Para comemorar o dia internacional da cerveja, que se celebra hoje, dia 5 de agosto, o SAPO24 falou com os responsáveis pelo primeiro bar de cerveja artesanal, em Lisboa. À conversa juntaram-se apreciadores e um produtor. São histórias com um denominador comum: o gosto pela cerveja artesanal.

É a Rui Matias e a Carolina Cardoso que têm de agradecer pelo nascimento da Cerveteca. Aberta há dois anos, no número 62 da Praça das Flores, foi o primeiro bar de cerveja artesanal em Lisboa.

Rui era gestor de projetos em ONG’s e Carolina fisioterapeuta. Até aqui nada os ligava ao mercado cervejeiro; apenas a paixão e o gosto pela cerveja artesanal. “A Cerveteca vem de um contacto que tivemos anteriormente, em Barcelona, com a cerveja artesanal. Gostámos, achámos piada e, quando finalmente voltámos para Portugal [viveram em vários sítios], sentimos a falta de locais dedicados à cerveja artesanal”, diz-nos Carolina. Acharam então que a ideia de abrir um espaço de venda de cerveja artesanal, nacional e importada, era um projeto que tinha pernas para andar, e que havia um público que podia ser criado e podia crescer se houvesse essa oferta.

Quando abriram, houve quem os considerasse malucos. Na altura não havia nenhum espaço de venda ao público de cerveja artesanal, mas “neste momento há sítios excelentes em Lisboa, no Porto, em Aveiro, em Coimbra”. O descrédito inicial “foi fixe”, diz Rui. A única coisa que lhe passou pela cabeça foi “tenho aqui 30 mil euros de cerveja que, se isto correr mal, vou ter de beber”.

Mas não correu. “Houve dois tipos de reação”, explica Carolina. “A dos curiosos, que não estavam muito familiarizados com a cerveja artesanal e que vieram por curiosidade” e, por outro lado, “houve uma aceitação enorme e um incentivo muito grande para continuar, e para as coisas correrem de determinada maneira, por parte de um nicho, na altura, de consumidores de cerveja artesanal em Portugal, que tinham muita dificuldade em encontrar o produto cá”.

Para os donos da Cerveteca, o público do bar é cada vez mais diferenciado. Há já um público frequente e informado, que já consumia cerveja artesanal antes da Cerveteca abrir, e que encontrou neste espaço um refúgio. Mas há também uma parte do público que consiste em pessoas que vão à Cerveteca, sozinhas ou com amigos, porque ouviram falar no espaço e têm curiosidade em experimentá-lo. Mas é a cerveja artesanal uma moda? Na visão de Rui, não. “Nós queremos acreditar que não. Por mais que haja um hype agora à volta da cerveja, por ser uma coisa nova, por ser uma coisa que não tinha ainda muita expressão no nosso país, e isso pode levar a que se veja como uma moda, nós achamos que não”.

Além das garrafas que têm para venda – para os donos é difícil atirar um número, mas em termos de nacionalidades andará à volta das dez/doze cervejas e a rotatividade de estilos e marcas é grande -, têm doze torneiras de cerveja que vão alternando, podendo os nomes ser consultados num quadro negro junto ao balcão. Quando uma pessoa entra pela primeira vez, ou não está muito familiarizada com os estilos, o que Rui e Carolina fazem é perguntar à pessoa de que tipo de cerveja é que gosta. “Há pessoas que gostam de sabores mais doces, mais ácidos, mais amargos... Há quem nos diga imediatamente que não gosta de cerveja preta”, conta Carolina. Rui acrescenta: “Vamos um bocadinho pela aproximação dos sabores, mas damos sempre oportunidade às pessoas de provar várias coisas antes de escolher”. O feedback costuma ser bom. A cerveja artesanal tem esta facilidade; para Rui, “é quase impossível uma pessoa não encontrar pelo menos uma cerveja de que goste. Já tiveram, inclusive, pessoas a entrar no bar e a dizer que não gostavam de cerveja, e que agora são clientes habituais e regulares.

Para abrir a Cerveteca gastaram cerca de 30 mil euros em cerveja.  A título de exemplo, conta Rui, tiveram de comprar uma palete da cerveja Brewdog - em números, 1700 cervejas -, uma vez que não havia distribuição desta cerveja escocesa em Portugal. “Nós tivemos a sorte de conseguir logo, desde o início, trazer algumas cervejas muito boas, de que gostávamos muito e que achávamos que era importante que houvesse em Portugal”, explica Rui. Hoje, se alguém quiser abrir um bar de cerveja artesanal, pode comprar-lhes esta, entre outras, cervejas artesanais.

