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É tempo de ouvir

Existe uma biblioteca extensa de conteúdos que nos podem ajudar a perceber melhor este momento nos EUA — filmes, séries, documentários, álbuns de música. Esta semana, optei por prestar atenção a três coisas que, quer pela sua atualidade quer pela forma diferente como abordam o tema da discriminação racial, permitem que alguém que tenha acordado, de repente no século XXI, possa ficar com uma noção sobre aquilo que se passa e que se passou do outro lado do Atlântico e o porquê de haver tantas pessoas a pensar que é hora de mudança e de fazer as coisas de maneira diferente.

“13º Emenda” (Netflix)

A 13º Emenda foi a lei que, após o fim da Guerra Civil Americana, em meados do século XIX, aboliu a escravatura e declarou que todos os americanos, independentemente da sua raça, tinham os mesmos direitos e que deveriam ser tratados de maneira igualitária por parte da sociedade a que pertenciam. Foi um momento marcante da História Americana e Mundial, contudo, esta lei continha uma cláusula que iria ser usada para que a discriminação persistisse em formatos diferentes. A cláusula dizia que os direitos presentes na “Emenda” não seriam dados ou seriam retirados a pessoas que tivessem sido punidas com um crime. Por isso, deixariam de ser merecedoras de viver com mesmo estatuto do que outras em sociedade.

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O documentário, produzido por Ava DuVernay (“Selma”, “When They See Us”) e lançado em 2016 (disponível gratuitamente no canal de YouTube da Netflix), acompanha a forma como este “pequeno senão” foi usado durante o século XX para que a comunidade afro-americana continuasse a ser vítima de um “racismo sistémico” por parte de políticos e perante a Justiça. Foi assim que afro-americanos começaram a ser criminalizados pelo mais pequeno delito. Como não tinham dinheiro para pagar multas, eram obrigados a “trabalho forçado” para saldar a sua dívida com a sociedade. Foi assim que a legislação que instaurou a segregação foi aprovada, para separar as comunidades “tendencialmente criminosas” da restante sociedade. Foi assim que os afro-americanos foram responsabilizados criminalmente pelo aumento do consumo de drogas que se deu nos Anos 70 e 80 e que levou a um aumento exponencial do número de presos nos EUA.

Mas nem tudo é sobre discriminação. Parte do problema do sistema também são as empresas e organizações envolvidas na chamada indústria prisional, uma das mais lucrativas, que têm interesse em que o sistema se mantenha para que isso não afete os seus lucros.

“True Justice: Bryan Stevenson’s Fight for Equality” (HBO Portugal)

Bryan Stevenson é um advogado afro-americano (e um dos entrevistados na “13º Emenda”) que se especializou em casos onde afro-americanos foram condenados injustamente pela Justiça, nomeadamente, em estados maioritariamente “brancos” como o Alabama.

Ao acompanhar a vida de Bryan, o documentário lançado em 2019, aborda a discriminação racial na maneira como instrumentos judiciais, como a pena de morte, são aplicados de maneira desigual, dependendo da cor da pele. Os principais casos de sucesso do advogado são processos em que afro-americanos tinham sido injustamente condenados à morte por crimes que não tinham cometido e que, mesmo ilibados posteriormente, não se livraram de ver a sua vida arruinada por décadas na prisão. No entanto, houve muitos que não conseguiu salvar desse destino.

Em paralelo, “True Justice”, à semelhança da “13º Emenda”, também faz um enquadramento do histórico racial dos EUA, mostrando a forma como, apesar de a comunidade afro-americana ter tido uma sucessão de vitórias legais, com a abolição da escravatura e com o movimento de direitos civis liderado por Martin Luther King nos Anos 60, ainda existem fatores sociais, políticos e económicos que levam a que continue a ser tratada de forma injusta. Esta “parcialidade” levou ao estado em que se encontra o sistema prisional americano, onde o número de presos passou de 700.000 para 2.3 milhões, nos últimos 40 anos, ao mesmo tempo que o número de crimes decresceu.

"Wyatt Cenac’s Problem Areas" (HBO Portugal)

Num registo mais descontraído (mas não menos sério), “Problem Areas” é uma espécie de talk-show satírico misturado com documentário, que é apresentado pelo Wyatt Cenac — um dos jornalistas do “The Daily Show” —  e produzido pelo John Oliver (“Last Week Tonight”).

