Este artigo contém spoilers. Se ainda não viu nada da série ou da última temporada, não se recomenda a leitura que se segue.


Graças ao trailer oficial já sabemos uma coisa: a Parte 4 arranca onde a Parte 3 terminou. Lisboa em custódia, o Professor em fuga e Nairobi a lutar pela vida. Porém, a maior surpresa, aquela que faz coçar a nuca de modo cáustico, é a "aparição" de Berlim — ou não tivesse este feito um regresso ao jeito de uma fénix que perdera a vida na parte 2.

O primeiro episódio chama-se "Game Over" e, claro, os fãs e seguidores da série, após dissecarem o trailer oficial e perscrutado os pequenos trechos de cada episódio disponibilizados pela Netflix nas redes sociais, começaram de pronto a montar teorias. Faz parte destes trâmites e alimenta a alma neste tempo de isolamento domiciliário. A aparição de Berlim (Pedro Alonso) foi obra do acaso para alimentar a expetativa e confundir os fãs ou são flashbacks de reminiscências passadas relevantes para o desfecho que aí vem? Nairobi (Alba Flores) vai ou não sobreviver? Estas são (algumas) dessas teorias e as respostas estão a umas horas de distância. Ou assim se espera. 

Isto tudo para dizer que a antecipação em torno dos novos episódios já era grande, mas a dimensão real do entusiasmo em torno do regresso dos "ladrões das Mascarás de Dalí" ganha todo um outro nível agora que grande parte do mundo está em isolamento domiciliário. Portanto, faz todo o sentido que nas redes sociais, nomeadamente no Instagram, a promoção tenha vindo ser feita em formato vídeo em catadupa. Seja na conta da oficial Netflix ou da própria série, vários são os "clips" que vão surgindo em jeito de pistas para fã deslindar. Num deles, a Inspetora Alicia Sierra (Najwa Nimri) avisou mesmo o espetador: "Se estão com ele [o Professor], não estão comigo". Porém, é no trailer da Parte 4 que vemos a Inspetora a fazer uma proposta difícil a Lisboa: ou entrega o Professor ou é a família que sofre. E agora? Amor de sangue ou amor de paixão? Escolha complicada.

Assim, é esperado um certo frenesim nas redes sociais durante o dia de amanhã (que continuará nos próximos dias) devido à sua popularidade, que explodirá à boleia de uma hashtag bem engendrada pela Netflix. A Parte 3, aquando da sua estreia (ficou disponível na plataforma a 19 de julho de 2019), bateu recordes na plataforma de streaming, de acordo com Variety. Segundo a revista, A Casa de Papel é o programa com os melhores resultados de sempre duma série cuja língua falada não seja a inglesa. Além disso, segundo Diego Ávalos, diretor de conteúdo original da Netflix em Espanha, a história do Professor e companhia é mesmo o programa mais visto de sempre, em qualquer língua, em países como França, Itália, Argentina, Brasil, Chile ou Portugal.

Mais: de acordo com um gráfico do The New York Times, que cita dados da própria Netflix, a série A Casa de Papel já foi vista por 44 milhões de pessoas (que viram pelo menos 70% de cada episódio) e só fica atrás dos originais Stranger Things e Umbrella Academy.

Voltando à Parte 4, é seguro dizer que a mesma chegará nos moldes da anterior, pois a história chega-nos igualmente em 8 episódios. No entanto, este ano há uma novidade adicional: a Netflix vai lançar um documentário que se debruça sobre como esta transitou de um sucesso espanhol para se tornar um fenómeno internacional. São esperadas declarações dos protagonistas, guionistas e, obviamente, do criador e responsável pela mente do responsável (o pleonasmo é intencional) do Assalto à Casa da Moeda espanhola, Álex Pina.