O critério da importação parte do que gostam e do que acham que tem qualidade. Viajam muito, e gastam parte do tempo pessoal e profissional a conhecer cervejeiros, a ir às fábricas, a ir a festivais, a falar com as pessoas e a conhecer realmente as cervejas que querem trazer para a Cerveteca. É, por isso, muito raro importar uma cerveja que não conheçam. Não é só uma paixão, fazem disso também um trabalho de investigação.

A cerveja já os levou a muitos sítios; profissionalmente, aos E.U.A., à Suécia ou à Dinamarca. No entanto, um dos episódios mais caricatos aconteceu durante a lua-de-mel de Rui e Carolina, na Tailândia. O destino não era este, mas durante uma escala em Banguecoque não desistiram, sem recurso ao GPS, enquanto não conseguiram encontrar um bar de referência de cerveja artesanal dinamarquesa. Mas mais gratificante, confessam, é quando encontram, noutros países, pessoas que dizem já ter estado na Cerveteca e que metem conversa dizendo “eu já estive no teu bar”. Daí criam-se amizades, e Rui dá outro exemplo disso: “conheço dois tipos, um da Malásia e outro do Funchal, que se fizeram amigos aqui neste bar e que ainda hoje trocam e-mails sobre cerveja”. “Há também toda uma camaradagem entre consumidores e produtores”, remata Carolina, completando Rui: “Os festivais são uma prova disso”. A nível nacional existem vários de norte a sul do país: o Provart, na Sertã; o Artbeerfest, em Caminha; o AZBeer, na Azambuja; ou o Pátio da Cerveja, em Lisboa, “onde os cervejeiros adoram ir”, toda a gente se conhece e “partilham experiências”. A partilha é tal que as colaborações entre cervejeiros são algo normal e recorrente. “Na cerveja artesanal, o mais comum é haver cervejeiros que se juntam uma tarde para fazer cerveja, e lançam [depois] o fruto dessa colaboração”, como é o caso das colaborações da Passarola com a Oitava Colina, ambas cervejas artesanais nacionais.

Para Rui, a produção artesanal de cerveja é “um bocadinho do it yourself” [faça você mesmo] e ao mesmo tempo “um bocadinho proto-punk”. “Eu não quero beber a cerveja que me impõem, quero beber a cerveja que eu faço e a cerveja que os meus amigos fazem”, acrescenta. Para os donos da Cerveteca, o mercado da cerveja artesanal nacional cresceu muito nos últimos dois anos, o tempo em que estão abertos ao público. “Quando abrimos a Cerveteca, havia dez marcas de cerveja artesanal portuguesa. Bem contadas, hoje há mais de oitenta”.

Para o futuro, não querem que a Cerveteca se torne “numa coisa demasiado impessoal”. Querem evoluir, querem ter mais cervejas, ter outras marcas, ter cervejeiros de outros países nos eventos que organizam, “para que as pessoas os conheçam, e para dar a conhecer a cultura cervejeira nacional”. Acima de tudo, gostavam de entrar na Cerveteca e sentir aquilo que sentem agora, “quase uma casa de família”, onde as pessoas que a frequentam se sintam bem, se sintam à vontade e continuem a dar o mesmo feedback. Querem que quem os visita “se possa sentar com amigos e fazer amigos” ou que “falem com o tipo do lado e que juntem as mesas”. Querem que falem sobre cerveja e “falem sobre outras coisas, porque há mais coisas na vida para além de cerveja”. Rui ri-se e conclui: “não muitas, mas há”.

De não consumidor de álcool, a produtor de cerveja artesanal

Rui Bento é polícia municipal de profissão e produtor de cerveja artesanal – a Amnesia Brewery – por paixão. Rui não bebia bebidas alcoólicas, mas tudo mudou em abril de 2014 quando bebeu a sua primeira cerveja artesanal, uma Vadia Trigo, uma cerveja artesanal portuguesa. No mesmo ano foi ao festival Provarte, na Sertã, onde provou mais cervejas e participou num workshop de cerveja artesanal. A partir daí tudo mudou; começou a fazer cerveja em casa e em abril do ano seguinte participou, e venceu, o III Concurso Nacional de Cervejas Caseiras e Artesanais, que se realizou na Cerveteca. Hoje Rui é consumidor, parceiro e um amigo da casa, e sempre que pode faz uma visita ao bar de Lisboa.

