NoWHEY. O nome remete imediatamente para a expressão inglesa “no way”, que em português se traduz para “nem pensar” ou “de maneira nenhuma”. Só que “Whey”, na verdade, quer dizer “soro de leite” na língua anglo-saxónica, ou seja, um subproduto resultante da produção de laticínios.

“Quando dizemos "NoWHEY", estamos a querer dizer que não queremos que tomem a proteína proveniente de uma vaca”, explica Claus Rosenberg Gotthard, fundador e CEO desta empresa, formada no início do ano. Este trocadilho divertido serve de cartão de visita desta startup. Tomando o caju como ponto de partida para um universo de produtos alimentares, a NoWHEY quer espalhar a boa nova das alternativas vegetais ao leite de origem animal. Para já, é gelado que a empresa vende, mas o objetivo é expandir e na calha está a criação de um cabaz de alternativas aos laticínios, que passam por leite, queijo, margarina e kefir.

Este é um projeto que tem em Claus o seu grande dinamizador. Dinamarquês, o empresário abandonou o seu país natal, percorrendo um périplo que o levou à Rússia, ao Chipre e a Espanha, antes de se instalar em Portugal. Pelo caminho foi criando empresas em diversas indústrias, tendo a primeira, de cariz comercial, sido formada em 1993.

“Eu sou o tipo de pessoa que está sempre criar empresas, é o que faço”, justifica o empresário. Contudo, tendo já uma carreira bem recheada, o dinamarquês fez um exercício de reflexão antes de se atirar a este projeto. “Pensei: 'tenho 52 anos, o próximo projeto tem de ter muita paixão, tem de ser algo no qual possa trabalhar e apreciar todas as horas que implica ser um empreendedor’", admite. A resposta estava numa decisão tomada anos atrás.

Foi depois de uma visita à Tailândia que Claus decidiu operar uma revolução na sua vida. “Tornei-me "plant-based", ou seja, passei a fazer uma dieta à base de plantas, não consumo quaisquer produtos animais”, diz. A decisão foi tomada por influência do seu enteado, um instrutor de mergulho a trabalhar no país asiático e que se tornou vegan por se recusar a alimentar-se à base de vida animal.

Não é segredo nenhum que há cada vez mais pessoas a reduzir ou a acabar mesmo com o consumo de bens de origem animal, substituindo-os por alternativas vegetais, e os laticínios não são exceção. Segundo um estudo conduzido no ano passado pela consultora Nielsen, o consumo de leite de vaca tem vindo a baixar nos EUA e a dar lugar às alternativas vegetais, tendência essa com réplica em Portugal, não obstante os esforços da indústria leiteira

Contudo, ao entrar no mundo dos produtos “plant-based”, Claus apercebeu-se da “qualidade inferior de substitutos de laticínios e alternativas”, presentes “numa seleção limitada”. Face à necessidade, surge a inovação. “É aqui que todos os empreendedores começam, encontram algo que querem mudar”, justifica o empresário. Foi assim que decidiu fundar a NoWHEY em conjunto com Catarina Rocha, CMO (diretora de marketing) do projeto e adepta do flexitarianismo — corrente dietética que pugna pela redução da proteína animal na alimentação sem que isso signifique a sua eliminação completa.

Amêndoa, soja, arroz ou aveia têm sido algumas das matérias primas mais populares para produção de leites alternativos, mas para a NoWHEY, é o caju o alimento capaz de fazer as pessoas esquecerem o leite de vaca, com Claus a afirmar que “com os conteúdos certos do caju, é possível obter uma experiência 90% parecida com a que se teria com um laticínio”.

Ao contrário, por exemplo, da amêndoa, que, segundo Claus, “tem um sabor demasiado forte”, e do arroz, que, diz Catarina, “não tem qualquer gordura e, por isso, não balanceia de forma alguma em termos de nutrição”, o caju, segundo a CMO, “tem um sabor rico, equilibrado, bem balanceado em termos de gordura. Tem todos os ingredientes e nutrição dos frutos assim como um elevado nível protéico”. 

Ambos sabem o que dizem. Afinal de contas, tanto um como o outro tem experiência na cozinha: Claus largou as suas empresas em 2005 para se tornar um chef privado autodidata, num percurso invulgar que o levou a cozinhar para vários embaixadores e até para o presidente da república do Chipre; já Catarina obteve os seus pergaminhos na Escola de Hotelaria e Turismo do Estoril, antes de infletir para o rumo da gestão nas áreas de estratégia e marketing na Nova SBE, passando depois por empresas como a Unilever e a Heineken.

Com o apoio de um investidor português, a empresa assegurou as suas primeiras instalações de produção no início do ano, criando uma cozinha piloto em Cascais. Todavia, com a cozinha ainda a ser dotada de maquinaria e com as aprovações de produção de bebidas vegetais pendentes, Claus considerou ser necessário pôr as mãos à obra, tendo a NoWHEY começado logo por produzir gelados, disponíveis, neste momento, em três sabores: chocolate (“Triple Trouble Chocolate”), morango (“Fairy Strawberry”) e caju (“Groovy Cashew”)

Houve dois fatores que levaram a esta decisão. Se por um lado, como admite Claus, houve uma necessidade imediata de rentabilização para diminuir os custos iniciais, por outro Catarina diz que a produção de gelados serviu como um “torture test” ao caju, termo empresarial que se traduz latamente para o “vai ou racha”.