Mini recap da Part 3. "Foi assim que a guerra começou"

O Professor e Raquel (agora Lisboa) uniram-se com o resto da turma para assaltar o Banco de Espanha. O intuito, esse, é simples: honrar Berlim e exigir a libertação de Rio. Os protagonistas planeavam entrar no cofre e derreter o ouro que lá encontrariam, assim como entrar num compartimento secreto onde se encontram documentos que o governo espanhol não tem muito interesse que sejam do conhecimento público. 

Mas assim que Denver saiu pela porta do banco com as caixas vermelhas (que continham a documentação ultra secreta), os negociadores já estavam preparados para o intento do plano. Por isso, a coisa começou a dar para o torto. A Inspetora Alicia engana Nairobi, esta vai à janela tentar avistar o filho que já não vê há anos e leva um tiro no peito. 

Porém, Nairobi não foi a única pessoa que a Inspetora conseguiu aludir e enganar. A personagem que menos se pensou a quem tal fado podia acontecer, acabou mesmo por ser a vítima: o Professor. Alicia levou a que este acreditasse que Lisboa, o seu amor, e que tinha trocado a polícia por ele, tinha sido morta pelas… autoridades. Esta atitude levou a que o Professor quebrasse uma das suas regras: a de que nunca mataria ninguém. 

"Isto deixou de ser um assalto ou um desafio ao sistema. Isto é guerra", disse a Palermo. A sua equipa não vacila e age de acordo: Rio e Tóquio disparam um rocket contra um tanque do exército que estava na iminência de entrar pelo banco adentro. E é só depois disso é que o espectador vê a cena em que Lisboa está, afinal, viva e a ser levada para ficar em custódia. O fim chega pela voz da narradora que nos conta a história, a de Tóquio: "E foi assim que a guerra começou".

Questões, possibilidades e outros tais 

Estas são algumas questões e teorias colocadas pelo site Screen Rant (SR) sobre aquilo que pode ser respondido na Parte 4.

1 - Poderá Tatiana ser a Inspetora Sierra disfarçada ou serão estas duas mulheres entidades individuais que não chegam para alimentar sequer a conspiração? 

A Parte 3 trouxe nova personagem à trama. É certo que só apareceu em flashbacks, a ter conversas com Berlim e o Professor, mas a sugestão de que esteve envolvida romanticamente com o primeiro dá azo a sururu. A personagem dá pelo nome de Tatiana e foi apresentada com sendo uma pianista que era também uma ladra de jóias nas horas vagas. Até aqui nada de anormal, mas há uma nuance importante: sabia dos detalhes do assalto à Casa Nacional da Moeda espanhola. Mais: parece que há quem diga que as parecenças físicas com a Inspetora são demasiadas e há quem sugira que são a mesma pessoa.

Será que estava a trabalhar infiltrada no momento dos flashbacks? A teoria dita que ninguém a saberia reconhecer, apenas Berlim e o Professor. E, se o primeiro está morto e o Professor não estava no Banco de Espanha em Madrid, o resto da turma não tinha qualquer referência com que a pudesse identificar. A teoria fica reforçada quando parece que Alicia é a única com capacidade para entender como é que funciona a mente brilhante que mistura o QI de Einstein e o logro de Robin Hood.

2 - A gravidez da Inspetora Sierra e o que esta significa  

O papel é de vilã, mas a realidade é que estamos a lidar com alguém que tem zero tolerância para infâmias. Raquel (agora Lisboa) era a detetive que liderava a força policial encarregue de capturar os assaltantes da Casa da Moeda, mas esta decidiu trocar de equipa devido ao afeto que passou a sentir pelo Professor após alguns encontros. Assim, a Inspetora Sierra veio colmatar a vaga deixada por Raquel "Lisboa" na terceira parte da série. 

Contudo, a nova inspetora rapidamente entrou no radar de todos os seguidores da Casa de Papel. É muito inteligente, perspicaz e "não papa grupos". Tanto que conseguiu vergar o Professor e forçou-o a fazer algo que ele prometeu que nunca iria fazer. No entanto, há um detalhe em todas as cenas em que apareceu: o foco da câmara apontava para a sua barriga de gestação fortemente avançada. 

