A Didi, uma startup chinesa criada em 2012, tem atualmente o dobro das receitas da Uber (21 mil milhões de dólares em 2020) e 500 milhões de utilizadores ativos. Esta semana, tornou-se uma empresa cotada em Wall Street (com uma avaliação de 67 mil milhões de dólares) e a sua crescente importância tornou-a no mais recente alvo das autoridades chinesas. Mas comecemos pelo percurso que fez para chegar aqui, que a levou a ser mais do que apenas “a Uber da China”.

Alguém a quem tudo aconteceu

Existem 4 momentos que ajudam a descrever a vida do fundador da Didi, Cheng Wei:

  • Nasceu na província de Jiangxi, região onde se desencadeou a revolução comunista de Mao Tse-Tung, nos anos 50.
  • Apesar de ser um aluno brilhante na escola, no exame nacional de acesso à faculdade, esqueceu-se de responder às perguntas presentes na última página, o que resultou numa nota que o levou a uma faculdade menos prestigiante em Pequim para estudar Bioquímica.
  • No processo de encontrar um emprego para pagar os estudos, candidatou-se a uma empresa que se publicitava como uma das mais famosas no setor da saúde em Xangai. Era na realidade um centro de massagens nos pés, no qual Cheng teve de trabalhar algum tempo.
  • Em 2005, saído da faculdade, foi trabalhar para a Alibaba. Foi aqui que se destacou com um vendedor de excelência e onde abdicou de um bom futuro em 2012, para começar uma empresa que queria replicar na China, um “serviço de boleias” que estava a demonstrar potencial nos EUA e no Reino Unido.

As dinâmicas do mercado chinês

Em 2012, existiam cerca de 2 milhões de taxistas na China e a ideia de Cheng Wei foi desenvolver uma plataforma que, ao contrário da Uber, pudesse centralizar todos os serviços de comuta. Na Didi, além de veículos privados, os utilizadores podiam pedir e pagar um táxi, uma limusina ou mesmo uma viagem num autocarro público. Deste modo, podia criar valor para o lado da oferta e da procura, sem criar grandes tensões sociais como aquelas que a Uber criou nos diversos mercados onde entrou. O problema? Dezenas de empresas chinesas tiveram, na altura, exatamente a mesma ideia que Wei, o que tornou a sua missão bem mais complicada.

Para se destacar, a Didi decidiu fazer três coisas: 1) expandir-se para cidades chinesas que tivessem uma legislação mais amigável para o seu serviço, 2) copiar o registo da Uber e focar-se na oferta de veículos privados, com preços mais premium 3) contratar condutores jovens a quem não precisasse de comprar um smartphone para utilizar a sua app grátis (uma prática comum em muitas plataformas) e que “espalhassem a palavra”, cortando nos custos e beneficiando de comunicação grátis e orgânica.

Superado o desafio inicial, chegou a altura de ser apadrinhada aka investida por uma das principais tech chinesas, uma condição essencial para uma startup dar o salto na China. A Didi escolheu, ou melhor, foi escolhida pela Tencent, a gigante das redes sociais e do gaming. Em 2014, a Tencent utilizou a Didi para aumentar o número de transações que eram feitas através do serviço de pagamentos mobile da sua WeChat (a super-app chinesa com mais de mil milhões de utilizadores atualmente), o que levou a Didi a crescer exponencialmente. Em 2015, um merger com a sua principal rival Kuaidi, estabeleceu-a como líder do mercar.

A guerra com a Uber Em 2015, conquistar a China tornou-se no principal objetivo para Travis Kalanick, agora ex-CEO da Uber e uma das pessoas que Cheng Wei mais admirava. Isto levou a que a rota de colisão entre os dois, apesar de muito dura para as suas empresas, acabasse por ser mais amigável do que se estaria à espera e fizesse jus à expressão it’s just business. Olhemos para alguns dos destaques:

Queimando milhões: para ganharem mercado, as duas empresas entraram numa disputa para ver quem conseguia oferecer mais benefícios. Para conseguirem mais clientes, ofereciam cada vez mais códigos de descontos que tornavam as viagens mais baratas e menos rentáveis. Para conseguirem corresponder à crescente procura, atraiam condutores com taxas de serviços cada vez mais altas, que aumentavam o prejuízo que tinham por cada “boleia”.

Disputando rondas de financiamento: A Didi viu a Apple investir mil milhões de dólares em si, enquanto a Uber recolheu uma “ajuda” de 3.5 mil milhões de dólares do fundo soberano da Arábia Saudita. Tudo em prol do crescimento do negócio.

Invadindo o inimigo: para combater a Uber no seu território, a Didi decidiu tornar-se numa das principais investidoras da Lyft, que disputava o mercado americano com a sua rival.

Em 2016, acordaram um cessar-fogo. Ganhar a China estava a criar uma pressão financeira que começou a prejudicar a sustentabilidade do negócio da Uber. Amigas como dantes, trocaram lugares nos seus conselhos de administração e a Didi ficou com as operações da Uber na China, em troca de uma participação de 17% na sua empresa e mil milhões de dólares.

Avançando para 2021

Lucro. 95 milhões de dólares foi quanto a Didi apresentou no primeiro trimestre de 2021, depois de ter perdido 2.6 mil milhões de dólares em 2020.

Expansão. Além da China, onde tem 90% do mercado, a Didi está presente em mais 14 mercados, sendo o Brasil e o México aqueles com maior expressão.

Banida. Depois de várias multas aplicadas pelas autoridades chinesas por abuso de posição dominante no mercado, as tensões com Pequim chegaram a um novo nível. A Didi viu a sua plataforma ser banida de todas as app stores na China, por ilegalidades na coleção de dados dos seus utilizadores. Resta ver se é apenas temporária, dado que os utilizadores atuais poderão continuar a utilizar a aplicação. No entanto, no que diz respeito à sua valorização nos mercados, depois de ganhos iniciais, as ações da Didi tem estado a desvalorizar progressivamente nos últimos dias.

Big picture. A Didi dificilmente está isenta de responsabilidades, mas este pode ser o preço a pagar por empresas chinesas que mostram uma “ocidentalização excessiva” e não será coincidência isto acontecer dias depois de a Didi entrar em Wall Street. Outras big tech chinesas com a ByteDance (dona do TikTok) ou a Ant Pay (com ligações à Alibaba) passaram por processos semelhantes.

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Um artigo do parceiro

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