A paridade é um dos desafios do MaMA Festival & Convention, que decorreu na semana passada em Paris. A convenção, que também é um festival e teve Portugal em destaque, está comprometida em alcançar o equilíbrio de género 50/50 na sua programação até 2022. E a questão também não ficou de fora dos painéis, com abordagens ao tema como "Mulheres na música - Mais fortes juntas, redes e iniciativas" ou "Mulheres no setor musical: o que vem a seguir? Panorama atual, recursos e ferramentas".

Falávamos sobre a necessidade de uma estratégia europeia de promoção da música dos países-membros quando o tema veio à conversa: mulheres nos festivais. Com a formalidade que lhe conhecemos, Álvaro Covões, o homem-forte da Everything is New e do NOS Alive, assegurou: "vou ser polémico, mais uma vez".

"Acho isso um disparate, a música não tem género; música ao vivo não tem género. Não gostamos de um projeto porque é uma mulher ou um homem a cantar, a voz pode ser mais efeminizada ou mais masculina, mas não tem género. O que interessa é a música, é a obra".

E porque a questão surgiu depois de referir que a edição deste ano do NOS Alive teve muitas mulheres, algo que disse ter sido uma "coincidência" lançou a questão: "falamos de paridade se tivermos muitas lead singers?". "Se formos rigorosos temos de ir ver se a banda, os técnicos e os motoristas também são mulheres. A equipa é muito grande" respondeu.

Também é uma "coincidência" dois dos cabeças-de-cartaz da edição de 2020 serem mulheres: Taylor Swift e Billie Eilish. Porque, diz, "para o conceito de programação do NOS Alive, implementar quotas é um erro". Álvaro Covões diz que significa não ter "o que as pessoas querem ver nem a melhor música que se está a fazer". "É a Florence And The Machine? Óptimo. É a Grace Jones? Óptimo. É o Thom Yorke? Óptimo. Who cares?", remata.

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"Muitas vezes a questão da paridade é uma questão de marketing e a programação de um festival não deve seguir as tendências de marketing", defende depois de fazer referência ao facto do tema ser recorrente. 

"Quando falamos de paridade, estamos a falar de oportunidades. E eu acho que no mundo da música não existe uma falta de oportunidade para as mulheres. Porque esse problema coloca-se noutras áreas. Até se costuma dizer que a mulher pode engravidar e ausenta-se oito meses a um ano. Mas isso não se coloca na música. Ninguém deixa de investir num projeto feminino porque a mulher pode engravidar".

Álvaro Covões também não olha com bons olhos para metas que visem um equilíbrio 50/50 como o que o MaMA se propõe até até 2022 na programação artística e das conferências. "Este ano Portugal tem uma posição privilegiada no MaMA. [Os artistas convidados] podiam ser todos homens ou podiam ser todas mulheres. A escolha deve refletir no que é mais recente, no que é mais relevante ou o que é última tendência. Isso não se pode escolher". O que é que significaria a paridade, questiona. "Que um dia teremos um programa mais fraco ou repetir artistas", lamenta.

(A jornalista esteve no MaMA Festival & Convention, em Paris, a convite da JUMP – European Music Market Accelerator.)

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