Pois bem, tendo em conta que nada acontece por acaso nesta história, há uma alta probabilidade que esta gravidez esconda um detalhe relevante para o que aí vem na nesta quarta parte. Como por exemplo carregar na barriga o filho de Berlim.  

3 - A série não é mais do que uma história contada em vários capítulos de algo que já aconteceu. E é contada por Tóquio, a única personagem que sobreviveu para a contar.

A teoria é centrada apenas num único facto: a de que esta personagem é a narradora e a voz que nos tem acompanhado desde o primeiro momento. Ou seja, Tóquio tem sido a narradora ao longo das três (agora quatro) partes que compõem a série. Portanto, está a contá-la a alguém já numa cela de uma prisão de alta segurança ou num parque escondido enquanto dá milho a uns pombos que por lá se passeiam.

As possibilidades são muitas e é uma teoria como outra qualquer. Até era um desfecho à "Irlandês" e tudo. 

4 - De quem são aquelas três cabeças que estão a ser engolidas por uma multidão no trailer da Parte 4?

No trailer, é possível ver que três pessoas estão a ser escoltadas pela polícia à saída do Banco de Espanha. Uma parece ser Raquel, mas de quem são as cabeças das outras duas? E para onde as levam? 

É certo que às vezes as coisas que são reveladas nestas amostras não chegam a figurar efetivamente nos episódios. Porém, aqui e nesta série, parece não haver muita evidência que aponte nesse sentido. Assim, o SR sugere que uma das pessoas pode ser Angel. E as outras?

5 - Fim de linha para Rio? 

A atração que sente por Tóquio quase que o tramou no início da última parte — ou não tivesse a Interpol conseguido localizá-lo porque quis ligar à sua amada. Não obstante, é também devido a ele que as autoridades sabem as identidades dos restantes membros do grupo. 

Ora, o SR escreve que no mundo ficcional dos filmes e das séries televisivas este tipo de personagens costuma sucumbir e não vivem até ao fim para contar as suas histórias. Paralelamente, o trailer tem indícios de que há uma granada que pode ter sido fatal. 

 Que comece o binge

A estreia só acontece amanhã, mas alguns críticos já tiveram acesso aos episódios. Foi o caso de Rui Pedro Tendinha, do Diário de Notícias (DN), que já escreveu sobre aquilo que viu numa crítica sem spoilers. No artigo é referido que há algumas mudanças, mas que a fórmula é basicamente aquela que popularizou a série. "É o acontecimento da quarentena", segundo reza o final do título. 

O texto adianta que "peripécias, reviravoltas e intrigas à boa maneira da telenovela sul-americana não vão faltar, mesmo considerando alguma sofisticação técnica e uma escala de produção onde não são poupados meios". Isto atesta ao que foi dito à revista Variety, o ano passado, pelo criador Álex Pina (que se inspirou em Breaking Bad e que queria ver ladrões a imprimir dinheiro).

Ao longo da série, é possível atestar que a câmara é colocada nos sítios mais estranhos e caricatos. Para esta Parte 4, a vontade dos produtores passou por arranjar mais "ângulos pelos quais os espetadores não estão à espera". Só que isso vem com um preço (financeiro e não só): a rodagem de cada um dos novos episódios, de 45 minutos, demorou 21-23 dias. A título de comparação a Parte 1 e 2, tiveram direito apenas a 14 — e tinham originalmente 70 minutos, antes de serem "editados à lá Netflix" quando a plataforma adquiriu os seus direitos.

No entanto, segundo a crítica do DN, os novos episódios vão continuar "a provocar um efeito de adesão em cadeia." A diferença, conta, é que agora se vai comentar o destino por "SMS" e não "nos cafés ou trabalho". Ou seja, a série estreia amanhã e já falta muito pouco para que cada um de nós possa tirar as próprias ilações.

Uma coisa parece certa: são muitos aqueles que vão tentar perceber qual será o futuro do Professor e companhia.

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