A crítica de Pedro Soares Botelho. “A Balada de Adam Henry”, de Richard Eyre com Emma Thompson, Fionn Whitehead e Stanley Tucci estreou esta quinta-feira, 20 de setembro, nas salas portuguesas.


‘Dura lex, sed lex’. A máxima latina diz-nos que apesar de dura, a lei é lei. E acima da lei, nem deus, nem moral. Assim posta, parece uma boa premissa para a vida social dos homens, porém, sempre há exemplos que destroem a lógica e obrigam os homens a ponderar da razão das leis, sejam as dos tribunais, sejam as que regem o viver e o morrer.

Fiona Maye (Emma Thompson) é uma prestigiada juíza britânica. Nas mãos, cabe-lhe o papel de deus: deixar morrer, obrigar a viver; matar para salvar. O rude enunciado pode não deixar antever a totalidade da discussão, a profundidade das dúvidas com que se depara alguém que, ante a lógica e a lei, entre a religião e a vontade, tem de saber ler o correto — correto aos olhos da justiça.

Quando lhe entra sala dentro o caso de dois bebés siameses cuja sobrevivência de um depende da morte do outro, Fiona divide-se, antes de os mandar dividir a eles. O caso não é original e relembra a história de Charlie Gard, uma criança britânica que morreu este ano, depois de a justiça decidir dar razão à ciência e não à vontade dos pais. Os pais da criança de onze meses queriam levá-la para os Estados Unidos onde Charlie seria submetido a um tratamento experimental. As autoridades britânicas, porém, não autorizaram a transferência. Depois de o estado de saúde do bebé se ter deteriorado, os pais lutaram para o levar para casa. Porém, como explicava na altura o jornal britânico ‘Guardian’, a família foi incapaz de encontrar uma equipa de cuidados intensivos disponível 24 horas por dia para o manter vivo. Morreu a uma semana de completar o primeiro aniversário.

créditos: © 2017 Free Choice, LLC.

O nome original do filme, “The Children Act”, é uma referência à legislação britânica, de 1989, acerca da proteção de menores. É citando essa lei que Fiona fundamenta a decisão: “o bem-estar da criança deve ser o principal fator na ponderação do tribunal”. Aqui, neste Portugal, não é raro ouvir a justiça citar o "superior interesse da criança" para fundamentar as suas decisões. O sentido é semelhante.

Todavia, que fazer quando a criança chega aos últimos estágios de pertença a esse estágio? O que fazer quando a criança vai no final dos 17 anos, rumando por largo caminho ao dispositivo legal que dela faz adulta e dona da respetiva vida (e também morte, já que o tribunal não pode decidir por um adulto)?

É o caso seguinte. Mais um em dezenas, particular apenas pelo momento que a juíza atravessa em casa.

Adam Henry (Fionn Whitehead) é um miúdo de 17 anos. Profundamente religioso e alegadamente maduro o suficiente para perceber da vida e da morte, decide cumprir os ditames da religião que segue e recusar uma transfusão de sangue que lhe salvaria a vida. Os pais apoiam-no. O hospital não. O caso cai na secretária de Fiona.

créditos: © 2017 Free Choice, LLC.

Para a religião que professa, o sangue é o éter que faz os homens únicos. É o suco da vida, a alma feita matéria. Juntar-lhe sangue de outrem é contaminar a alma com pedaços de um outro espírito. E por isso diz que não. Adam não quer, não quer e não quer. Acima de deus, nem a vida.

Fiona decide que quer ir conhecer esse Adam; aferir da sua alegada maturidade, percebê-lo, ver se lhe faz sentido a morte como ponto final ou somente para entrada no reino dos mártires.

Encontra-o. Canta com ele. Enternecem-se durante as poucas horas que a juíza tem para lhe decidir a vida. Poderá dizer-se que se joga uma sedução mútua. Sedução, contudo, encravada na lei e talvez não no amor.

Vale a pena falar de um pequeno livro de um aviador francês. A dada altura, uma criança com herança real aterra num tal lugar aonde acha uma raposa. Diz-lhe o bicho que há responsabilidades quando se cativa alguém. Não se pode andar por aí atirando indícios de afinidade se deles vierem falsos objetivos — ou pelo menos se não houver vontade de continuar. E mais: depois de alguém cativado ficar, cabe a quem o cativou guardar por isso a responsabilidade.

Esta discussão, apesar de levemente aludida, não encontra eco de maior no filme. Ou não o encontra, ou não a notou o autor destas linhas, que, reconhecendo o mérito do trabalho, ficou à espera de uma maior ou mais profunda análise. Por outro lado (e logo o trailer no-lo mostra), é dada uma maior preferência à relação de Fiona com o marido (Stanley Tucci), que lhe entra um dia sala dentro a dizer que decidiu ter uma amante.

créditos: © 2017 Free Choice, LLC.

O filme segue, assim, ao lado de uma boa história. Ou talvez. Ou talvez o que queira é mesmo mostrar a vida da juíza e não as vidas que a rodeiam.

E por isso, vale a pena notar uma interessante inversão. Não há um homem forte. Há uma mulher (a mulher), que governa com força e realismo, num mundo de homens ora condescendentes, ora hipócritas; homens sempre à procura do seu momento de relevância, como que numa necessidade enorme de gritar ao mundo ou às salas onde estão: “Reparai, reparai que sou homem e estou aqui”.

Com um diálogo irrepreensível, da autoria de Ian McEwan, que escreveu o livro de 2014 em que o filme se baseia, "A Balada de Adam Henry" lembra as novelas britânicas — o que não é necessariamente mau. Recorde-se que o escritor britânico esteve também por trás do livro que deu origem ao filme ‘Na Praia de Chesil’, que estreou nas salas portuguesas a 5 de julho deste ano.

O fausto e a aura são mérito de um realizador (Richard Eyre) capaz de agarrar o Reino Unido com toda a sua chuva e verde. Bach empresta o resto para a balada. E como balada que é, os 105 minutos passam lentos e suaves. Embora mantendo a espaços o lugar para perguntar a quem cabe o papel da vida e o papel da morte; o papel do amor e o papel da vontade.

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