Cameraman Metálico, nome próprio António Francisco Melão, passou por várias publicações, entre elas o Diário Popular e a Capital. Mas é junto a um palco que muitos se recordam dele.

Encontrámo-lo no Fórum Municipal Romeu Correia, em Almada, onde expõe, a convite do festival de cinema e música MUVI, um conjunto de imagens que acompanham parte dos quarenta anos de carreira dos Xutos e Pontapés. Não tinha consigo o colete com patches de bandas pelo qual muitos o imaginam — diz que só o leva para concertos —, mas o heavy metal estava representado numa t-shirt dos norte-americanos Manowar.

"Sou um bocado surdo", diz-nos assim que a conversa começa. "Muitos anos de música alta. Muito alta, às vezes. Na altura em que comecei a fotografar ninguém usava tampões", recorda.

O "bichinho" da fotografia despertou-lhe o interesse por volta dos dezoito anos. Sem formação, diz que sempre foi autodidata. "Comprava muitos livros, via muitas fotografias. Com filme aprendia-se diferente do que agora com o digital. Comecei a trabalhar com diapositivos e com [o formato] 6x6", lembra. "Era tudo diferente".

À paixão pela fotografia somou-se a pela música e por um estilo em concreto: o heavy metal. O cognome de Cameraman Metálico também vem daí. Daí e de um problema em tribunal ("coisas familiares") . "Quando acabou o problema, já era mais conhecido por Cameraman Metálico que pelo meu verdadeiro nome", recorda o fotógrafo de 63 anos. "Há pessoas que dizem que o heavy metal me deve um pouco, porque o ajudei a divulgar. Mas acho que há muitas pessoas que o fizeram mais do que eu, como o António Freitas e o António Sérgio na rádio".

A fotografia ocupou-o nas últimas décadas, quer a part-time, no período em que trabalhava numa fábrica de explosivos no Seixal, quer enquanto fotojornalista.

Conta que foi dos primeiros a ir aos grandes festivais na Europa, no tempo em que o formato ainda não se tinha estabelecido por cá; que "calhou" fotografar Nirvana em Cascais e recorda, com carinho, os doze ou treze concertos de Motörhead, em Portugal e pela Europa. Fotografou os Metallica com a Orquestra Sinfónica de Berlim, na capital alemã, foi o fotógrafo oficial de vários festivais, como o Vilar de Mouros e o Super Bock Super Rock (pela Unicer). Acompanhou os Scorpions numa tour ibérica, cujas fotos a banda nunca utilizou, a não ser os retratos que lhes fez para o visto necessário para uma série de datas na Rússia. Acompanhou, também, várias bandas nacionais entre as quais os Tarântula. E passou a lua-de-mel num Sudoeste por causa de trabalho: "isso até foi notícia, mas para mim e para a minha companheira foi algo completamente normal".

Cameraman Metálico não consegue escolher a melhor foto que tirou nem tem ideia de quantas bandas fotografou. "Prefiro dizer quais não fotografei, que foram poucas". Dessas enumera os Rush, os Black Sabbath ou o Jimi Hendrix. "Dentro do pit [fosso entre o público e o palco] sinto-me um elemento do público que tem alguns privilégios. As pessoas também me veem a mim como sendo um deles. Sempre que entro no pit há malta que chama por mim", conta.

Da relação com os outros fotógrafos conta que a única coisa que causava alguns "atritos" era a sua "técnica". Ou, dito de outra forma, o gosto pela utilização do flash. Sempre fiel à(s) sua(s) Olympus, diz que o "flash é uma conversa que dá pano para mangas". "O flash é uma ferramenta de trabalho, usando o flash podes baixar o ISO. Não é deixar tudo branco, é para ganhar alguma luz de palco". E partilha uma história, que remonta ao extinto festival da Ilha do Ermal, em 2010.

"Nesse ano veio cá uma banda canadiana, os Nickelback. Não sei como foi feito o alinhamento, mas meteram-nos antes dos Slipknot. Resultado: estávamos no pit a fotografar, meti o flash, fiz duas imagens, nisto começam a chover pedras. Sou o único que tenho uma foto boa, onde se vê o gajo [Chad Kroeger] a sorrir para o público. Se não tivesse usado, não tinha foto [o concerto acabou pouco depois]".

Nunca abandonou a fotografia na totalidade. Uma doença e a falta de trabalho obrigaram a algumas pausas mais ou menos prolongadas. "Foi notícia várias vezes: 'O Cameraman Metálico diz adeus à carreira". Mas nunca parei a cem por cento".

A par das fotografias dos Xutos e Pontapés, de quem diz ter uma relação de amizade, "quase de irmãos com o Zé Pedro e o com Kalú", António Francisco Melão diz que terá mais três ou quatro exposições ao longo do ano, uma delas de Moonspell. "Tinha vontade de fazer uma exposição com fotos só de uma banda. Tenho imagens deles desde o início, algumas que eles até não gostam que se divulguem", conta.

"E se a música pudesse ser vista?" é o mote do MUVI – Festival Internacional de Música no Cinema, que este ano atravessa o Tejo e, à quinta edição, mudou-se para Almada. A exposição sobre os Xutos e Pontapés está patente até o dia 3 de março, no Fórum Municipal Romeu Correia. A programação termina no mesmo dia.

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