Este ano assinalam-se dois centenários – o do primeiro concerto internacional de jazz em Portugal e do nascimento do divulgador Luís Villas-Boas -, que a Égide — Associação Portuguesa das Artes e o Hot Clube de Portugal decidiram celebrar com uma programação que inclui, além do espetáculo “Tudo isto é Jazz!”, uma mesa-redonda, um concerto, a apresentação de um livro e a estreia de um documentário.

No espetáculo serão contadas a história de Luís Villas-Boas, a história do Jazz e a história do Jazz em Portugal.

“São três narrativas que convergem para o mesmo espetáculo, e vamos contá-la através da música, com a Orquestra do Hot Clube de Portugal e uma série de solistas convidados, num total de 31 músicos em palco”, contou à Lusa o autor de “Tudo isto é Jazz!”, o divulgador e investigador João Moreira dos Santos.

Em palco, o ator João Lagarto será Luís Villas-Boas, que ao longo do espetáculo vai partilhando histórias sobre como progrediu no jazz, como é que se apaixonou por aquele género musical ou como lidou com as chamadas ‘jazzofobias’ — “toda uma reação crítica ao jazz, eivada às vezes de uma profunda ignorância, de um profundo desprezo pelo jazz e de um extremado, por vezes, racismo”.

João Moreira dos Santos recordou que Luís Villas-Boas, que chegou a ser “chamado batuque, maluquinho do jazz, introdutor da música preto-batuque”, “bateu-se toda a vida por afirmar o jazz, institucionalizar o jazz, por mostrar que o jazz é uma música séria, válida”.

O divulgador acredita que quem for assistir ao espetáculo, que tem lotação esgotada, sairá “bem-disposto, porque é uma música contagiante”, e “com uma melhor compreensão do que foi a história do jazz em Portugal e como é que esta geração do Villas-Boas conseguiu impor o jazz contra tudo e contra todos”.

O repertório do espetáculo vai dos “grandes clássicos”, de Benny Goodman, Duke Ellington, Count Basie ou Ella Fitzgerald, à atualidade, e incluirá também temas de músicos portugueses.

A música fica a cargo da Orquestra do Hot Clube, dirigida por Pedro Moreira, e de um grupo de solistas: Rita Maria, Sofia Hoffmann e Maria João (voz), Ricardo Toscano (saxofone-alto), António José de Barros Veloso (piano), Gonçalo Sousa (harmónica), Rão Kyao (flauta), Zé Eduardo (contrabaixo) e Laurent Filipe (trompete).

Para os músicos envolvidos no projeto “está a ser uma novidade terem de seguir direções de um encenador e haver um ator em palco”, mas “o Jazz vem daqui”.

“Nos primeiros concertos de jazz em Portugal, os músicos vinham integrados em companhias de teatro. Não faziam parte do espetáculo, mas faziam parte das companhias de teatro, isto até aos anos 1930. Era uma atração extra, tocavam umas vezes no ‘foyer’, outras na sala principal, e depois vinha o teatro, que era o grande chamariz”.

“Depois foi-se autonomizando como música de concertos”, recordou João Moreira dos Santos.

O espetáculo é apresentado no Pequeno Auditório do Centro Cultural de Belém, e o seu autor gostava de levá-lo depois “pelo menos ao Porto e a Guimarães, onde há um festival de Jazz muito importante, o Guimarães Jazz”.

“Estamos a fazer contactos nesse sentido, mas não é fácil, porque é um espetáculo caro, que envolve muitos músicos. Eventualmente mais um ou outro sítio, mas não sei se vamos conseguir”, disse.

A estreia de “Tudo isto é Jazz!” está marcada para as 21:30, mas as celebrações dos dois centenários começam mais cedo, com uma série de atividades de entrada gratuita.

Numa mesa-redonda, o músico e presidente do Hot Clube de Portugal, Pedro Moreira, o músico Barros Veloso, um dos primeiros em Portugal a filiar-se na linguagem do jazz moderno, e João Moreira dos Santos vão fazer um balanço de cem anos de Jazz em Portugal e olhar para o presente e o futuro daquele género musical, “um grande camaleão que foi sempre absorvendo múltiplas influências”.

Depois, um sexteto irá recriar ao vivo um concerto que aconteceu em 1927 no Teatro da Trindade, em Lisboa, do primeiro grupo de jazz norte-americano a atuar em Portugal, os Robinson’s Syncopators.

“É um grupo que tocou durante vários anos no Cotton Club [em Nova Iorque], e quando sai é substituído pela orquestra do Duke Ellington, um dos grandes nomes do jazz. Depois do Teatro da Trindade, fizeram o ‘reveillon’ do Grande Casino Internacional do Monte Estoril. Vamos pela primeira vez dar a ouvir ao público português como é que soava essa orquestra, que causou alguma sensação em 1927, porque houve reações negativas: ‘o que é isto de vir aqui às nossas salas de teatro e de espetáculos tradicionais uma banda de afro-americanos?'”, recordou João Moreira dos Santos.

Na mesma ocasião, será estreado o documentário “Luís Villas-Boas: a última viagem”, do músico Laurent Filipe, “que acompanhou o divulgador na sua última viagem a Nova Iorque [em 1994], cinco anos antes de este morrer, e com base nisso construiu o filme”.

Antes do espetáculo, será ainda apresentado o livro “Villas-Boas, o pai do Jazz em Portugal”, de João Moreira dos Santos, e uma exposição do artista plástico Xico Fran, desafiado a pintar 12 telas sobre a história do Jazz em Portugal.

“Uma das telas é dedicada ao Villas-Boas, outra ao grupo primeiro grupo estrangeiro que atuou em Portugal [em 1924, no Teatro da Trindade], a Pan-American Ragtime Band, e outras aos músicos mais conhecidos que tocaram em Portugal, trazidos pelo Villas-Boas”, contou João Moreira dos Santos.

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