A crítica de Abílio dos Reis. A Sombra da Verdade, de Per Fly, com Theo James, Jacqueline Bisset e Ben Kingsley, estreia esta quinta-feira, dia 2 de agosto, nas salas portuguesas.


A Sombra da Verdade (Backstabbing for Beginners, no original) é um (tenta ser) thriller que aborda a corrupção e intriga em torno do programa “Petróleo por Comida”, implementado entre 1996 e 2003, e apadrinhado pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas. Esta iniciativa visava contornar as sanções económicas impostas ao regime iraquiano após a invasão do Kuwait, em 1990.

A história, que chega até nós pela mão do dinamarquês Per Fly (co-assina o argumento para além da realização), é baseada no livro de memórias do diplomata e jornalista Michael Soussan (disponível em Portugal com o título Diplomacia para Principiantes — Como aprendi tudo sobre facadas nas costas nos meandros do poder), que relata, na primeira pessoa, “o maior escândalo de corrupção da história da ONU”.

Ainda que o filme seja baseado em factos verídicos, alguns nomes foram alterados, pelo que uma das figuras fundamentais do caso na vida real é precisamente o ex-diretor do programa mencionado no parágrafo anterior, o cipriota Benon Sevan, mas que no filme é apenas Pacha (interpretado pelo oscarizado Ben Kingsley). Também a personagem principal sofre uma pequena alteração de identidade, embora apenas a nível de apelido: na adaptação manteve o nome próprio (Michael), mas virou Sullivan (era Soussan).

E é assim que chegamos até este Michael Sullivan, interpretado pelo britânico Theo James, também conhecido pelo papel que desempenhou na saga Divergente e por recentemente ter protagonizado How it Ends, onde tenta salvar a sua noiva antes que o mundo acabe, ao lado de Forest Whitaker, numa das últimas incursões pelas longas-metragens originais da Netflix.

Só que em A Sombra da Verdade James permanece algo inerte, com a destreza emocional de um cyborg. A personagem, um diplomata que se vê envolvido numa teia de corrupção e intriga, pedia mais do que uma cara laroca.

A melhor descrição da sua performance talvez seja do jornal canadiano The Globe and Mail, que fez uma lista de 8 coisas que o ator não consegue fazer de forma convincente: para James, parece que pegar numa caneta, sentar-se numa cadeira ou beber um copo de vinho, em modo acting, é complicado.

Nesta trama, Sullivan é escolhido para ocupar a vaga deixada em aberto para o lugar de assistente de Pacha, um Subsecretário Geral das Nações Unidas encarregue de liderar um ambicioso programa da ONU (“Petróleo por Comida”) e que tem por objetivo alimentar metade da população do Iraque.

A história acaba por nos revelar que Sullivan está a concretizar um sonho de tenra idade. E aos 24 anos, para além de ter muitas ambições, deseja genuinamente fazer a diferença. Contudo, em muito pouco tempo fica a perceber que naquele lugar os seus idealismos têm que ficar à porta.

“A primeira regra da diplomacia, miúdo, é que a verdade não é uma questão de factos. É uma questão de consenso", explica Pacha a Sullivan, naquele momento em que a história quer dar a atender que se está iniciar uma relação entre discípulo e mentor, no edifício das Nações Unidos, em Nova Iorque.

O enredo é um tanto ou quanto confuso, visto abre questões para as quais não parece dar resposta (ou se as dá, não as explica convenientemente). Ao mesmo tempo, explora uma linha narrativa sem explicar de onde aparecem as personagens ou porque é que estão em determinado local. E, sim, há narrador — mas não ajuda assim tanto a esconder as confusões de um argumento mal-amanhado.

Em larga medida, estamos perante um filme sobre o Iraque de Saddam, mas a ver muito pouco do Iraque ou mesmo de Saddam. Já para não falar do romance incogitável pelo meio. “Faço isto porque quero mudar o mundo”, foram as palavras de Sullivan a meio do primeiro encontro com o seu par romântico, uma tradutora no terreno, que trabalhava para o programa das Nações Unidas. 

Paralelamente, o diálogo é pouco convincente. Por exemplo, há um momento em que a personagem de Kingsley diz: “se fizeres alguma coisa que comprometa o miúdo, faço com que sejas deportada tão rapidamente que o teu hijab até anda à roda" — são linhas que nem um ator experiente e carismático como Kingsley o consegue salvar.

Mas, sejamos justos. Ainda assim, Ben Kingsley é o alento deste filme, mesmo que não torne linhas paupérrimas em eloquência shakespeariana. E fá-lo enquanto profana a palavra f*ck num sotaque cipriota hilariante  — não contabilizei exatamente quantas vez o diz, mas não demorou até que viesse à memória aquele momento na série The Wire (a cena em que Bunk e McNulty desvendam um homicídio, na primeira temporada) em que os protagonistas, durante 5 minutos, apenas dizem, f*ck para aqui, f*ck para acolá. 

Quem faz um papel agradável, a nível do elenco secundário, é a nemesis de Pacha na trama, Christina Dupre. Interpretada pela inglesa Jacqueline Bisset, Dupre é a personagem que se opõe ao status quo do corrupto programa liderado pelo Subsecretário das Nações Unidas. É que para Pacha o jogo é simples: é preferível ser corrupto, meter algum ao bolso e negar tudo, assumindo que esta é a forma de fazer as coisas funcionar naquele país. Ou seja, é assim que as pessoas conseguem, ainda que de forma limitada, acesso à comida e a medicação. Porque, como explica Pacha a Michael, a intenção não é “mentir. Nunca mentir. Mas, sim, escolher as nossas verdades, os nossos factos, com o máximo de cuidado”.

Em suma, a história é dura, real e marcou uma época que deixou cicatrizes profundas, e não pode servir apenas como pano de fundo num filme que se destaca pelo diálogo corriqueiro e mal interpretado.

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