O festival Porto/Post/Doc apresenta, na segunda-feira, em estreia nacional, "A Nossa Terra, O Nosso Altar", um filme de André Guiomar, rodado em dois períodos no Bairro do Aleixo, no Porto, para "dar voz" àquela comunidade.

Integrado na competição internacional, mas também na secção Cinema Falado, destinada a filmes falados em português, o trabalho de 77 minutos, que inaugura a produtora Olhar de Ulisses, retrata a forma como vários habitantes do bairro "assistem impotentes à lenta desfiguração do seu passado", disse o realizador à Lusa.

"Testemunha as últimas rotinas quotidianas dos habitantes do bairro do Aleixo, marcadas pela tensão de um destino forçado. Entre a queda da primeira e a da última terra, o processo de demolição do bairro arrastou-se durante anos", pode ler-se na sinopse.

O filme começou por sair do papel em 2013, quando André Guiomar trabalhava como assistente de produção noutro projeto, tendo "o privilégio de entrar no bairro".

Até então, aquela urbanização "estava riscada dos mapas dos turistas e tinha uma sombra em volta que levava automaticamente as pessoas a não querer aproximar-se ou cruzar as suas ruas".

"Eu também tinha esse estigma, cresci com ele e a ouvir falar dele. Consegui conhecer o bairro, as pessoas, a dinâmica. Percebi que havia uma urgência de memória, uma urgência histórica de como recordar o bairro, de como as pessoas que saem de lá recordavam os seus próprios tempos, e uma certa injustiça social", explica o realizador, em entrevista à Lusa.

Depois de montar "uma equipa de urgência" para filmar "uma comunidade única que ia desaparecer", que já vinha "de um sítio hostilizado que era a Ribeira" antes do estabelecimento do bairro, em 1974.

Sem financiamento e com material emprestado, e no ano em que já tinham sido demolidas a quinta e quarta torres, a equipa pensou "que tinha o documentário gravado".

"O processo entrou em latência, em suspensão, e as semanas [de espera pela conclusão] passaram a anos. De repente, tive uma proposta para ir para Moçambique, e aceitei, mas sempre com a ideia de que, se o processo andasse, se as cartas chegassem [aos moradores] e tivessem de sair, voltaria de Moçambique", revela André Guiomar.

Em 2019, voltou então "a um bairro completamente diferente, a quem tinham arrancado todas as estruturas de sobrevivência social daquela comunidade", como "a escola, os cabeleireiros, os 'ATL', o bar onde se encontravam".

"Sobrava o esqueleto, umas torres à espera de virem abaixo, e uma comunidade que ficou sem forças para lutar contra isso. Passado oito anos, estavam exaustos do processo, em completa suspensão. Foi o que encontrei", assegura.

A família principal que acompanhou no filme tinha perdido dois membros, "a irmã da Maria João e do Zé", seguido do filho de Maria João, um luto que "acabou por se misturar com a eterna saída incompleta do bairro", e que tentou que não tomasse conta de todo o projeto.

Ainda assim, geraram-se, na montagem, "capítulos que valem por eles próprios", até porque em 2013 André Guiomar acreditava ter rodado um filme que, em 2019, é "completamente diferente".

"Em 2013, as pessoas tinham imensa força em tentar recordar, fazer uma série de rituais, como os 'karaokes' e processos de reunião comunitária, com uma urgência de memória. Em 2019, essa força foi-se, é latente nas pessoas, que se entregaram a uma letargia, sabem que acaba por ser inevitável. Não sabem quando, e não têm poder nas mãos para decidir ou reclamar. Por isso, desistem e esperam, até que alguém lhes decida o destino", resume.

Estes rituais comunitários que a equipa de produção, que se manteve em contacto com o bairro na ausência do realizador, foi presenciando, permitiram "ganhar a confiança" de quem estava do outro lado das câmaras, mas também criar uma aproximação e relação que torna o processo criativo numa "criação comunitária".

"Isso era o objetivo principal, que lhes déssemos voz. Já que nunca tiveram voz na vida, pelo menos uma vez que pudessem expressar-se. Foi sempre o objetivo principal. (...) Mas também quis sempre que o filme fosse bastante observacional", explica.

Naquele que descreve como "talvez o filme mais político" da sua filmografia, o realizador diz que espera que "a política extraia da arte algum humanismo", para rever "a ideia de que se pode viver com estes preconceitos sem conhecer os locais e as condições, que é bastante simplista".

"Em 2013, quando comecei a filmar, achava que havia uma urgência em mostrar esse tipo de temas. Não imaginava que em 2020, se calhar, é mais atual do que nunca. Não é bom sinal", critica.

A estreia no Sheffield Doc/Fest, no Reino Unido, acabou por ser afetada pela pandemia de covid-19, antes de passar por Bilbau, onde foi premiado, e estrear no Porto do Aleixo, mesmo com "um grande desgosto".

A morte "do Zé da Bina, uma das três personagens principais", há três meses, o homem que "abria o bairro e protegia" a equipa, ensombra a apresentação.

"O Zé morre por ataque cardíaco, e num estado em que o encontrávamos nos últimos meses, de desgosto profundo. Já tinha saído do bairro. Não é possível provar, mas a verdade é que o Zé se deixou ir. Disse-me muitas vezes que não estava aqui a fazer nada, não tinha a sua rede social, precisava daquelas pessoas. Perdeu o sobrinho, que era como um filho", lamenta.

O filme retrata também um habitante cego do bairro, que agora está "praticamente fechado em casa, porque além de não conhecer o mapa da cidade, não tem comunidade à volta", além de outros que, afirma, morrem "de desgosto" ou estão a sofrer noutras zonas da cidade, "porque são estigmatizadas".

A nova produtora, Olhar de Ulisses, cujo nome é 'roubado' a um filme de Theodoros Angelopoulos, terá outros projetos com André Guiomar. Para começar, uma "curta de ficção que será lançada para o ano", e que surge precisamente deste trabalho no bairro.

"Conta com pessoas do Aleixo e é inspirada numa história que não cabia neste filme. Era tão grande e peculiar que não cabia", conta.

Uma longa-metragem documental é outro dos projetos em mãos - essa, "uma história completamente louca", sobre um moçambicano que foge da guerra civil naquele país, com os patrões chineses do pai.

"É colocado num templo 'shaolin' e aí torna-se mestre de kung fu. Quando volta a Moçambique depois dos estudos, percebe que o país tem problemas de corrupção na polícia, que não é treinada o suficiente", refere.

Assim, este protagonista torna-se treinador das forças especiais, e é o que faz naquele país africano, cuja guerra, no norte, e questões de trocas culturais com a China, são exploradas numa história que André Guiomar espera ter pronta "no final do próximo ano".

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