Na primeira temporada, lançada em 2018, o principal tema abordado na série de 10 episódios foi a atividade policial e o que diferentes departamentos de polícia, espalhados pelos EUA, estão a fazer para combater o preconceito que se tornou quase inerente à sua profissão. Cenac, também ele afro-americano, desloca-se a cada um deles para discutir as iniciativas que estão a ser desenvolvidas - entre formações, grupos de discussão, modelos mais justos de recrutamento - e depois pede a um conjuntos de entrevistados (políticos, ex-agentes, ativistas) para comentarem sobre as medidas.

É um programa que, não esquecendo os problemas raciais históricos que existem, está mais preocupado em encontrar soluções e perceber como as diferentes comunidades e instituições podem trabalhar em conjunto para combater a discriminação.

Coisas que também li e ouvi esta semana:

  • O texto de Barack Obama no Medium: o ex-presidente deixou a sua visão sobre este período, com uma racionalidade e clarividência que se esperava da pessoa que ocupa o lugar.
  • Se tens sugestão de outros conteúdos que devia ver, ler e ouvir sobre este tema partilha comigo aqui.

Voltando mais ou menos à ficção e aos sabichões de sofá

Esta semana, estreou a série “Quiz”, na HBO Portugal, que conta a história da origem do “Quem Quer Ser Milionário” e do primeiro escândalo que colocou em causa a credibilidade do programa que passou a fazer parte do serão noturno de milhões de lares ingleses.

Nos anos 90, a estação inglesa ITV estava a passar por algumas dificuldades, com a competição da BBC e da Sky, que estavam a ter melhores ratings e mais pessoas a ver os seus programas. A solução de acordo com um novo diretor da ITV passava por mais reality TV e algo que aproximasse mais as pessoas. A que lhe deram foi um programa que iria aproveitar uma tradição da cultura inglesa - as noites de quiz que aconteciam nos pubs — e transformá-la em algo que deixasse as pessoas pregadas à televisão. Para ganharem o prémio final de 1 milhão de euros, os participantes teriam de responder corretamente a doze perguntas, sendo que podiam ficar com o prémio que tinham acumulado até certa pergunta, se não quisessem correr o risco de perder.

“Quem Quer Ser Milionário” tornou-se num sucesso imediato, chegando a registar uma média de 20 milhões de espectadores diários no Reino Unido. Mas algo não estava certo. Os produtores do programa começaram a notar que o tipo de pessoas que participava era sempre o mesmo (classe média, com uma cultura geral aceitável) e que algumas pessoas já tinham sido escolhidas mais do que uma vez para irem ao estúdio. Como se virá a descobrir, fazia tudo parte de uma conspiração que manipulava tudo desde as inscrições por telefone e a lista de potenciais perguntas até à ajuda da chamada para alguém em casa.

  • Seria um nome menos “catchy”: antes de se chamar “Quem Quer Ser Milionário”, o programa teve o nome de “Cash Mountain” (“Montanha do Dinheiro”). Não teria corrido tão bem.
  • Onde ver: na HBO Portugal, onde vamos ter direito a um episódio por semana.

Créditos Finais

  • “É Desta Que Leio Isto”: O clube de leitura já começou a preparar os novos encontros do mês de junho. Os livros que devem estar na tua cabeceira? “Ensaio sobre a Cegueira”, de José Saramago, e “O Retorno”, de Dulce Maria Cardoso. Descobre as datas e todos os detalhes aqui.
  • Reunited Apart: é o programa do ator Josh Gad, que se especializou em fazer reuniões dos elencos dos nossos filmes favoritos. Vê aqui a reunião da Irmandade do Anel de “Senhor dos Anéis”.
  • Como perceber o que se passa na América? O Francisco Sena Santos deixa uma lista de podcasts que te podem ajudar.
  • Estreia hoje na Netflix o filme “Last Days Of American Crime”, que promete ser um sucesso no fim-de-semana. Aqui está o trailer.
  • Este sábado, estreia a série “Trackers” na HBO Portugal, sobre uma conspiração na África do Sul. Vê o trailer aqui.

Tens recomendações de coisas que eu podia gostar? Ou uma review de um dos conteúdos que falei? Envia para miguel.magalhaes@madremedia.pt

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