Não é artista. Chamar-lhe artista é fechar-lhe o escopo. Sugere, antes, a interpretação da sua obra "onde por certo tudo está expresso". "A arte é uma palavra que me calha, realmente, muito mal. Eu não tenho nada a ver com arte, nem com artistas. Eu fui um 'tipo' que estive sempre empregado toda vida e nunca tive atelier", explicou em março numa entrevista à agência Lusa.

"A maioria dos meus trabalhos foi feita dentro da gaveta dos meus empregos. Empregos esses que nada tinham a ver com aquilo a que se chama arte", explicou o autor de "Homenagem à realidade", de 1972. Cruzeiro Seixas disse ainda que vender as suas obras, para si, é "repugnante", já que considera que quem vende é o merceeiro, sapateiro ou o homem do talho.

"Eu não tenho nenhuma dessas profissões porque não tenho jeito", ironizou, também à Lusa.

“Falar das coisas que eu fiz? Hoje já não me parece que fui eu que as fiz”, disse Cruzeiro Seixas à RTP, em 2016. As coisas que fez, no entanto, são aquilo que agora lhe vale mais uma homenagem. Esta terça-feira, o Instituto Miguel Galvão Teles homenageará o artista e mestre Cruzeiro Seixas, em parceria com a galeria Rasto e a Artview.

O evento será aberto pela ministra da Cultura, Graça Fonseca. Segue-se uma apresentação da obra de Cruzeiro Seixas pelo advogado Rui Patrício, coordenador do Instituto Miguel Galvão Teles.

Cruzeiro Seixas, 98 anos, soma mais de sete décadas de produção artística, entre os primeiros momentos do Grupo Surrealista de Lisboa e a sua exposição inaugural, em 1949, e um percurso que remonta à infância, em que desenhava os seus próprios brinquedos.

"Os meus pais não tinham dinheiro para me comprar brinquedos", disse à Lusa, recordando que, por isso, começou a desenhar.

Frequentou a Escola António Arroio, onde conheceu Marcelino Vespeira, Júlio Pomar e Mário Cesariny, a quem se aliou, na cisão do Movimento Surrealista Português, para dar origem ao Grupo Surrealista de Lisboa, com artistas como António Maria Lisboa, Carlos Calvet, Mário-Henrique Leiria e Pedro Oom, em finais dos anos de 1940.

O artista está representado nas coleções do Museu do Chiado/Arte Contemporânea, Fundação Calouste Gulbenkian, Biblioteca Nacional de Portugal, Biblioteca de Tomar, Fundação Cupertino de Miranda, Museu Machado de Castro, em Coimbra, Museu Tavares Proença Júnior, em Castelo Branco, entre outros.

A exposição "Nos Labirintos que Inventei", da autoria de Cruzeiro Seixas, está patente no Museu do Côa, em Foz Côa, até ao próximo dia 30 de junho.

Hoje, Artur Cruzeiro Seixas, natural da Amadora, nos arredores de Lisboa, vive “a navegar em desordem”, mas continua apaixonado pela vida. E pela poesia, que diz ser “coisa mais importante que aconteceu ao homem”, porque “é pela poesia que se consegue a liberdade verdadeira”.

O surrealista foi condecorado em 2009 com a Ordem Militar de Sant’Iago da Espada. A homenagem desta terça-feira arranca às 18:30, no auditório João Morais Leitão (na rua Castilho, em Lisboa) e é recomendada a pré-inscrição em eventos@mlgts.pt.

Depois dos "labirintos" que Cruzeiro Seixas inventou, patentes no Museu do Côa, será inaugurada a retrospetiva "Ao longo do longo caminho", no próximo dia 29, na Fundação Cupertino de Miranda, em Vila Nova de Famalicão, detentora de grande parte do acervo do "representante vivo do Surrealismo em Portugal", que este ano completa 99 anos.

“O amor é sempre insuficiente. Queremos sempre mais, mais, mais. Mas é uma compensação muito forte para esta coisa difícil que é viver”, disse na referida entrevista à RTP em 2016. A admiração, como o amor, também há de ser sempre curta para os nomes que nos moldam a cultura. E as homenagens nunca hão de ser compensação forte para os mundos que pessoas como Cruzeiro Seixas abrem. Porém, são pelo menos um caminho.

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