Numa conversa a propósito da celebração do aniversário do grupo com sede em Palmela, durante a qual foi apresentada a temporada de 2017, João Brites revelou à Lusa que, neste momento, é tempo de a companhia se questionar para "onde quer voltar o foco".

"Antigamente, o grupo estava totalmente vocacionado para o teatro, agora, com as valências todas [crianças, escolas, quinta educativa], estamos a tornar-nos numa espécie de agentes multifacetados e não pode ser esse o nosso foco", disse o director da de O Bando, sublinhando que não está a lamentar-se de nada.

"[Estou] antes a fazer um balanço à laia de quem se questiona como se constroem as democracias, ou de como se constroem as maiorias em democracia", observou, acrescentando que, como "as verbas são escassas", a companhia tem de repensar como vai continuar.

O último apoio financeiro de O Bando, recebido para quatro anos, através dos concursos plurianuais da Direção-Geral das Artes, termina este ano e tem um valor de 305.000 euros/ano, a que têm acrescido 12.500 euros/ano da autarquia de Palmela.

"Temos projetos até 2021, mas não sabemos com o que contamos", observou, sublinhando sempre não estar a lamentar-se.

"Temos consciência de que, nos últimos apoios, fomos a companhia mais pontuada e mais subsidiada, mas o dinheiro é cada vez menos para o que gostávamos de fazer e para o que temos capacidade de fazer", disse João Brites à Lusa.

"Os cortes foram de 30% e, como não quisemos abandonar as pessoas, mantivemos os atores, por uma questão político-social, mas também por uma questão existencial e artística", frisou.

Na sede de O Bando, no Vale de Barris, apesar de um naipe de atores polifacetados, há problemas técnicos para resolver, como a falta de um diretor técnico, e a iluminação de cena, que tem quase 30 anos, está obsoleta, como disse João Brites, acrescentando ter pena de a companhia não ter capacidade para investir.

"Gostávamos de ter uma sede com mais condições, onde não se passasse frio no inverno, nem calor no verão", frisou.

"Mas temos tido sorte, porque temos conseguido sobreviver. No entanto, gostávamos de ter condições, para, quando acolhemos atores estrangeiros, estes não terem de dormir em tendas, e para ter uma exposição permanente aberta ao público", referiu.

"Agora, com 42 anos, temos de saber se estamos do lado do teatro se da criação", indicou, tendo em conta que isto "já não é um grupo de teatro, mas uma rotunda", afirmou. "Estamos assoberbados com hipóteses, mas temos de saber escolher, de modo a não sermos vítimas das nossas próprias escolhas".

Assumindo os 69 anos de vida, João Brites diz que não perde a capacidade de sonhar, lançando mesmo o apelo a que a sociedade se "aproveite mais" da companhia e a "explore mais".

O teatro não é apenas criação, mas "intervenção social" e um "contributo fundamental para o exercício da cidadania, para o aguçar do espírito crítico e para a construção de felicidade", afirmou.

"Nós temos direito à felicidade. Agora temos é de saber como é que queremos ser felizes", rematou, com quem lança o desafio para os próximos anos de uma companhia que chegou à "idade madura".