“É muito difícil fazer gelado sem leite de vaca, devido ao facto de ser necessário obter aquela textura cremosa. Uma coisa que fizemos foi aprender que a nossa fórmula para o gelado de caju é tão boa e tão bem balanceada que uma pessoa não nota que não tem laticínios. O ‘torture test’ serviu para provar que este leite vegetal é tão bom que serve para fazer gelado, e estamos a falar de qualidade premium, portanto, gelado artesanal de estilo italiano e não de produção e venda massiva”, conclui Catarina.

Para já, os dois admitem que, não tendo este sido um verão particularmente quente, as vendas dos gelados não têm sido feitas em grande volume. Contudo, Catarina diz que os sinais são positivos pois “das pessoas que provaram quase todas repetiram e o feedback é de que acertámos em cheio”,  conta. Há até interessados no projeto mesmo sem se ter comercializado ainda o leite. “Já começámos a receber muitas mensagens de influenciadores e criadores de conteúdos. Viram o nosso Instagram e já disseram que querem consumir o nosso produto, mas nós temos de lhes dizer para aguardarem, que ainda estamos a acabar a cozinha!”, avança a responsável pelo marketing.

Com estes sinais positivos em mente, a NoWHEY quer lançar o seu leite de caju em outubro deste ano. Se tudo correr bem, seguir-se-ão os iogurtes e outros produtos como queijos e spreads no início de 2020. Para tal, diz Catarina, a empresa irá recorrer a produtoras private label para escalar a oferta, admitindo até começar a vender substitutos de carne, como hambúrgueres.

“Uma das nossas missões é sermos um supermercado de produtos ‘plant-based’, onde se pode fazer compras à distância de um clique”, diz a CMO, sendo que, para tal, está em curso o desenvolvimento de uma aplicação para smartphone onde os consumidores podem fazer encomendas, numa lógica "direct to consumer" [ligação direta ao consumidor final]. Este é, aliás, um dos três canais de distribuição a serem utilizados pela NoWHEY, sendo os outros dois o retalho especializado e, acrescenta Claus, “pontos de coleta em empresas onde a força de trabalho seja composta por muitos jovens millennials como a Farfetch e ou a Teleperformance”.

Para levar todo este plano a bom porto, Claus refere que Lisboa fez parte da estratégia. Além de se ter afigurado uma boa cidade para viver, o empresário diz que a capital, tendo quase três milhões de habitantes na sua área metropolitana, “é uma boa sandbox para testar coisas”. “Podemos testar canais de distribuição, produção e depois podemos fazer copy-paste para Amesterdão, Londres ou Berlim, quando tivermos aprendido tudo aqui”, completa.

Uma filosofia à antiga

Sendo um projeto inserido dentro das tendências alimentares que se têm estabelecido como alternativas ao consumo de produtos animais, há um pendor ecológico no ADN da NoWHEY. Contudo, este vai para além da alimentação vegetariana, aliando as práticas sustentáveis do zero desperdício.

O consumismo foi demasiado longe, tendo em conta o quanto gastamos em bens de consumo, especialmente tendo em conta aquilo que se chama 'embalamento linear', embalagens que são usadas só uma vez”, considera Claus. Olhando para os exemplos do passado, o empresário recorda que antes se compravam “Pepsis e Coca-Colas em garrafas de vidro e que estas eram devolvidas”, prática que se foi perdendo. A solução, diz, passa por “trazer de volta produtos de qualidade que sejam simples e transparentes na forma como foram criados, é preciso fazer com que o embalamento seja feito de forma circular, em que se reutiliza, se recarrega ou se recicla”.

Para atingir este propósito, a estratégia da empresa vai passar por incentivar os clientes a guardarem as garrafas de leite. No ato de entrega seguinte, estas são recolhidas para serem lavadas, esterilizadas e reenchidas, passando-se o mesmo com os boiões de iogurte. Contudo, pensando já em produtos como hambúrgueres, Claus admite a possibilidade de utilizar plástico — mas numas embalagens de boa qualidade que possam ser reaproveitadas. “O que pode ser reutilizado, será reutilizado; o que não pode, será reciclado”, justifica o empresário.

A NoWHEY considera que o seu caminho passa por estabelecer-se então como uma empresa com um papel ativo sem ser ativista. ”Nós não queremos ser uma empresa muito fundamentalista e fechada, esse não é o nosso caminho. Nós queremos ser aqueles que providenciam os melhores alimentos ‘plant-based’ à tua porta, avança Catarina, lembrando que querem fazê-lo “sem desperdício, porque precisamos mesmo de ter o nosso planeta para a próxima geração”.

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