Produzir cerveja é para Rui uma forma de expressão: “A minha cerveja sou eu, faço-a com o coração”.  Todo o seu tempo extra vai praticamente para a cerveja artesanal. Se não for para a fazer é para a estudar; como nos explica, o seu tempo divide-se entre o jiu jitsu, que também pratica, o trabalho, a sua família e a cerveja. O sonho é poder dedicar-se a esta última a tempo inteiro.

Sobre o mercado das cervejas artesanais, Rui é claro: “Não tem que estar em concorrência [com o das cervejas industriais], mas em consonância, porque há espaço para todas”. Haverá sempre espaço e ocasiões para beber qualquer uma, mas “obviamente, se calhar [essas cervejas] não me vão dar tanto prazer porque não têm tanto sabor, e nós sabemos que as cervejas artesanais primam por ter muito mais sabor e muito mais aroma que as cervejas industriais, até pela temperatura a que são bebidas. [Mas] Se estiver a ver um jogo de futebol no estádio não quero beber uma Imperial Stout...”, brinca.

Na opinião de Rui, a cerveja é a bebida mais liberal que existe, uma vez que toda a gente a bebe; desde o rico ao pobre, desde a classe alta à classe média. “Não tem que haver um dia necessário, um dia mundial da cerveja, para nós... É como o Natal, quando um homem quiser”, diz-nos.

“O pub do bairro”

“O meu primeiro contacto com a Cerveteca foi no dia da inauguração. Recebi uma mensagem de ódio de um amigo meu a dizer: “Então tens um bar de cerveja artesanal ao lado da tua casa e não me dizias nada?”, conta Filipa Vale, que já era consumidora habitual de cerveja artesanal, mas não tinha facilidade em adquirir. Filipa já considera a Cerveteca o pub do bairro, assumindo-se como uma “dos regulares”.

A sua primeira experiência com cerveja artesanal terá sido há cinco anos, fora de Portugal (algures entre Londres e Bruxelas). A primeira reação? “Isto é fixe, não tem nada a ver com as cervejas que conhecia”, diz-nos.

Filipa assume que já não retira o mesmo prazer quando bebe uma cerveja industrial: “Quando vou a concertos e festivais, normalmente já só peço uma cidra”. No entanto, há tradições que considera que devem ser mantidas e, por isso, “uma bela caracolada cai bem com uma Imperial”.

Conta que uma vez levou uma caixa de 24 cervejas da Dois Corvos, para casa dos pais, que estavam apenas habituados a cerveja industrial. “Quando fui lá no fim de semana seguinte, já só tinha duas ou três cervejas”, revela. O pai, que costumava brincar que aquilo que Filipa bebia era “cerveja fina”, tinha apreciado, com surpresa, a qualidade e a diversidade de sabor.

Os geeks da cerveja, como diz Filipa, usam uma aplicação – a app Untappd – que mostra os sítios e as cervejas presentes nos locais mais próximos. Usa-a sempre que se desloca a outro país e compara os utilizadores mais fervorosos aos colecionadores: “Temos de as provar todas, somos viciados”. Este grupo de consumidores, do qual faz parte, raramente pede duas vezes a mesma cerveja ou a que consumiu da última vez. Filipa não tem a certeza, mas acredita já ter experimentado cerca de trezentas cervejas artesanais.

Patologia: Cerveja Depressão

Hugo Gonçalves é jurista, mas é também um dos fiéis contribuidores do Cerveja Depressão, um blog que começou como uma brincadeira, no Verão de 2012, de “um grupo de não cervejeiros e não experts em degustação de cerveja (para já) mas que se divertem imenso a aprender (e a beber)”. Hugo gosta de chamar às cervejas artesanais de “cervejas alternativas, um pouco como na música”.

O bichinho pela cerveja artesanal nasceu numa viagem à República Checa, em 2006, quando provou pela primeira vez as cervejas Pilsner. A curiosidade foi aumentando; porém, tinha alguma dificuldade em encontrar cervejas artesanais estrangeiras à venda em Portugal, com exceção do El Corte Inglés. Espaços como a Cerveteca, que frequenta não tantas vezes como deseja, vieram colmatar essa falha. Soube da sua abertura pelo Facebook e há muito que ansiava por um local como este. “Na altura foi um deslumbramento para alguém que, como eu, é fã”, explica. Na senda pela cerveja artesanal, confessa que o que mais pagou por uma cerveja artesanal foi 16 euros por uma cerveja Westvleteren XII, belga.

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