que Clara Gonçalves, uma das mentoras do evento, não corrige mas que amplia: “a maior parte dos speakers que vieram estão a fazer investigação e desenvolvimento nas áreas da computação química, biológica, neuromórfica e quântica. Procurámos conhecer quem é que está a transformar o mundo nestas áreas e formar um conjunto de alunos. O objetivo da escola foi ser internacional, para podermos abrir o leque sobre o que vai ser o futuro da economia e das novas empresas que vão surgir decorrentes desta transformação na área da computação”.

Recuando um pouco no tempo, aos anos que antecederam a realização do primeiro Future of Computing, em 2018, promovido pela UPTEC, o Parque de Ciência e Tecnologia da Universidade do Porto. O evento nascia entre conversas que juntavam investigadores, empreendedores, cientistas. Duas dessas pessoas, Clara Gonçalves, à época diretora executiva da UPTEC, e Luís Sarmento, à época recém-regressado da Amazon nos Estados Unidos onde tinha trabalhado durante cinco anos, resolveram levar a conversa para o nível seguinte. “Foi uma conjugação muito feliz que resultou da vinda do Luís Sarmento e de termos falado várias vezes sobre a política de desenvolvimento na área da computação. Percebemos que ou começávamos a pensar o que vai ser o futuro da tecnologia ou começávamos a ficar obsoletos do ponto de vista de tecnologia. Fomos fazer um bocado de ficção científica, e tentar perceber o que vão ser as empresas num horizonte de 50 anos”, recorda Clara Gonçalves.

Fazer ficção científica significa fazer uma imersão em áreas do conhecimento que vivem um momento inédito na história da tecnologia e da ciência. “Pela primeira vez na história da humanidade há uma viragem enorme que ninguém sabe para onde está a ir no que respeita ao desenvolvimento da tecnologia, mas ao mesmo tempo há um conjunto de pessoas de áreas muito distintas da ciência que começam a pensar nesses impactos. Ao mesmo que falamos em tecnologia core, falamos também naquilo que é o impacto dessa tecnologia e como de uma forma multidisciplinar podemos pensar nisso”.

O objetivo desta escola é precisamente oferecer aos participantes uma visão teórica e prática das tecnologias de computação de ponta e das várias tecnologias emergentes e não convencionais que, como a própria organização escreve, "provavelmente apoiarão o futuro da computação nos próximos anos". A palavra “provavelmente” não está lá por acaso. É que no domínio da super computação as enormes possibilidades em cima da mesa convivem com igualmente enormes incógnitas sobre como a tecnologia irá evoluir. Um dos exemplos que tem chegado como mais facilidade ao público em geral passa pela articulação das capacidades humanas com as capacidades das máquinas ou, até mais que a articulação, a potenciação ou reprodução de capacidades humanas pelas máquinas. Um território novo, promissor e assustador e que foi uma das temáticas em destaque na edição de 2019.

“Estamos a falar numa adaptação daquilo que já existe e que é super-eficiente, que é a biologia, as nossas redes neuronais que se traduzem numa capacidade monstruosa de computação”, explica Clara. Na computação neuromórfica assistimos a uma imitação daquilo que se passa no nosso cérebro e na nossa biologia e isso traz questões que ultrapassam em muito as possibilidades da mera evolução tecnológica, seja pela discussão sobre se vamos criar “super-homens”, seja pelo receio de sermos um dia substituídos pelas máquinas que estamos a criar. “Pela primeira vez, estamos a pensar no desenvolvimento da tecnologia ao mesmo tempo que estamos a pensar no impacto do desenvolvimento dessa tecnologia. Mesmo que seja de forma muito ténue - e é uma das razoes pelas quais nós incluímos todas as questões ligadas ao impacto e à ética - percebermos que há um potencial muito grande que o nosso cérebro desconhece como é que eventualmente irá funcionar, em função dos algoritmos que continuam a ser desenvolvidos. Não sabemos qual é esse impacto, mas estamos preocupados com isso”.

O Quantum foi um dos temas da edição de 2019, nomeadamente com um dia dedicado a um workshop coordenado pela IBM em que os participantes tiveram acesso remoto ao ao computador quântico da empresa. Vamos por partes. A IBM, empresa que assina alguns dos principais marcos da história dos computadores (recorde-se a série 700 de mainframes na década de 1950 e posteriormente System/360 que levou a computação ao mundo comercial nas décadas seguintes de 60 e 70), protagoniza um novo momento de viragem na indústria ao ser pioneira no primeiro computador quântico integrado, o IBM Q System One. O que faz este computador? Procurando traduzir de forma simples o que é muito complexo, permite através da mecânica quântica realizar cálculos que estavam até aqui fora do alcance dos computadores atuais. Porque é que isso é transformador? Porque vai permitir trabalhar com dados a uma velocidade e em dimensões nunca antes vistas.

“Quando se conseguir que qualquer algoritmo em quantum funcione sempre, a variável tempo que é uma das bases da física quântica e um dos grandes mistérios da área, vai permitir que a velocidade de processamento seja não sei quantas vezes superior. Qualquer uma das formas de computação, incluindo o quantum, pode permitir ao mundo uma forma simples de diminuir drasticamente o consumo de energia daquilo que é o armazenamento de dados, o processamento de dados, etc. Nesta altura, o único computador quântico que se sabe que existe (da IBM) está a temperaturas muito baixas. A questão do consumo de energia pode ser uma mudança de paradigma no mundo inteiro”, adianta Clara Gonçalves.

Não sendo uma feira nem uma conferência com objetivos de promoção, o Future of Computing atraiu no segundo ano não só uma comunidade de conhecimento multinacional como a atenção de multinacionais. Além da IBM, também a Nvidia organizou um workshop, desta feita destinado às aplicações de inteligência artificial.

Depois destas duas edições, a única certeza que os promotores mantém é que o espaço do evento é essencial à discussão sobre a evolução tecnológica. “Portugal perdeu a corrida no desenvolvimento de muitas tecnologias e o nosso posicionamento enquanto país pequeno é medido em função daquilo que é o nosso grau de inovação. No meu ponto de vista, é aquilo que temos mais para vender, e para vender ao exterior. Este evento é uma forma de começarmos a pensar em pôr as mãos ou os pés ao caminho e a especializar em algumas áreas nas quais sabemos que já temos competência”, sublinha Clara Gonçalves.

Com um leque de temas tão diverso, não é de estranhar que o Future of Computing recebesse pessoas de locais e de áreas de investigação igualmente distintas. Universidade de Southampton, Universidade de Viena, Universidade de Manchester, Universidade de Zurique, Universidade de Oxford, Universidade de São Paulo, Universidade Nova, Universidade do Porto, INESC, i3S, FCCT, NVIDIA Deep Learning Institute, IBM Thomas J. Watson Research Center, Itaú Cultural Institute, Veniam, Defined Crowd, Feedzai, Didimo e também nós, SAPO24. Além de estudantes, investigadores, professores o evento foi também um espaço onde convergiram empreendedores, investidores e agências governamentais. Sem ambição de ser cabeça de cartaz mas sim de encontrar pessoas com quem seja possível discutir o futuro da computação na era com mais possibilidades nesta área. E foi isso que aconteceu.

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