“Tudo aqui é deles, tudo pertence a alguém que tem rabos-de-palha e muito a perder se for erradamente conotado comigo, com o MCK ou pessoas com postura abertamente crítica para com este ‘status quo’ [governação do país]”, afirmou à Lusa o luso-angolano Luaty Beirão, pouco depois de improvisar o espetáculo na rua, com três músicas.

O ativista, um dos 17 condenados em março, em Luanda, por rebelião, e que musicalmente se apresenta como Ikonoklasta, explicou anteriormente à Lusa que no sábado foram confrontados com a alegada retirada da licença ao Cine Tivoli, após presença no local da polícia.

Os dois músicos, conforme a Lusa constatou no local, passaram o dia de domingo junto à sala de espetáculos, para, sem sucesso, proceder à montagem da luz e som. À hora prevista, 20:15 (menos uma hora em Lisboa), improvisaram o espetáculo para algumas dezenas de pessoas que se encontravam no exterior.

“Foi bom, cantaram connosco e quando dissemos que íamos devolver o dinheiro dos bilhetes disseram que não queriam, que tinha valido pelo momento”, disse ainda Luaty Beirão, anunciando que o concerto previsto para o Cine Tivoli será transmitido em direto nas próximas horas, via internet, a partir de um espaço privado.

Pelo aluguer da sala de espetáculos, os dois músicos – ambos conhecidos por interpretarem música de intervenção e críticos do Governo angolano – afirmam ter pago 500.000 kwanzas (2.700 euros), mas foram informados no sábado pela gerência da impossibilidade de o concerto se realizar, conforme anunciado.

“Ligaram-nos a dizer que a polícia foi lá e apreendeu a licença. Não sabemos porquê”, acrescentou Beirão.

O concerto “Ikopongo” chegou a estar programado e anunciado publicamente para sábado, no Chá de Caxinde, outra sala de espetáculos de Luanda, mas a gerência comunicaria depois, segundo os músicos, que não autorizava a sua realização.

“Por vezes são atos de autocensura, é algo que me deixa triste. É o país que temos, não é o país que queremos”, lamentou Luaty Beirão.

Aquele ativista, de 34 anos, é uma das vozes mais críticas do regime angolano liderado por José Eduardo dos Santos, tendo sido condenado em março último, no mediático processo dos “15+2″, a cinco anos e meio de prisão por atos preparatórios para uma rebelião, associação de malfeitores e falsificação de documentos.

Luaty Beirão e os restantes 16 ativistas deste processo foram libertados pelo Tribunal Supremo no final de junho, após recurso apresentado pela defesa.

Entre prisão preventiva e cumprimento de pena, Luaty Beirão chegou a estar 09 meses na cadeia, desde 20 de junho de 2015, tendo realizado durante este período uma greve de fome de protesto que se prolongou por 36 dias.

Foram entretanto abrangidos pela amnistia presidencial para crimes – excluindo os de sangue – cometidos até 11 de novembro de 2015.

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