Conhecidas sobretudo pelas praias paradisíacas banhadas pelas águas do Atlântico, não é todos os dias que se ouve falar das nações de Antígua e Barbuda e de Santa Lucia de um ponto de vista económico ou das suas estratégias para combater problemas globais como a atual pandemia da covid-19.

Foi num esforço de combater a miopia mediática com países frequentemente ignorados no panorama mundial que se deu a conferência “No one left behind: Global citizenship during a pandemic” (“Ninguém deixado para trás: cidadania global durante uma pandemia”), criando uma plataforma para se discutir as estratégias destes dois países.

Moderada por Armand Arton, fundador e presidente da Global Citizen Forum, uma ONG canadiana criada para promover a cidadania global, a conversa teve como intervenientes Gaston Browne, primeiro-ministro de Antígua e Barbuda desde 2014, e Allen Chastanet, a cumprir o respetivo mandato desde 2016.

Tendo ambos sido empresários antes de serem primeiros-ministros destes países das Caraíbas, tanto um como o outro explicaram como estão a lidar com a pandemia da Covid-19 a meias com a recuperação da destruição causada pela época dos furacões em 2017.

Começando Gaston Browne por tomar a palavra, o governante de Antígua e Barbuda explicou que, de um ponto de vista epidémico, o país voltou à normalidade a 1 de junho, recebendo voos turísticos desde então, e tem conseguido cingir as infeções a alguns casos importados.

Ainda assim, a dependência do país no setor do turismo continua a ser um problema, pelo que o desemprego aumentou com o encerramento de alguns hotéis (outros, no entanto, já reabriram). Por isso mesmo, Browne explicou que tem havido uma tentativa de diversificar a economia do país, investindo em áreas como a plantação legal de cannabis, a construção de instalações de terapia de células estaminais, assim como a vinda de “vários operadores de blockchain e criptomoeda, alguns dos maior do mundo, a trazer os seus negócios."

Mas além destas áreas, Antígua e Barbuda tem-se também servido de um programa chamado "Citizenship by Investment" (CBI), uma forma de fomentar investimento estrangeiro ao dar a cidadania do país a quem invista no país. “Um dos produtos desenvolvidos nos últimos sete anos tem sido o programa CPI, que se tornou numa fonte de receitas significativa. Se não fosse o CPI, o impacto da covid-19 tinha sido mais destrutivo", garantiu o primeiro-ministro.

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Outra das soluções passou pela criação de um programa de vistos para nómadas digitais. “Providenciamos uma estada de até dois anos para trabalhadores de conhecimento, pessoas com altos rendimentos líquidos e até estudantes, que podem vir para aqui, num ambiente seguro — tanto em termos de crime e violência, como em termos da pandemia”, disse o governante.

Semelhante abordagem ao mundo digital tem tido Allen Chastanet, que falou das formas inovadoras como Santa Lucia tem procurado destacar-se no mercado internacional. Uma delas passa por um ato legislativo que passou a permitir “às empresas abrir sedes em Santa Lucia com um mínimo de dez pessoas”, sendo que “a empresa recebe isenções fiscais para sempre e todos os empregados ficam isentos de impostos, quer trabalhem cá ou a partir de outro país". Estes incentivos, indica, vão passar a ser direcionados também a empresas ainda mais pequenas, focando-se em sócios-gerentes que queiram ser nómadas digitais.

À semelhança do que se passa em Antígua e Barbuda, também em Santa Lucia quem criar uma empresa passa a ter nacionalidade e Chastanet garante até que a pandemia, apesar de todo o seu cariz destrutivo a nível humano e económico, trouxe algumas mais valias.

A covid abriu um novo mercado de pessoas, que valorizam não só ter uma segunda nacionalidade, mas ter uma segunda casa que pode também um sítio onde fazem negócio, sendo ao mesmo tempo um destino turístico", disse o primeiro-ministro de Santa Lucia, referindo como nove empresas já se instalaram na diminuta ilha.

Para além disso, a nação caribenha implementou também a criação de obrigações fiscais a cinco anos de cupão zero para potenciais investidores estrangeiros. Dizendo que a maioria dos países viram-se confrontados com uma "armadilha de liquidez" em que as despesas subiram e as receitas caíram, Chastanet garantiu que o dinheiro obtido através desta medida não é para investir em novos projetos, mas para substituir dívida já existente, pelo que “é muito seguro” porque “não estamos a criar nova dívida sobre o PIB”.

Estratégias como estas — de abraçar a digitalização da economia — têm sido cada vez mais adotadas pelos vários países localizados nas Caraíbas Orientais garante Chastanet, referindo que muitos “estão a investir fortemente em banda larga e em plataformas de governo online”. Para além disso, apesar de não adiantar muito mais, o governante indicou que o dólar das Caraíbas Orientais — usado pelos sete estados membros da Organização dos Estados das Caraíbas Orientais — vai ser “provavelmente a primeira moeda digital do mundo.”

No entanto, o primeiro-ministro de Santa Lucia frisou que o turismo continua a ser crucial para o país e que, apesar da pandemia, o país continua a ser alvo de forte investimento estrangeiro neste setor. Mas também aqui, apesar das contingências, Chastanet indicou que curiosamente a pandemia trouxe ganhos para o seu país.

Visto que também Santa Lucia abriu as fronteiras durante o verão — em julho — o governante diz que o país ganhou quota de mercado no turismo em relação a outros países que se fecharam. “Temos mais voos a vir agora do que vinham pré-covid”, sublinhou, admitindo, porém, querer que os fundos de recuperação europeus se destinem também ao setor de aviação, crucial para manter as ligações ao país.

O país, disse Chastanet, está a trabalhar para obter as vacinas para a covid-19 — tal como Antígua e Barbuda — no próximo ano, mas estas, indica, não são uma condição essencial para que a normalidade regresse. "Porque mantivemos as portas abertas, aprendemos a coexistir com a covid-19. Temos tido viajantes internacionais a vir para cá, temos mais de 18 mil vindas desde julho e, com os protocolos que colocámos a funcionar, tem funcionado. Mesmo sem a vacina, temos conseguido aguentar", disse.

De um ponto de vista humano, a Covid-19 não foi especialmente destrutiva em nenhum dos dois países. Segundo a universidade Johns Hopkins,
Antígua e Barbuda teve 142 casos positivos (quatro mortes), sendo que Santa Lucia teve 261 casos (duas mortes) desde o início da pandemia. Importa, portanto, falar de um ponto de vista económico quanto às duas nações.

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