Com apenas 30 anos, foi vitimado pela gripe pneumónica, quando a sua obra estava em ascensão internacional, tendo conseguido expor em Paris, Londres, Viena, Hamburgo e também em Nova Iorque, em 1913.

A forte personalidade de Souza Cardoso levou-o a deixar Manhufe, terra natal, no concelho de Amarante, com apenas 19 anos, com destino a Paris, onde viria a abandonar definitivamente os desígnios da família, que queria que ele estudasse arquitetura, e a optar pelas artes plásticas.

Ali conviveu e fez amizades com artistas que marcariam a História da Arte, como Modigliani, o casal Robert e Sonia Delaunay, Marc Chagall ou Constantin Brancusi, ali recebeu várias influências das vanguardas criativas, mas foi sempre cioso a traçar o seu próprio caminho. "A minha maneira de sentir e de compreender não tem nada a ver com a dos futuristas ou dos cubistas", escreveu, em 1913, em Paris, numa carta dirigida ao tio Francisco, acrescentando que "cada artista tem em si algo de singular que não existe em nenhum outro". Noutra missiva ao tio, explicava o que a arte representava para ele: "A arte, tal como eu a sinto, é o produto emocional da natureza, fonte de vida, de sensibilidade, de cor, de profundidade, de ação mental e poder emotivo".

Em muitas obras de Amadeo, essa força da natureza está patente nas formas e nas cores, como em "Le Saut du lapin" (1911), proveniente do Art Institute of Chicago, que faz parte da coleção Arthur Jerome Eddy Memorial, agora incluída na exposição em Paris, com 250 obras do artista, no Grand Palais.

Amadeo definia a sua prática artística como livremente experimental e diversificada: "Uso o óleo, o guache, a cera. Também uso vários materiais na mesma tela, da mesma forma como me é impossível trabalhar numa única tela", declarou, numa entrevista ao Jornal de Coimbra, em 1916.

Na correspondência à família é possível descobrir não apenas as ideias de Amadeo sobre arte, mas também um retrato da própria personalidade: "Tenho um espírito complicado, sujeito a crises, o meu estado moral e intelectual atravessa sem cessar violentas manifestações de todo o tipo, tenho mais fases do que a lua". "É o meu sangue árabe que se agita dentro de mim, um sangue visionário que ferve continuamente, supersticioso, profundamente trágico", escreveu, em 1910, numa carta dirigida à mulher, Lucie.

O espírito inquieto de Amadeo atravessa uma obra que, quando entrou no auge da divulgação internacional, em 1913, foi interrompida pela primeira Guerra Mundial, obrigando o artista a permanecer em Portugal com a mulher. Durante os anos do conflito, porém, continuou a trabalhar no ateliê da casa da família, abastada e conservadora, ocupando o tempo com a caça e os passeios a cavalo, pelas montanhas da região. Enquanto esperava o regresso à capital francesa, expôs pela primeira vez em Portugal, em 1916, no Porto e em Lisboa, onde se relacionou com os futuristas portugueses, entre os quais o artista plástico Almada Negreiros.

Os planos para o futuro foram interrompidos pela gripe espanhola, que vitimou milhões de pessoas na Europa, e à qual Amadeo não conseguiu fugir, como à guerra.

Passado mais de um século, a obra singular do artista português regressa a Paris, ao Grand Palais, numa exposição organizada pela Réunion des Musées Nationaux et du Grand Palais des Champs-Élysées, com apoio da Fundação Calouste Gulbenkian, no âmbito dos 50 anos da presença desta instituição, na capital francesa. Leia no site da Gulbenkian a apresentação do projecto e a entrevista com a curadora Helena de Freitas.

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