A mensagem surge em inglês, letras brancas sobre fundo preto. «Devido à natureza íntima dos espetáculos a solo de Eddie Vedder, os seguintes itens estão proibidos: telemóveis, iPads, tablets e similares...».

“Íntima”. Essa é uma palavra que parecemos ter esquecido, dependentes que estamos dos nossos aparelhos eletrónicos e das redes sociais, sempre em busca do próximo “gosto”, da próxima partilha, da próxima publicação. Temos olhos apenas para a máquina e para a sensação de imediato. Esta semana, foi noticiado que o uso constante do telemóvel pode ser o culpado do nascimento de um novo osso no crânio humano. Jack White, o homem responsável pelo sucesso dos White Stripes e de 'Seven Nation Army', revelou em entrevista nunca ter tido um telemóvel – e acha que toda a gente parece “pateta” ao usar um. Dois lados opostos de uma mesma moeda humana: a da necessidade permanente de comunicação e a da necessidade de privacidade.

A mensagem foi sendo correspondida com mais ou menos respeito por parte de todos aqueles que encheram a Altice Arena para receber, uma vez mais, um homem que nunca quis ser mais do que humano: Eddie Vedder, o frontman incontestado dos Pearl Jam. Ele próprio o parece cantar em 'Just Breathe', canção da “sua” banda que foi a segunda a fazer-se ouvir esta noite: Under everything / Just another human being [“Sob tudo / Só mais um ser humano”, se quisermos ser literais].

Mas sabemos – porque somos fãs de rock, de pop, de música, de artistas – que ele é mais que um ser humano: é uma estrela à escala planetária, é um tipo que vende milhões e milhões de discos, que tem uma conta bancária com a qual muitos não poderão sequer sonhar. É um tipo que tem fãs – e, quando assim é, como é que poderemos apelidá-los de “seres humanos”, ou “apenas seres humanos”?

Torna-se algo difícil, mas faz parte do jogo. Porque, assim, podemos vir a ser brindados com momentos mágicos, como aqueles em que a estrela, o herói, desce do seu pedestal e diz-nos, muito sinceramente: Just another human being. Eddie Vedder tem aquilo tudo acima descrito, mas é um de nós. Também ri, também chora, também tem uma família que ama, também tem amigos que não esquece facilmente, também se embebeda, também tem passatempos para além do seu trabalho.

Parece que conhecemos tão bem Eddie Vedder e ele a nós que este concerto na Altice Arena nunca seria apenas isso; seria um reencontro, uma festa privada à qual só os companheiros mais íntimos terão acesso. Para a posteridade não ficará uma fotografia ou um vídeo publicados no Instagram, e sim a ideia de que saímos da sala lisboeta enquanto homens e mulheres melhores (perdoe-se a referência descarada a 'Better Man'), de que vale a pena esquecer o mundo virtual por uns instantes, concentrarmo-nos naquilo que nos faz vivos. No caso, as canções, a música. A mesma que salva a nossa sanidade mental, como foi possível ler no cartaz erguido por uma fã – e com o qual o norte-americano concordou em pleno. «A música ajudou-me e continua a ajudar-me», contou.

O papel psicológico – ou até mesmo teológico – que a música pode ter daria toda uma outra discussão, que merece ser tida cara a cara e não numa reportagem sobre um concerto, que após as primeiras leituras e partilhas será esquecida. Fiquemo-nos pelo íntimo. Por aquela explosão inicial de euforia e aplausos quando Vedder pisa pela primeira vez o palco, já depois de Glen Hansard (e que fabuloso foi Glen Hansard!) se ter encarregue da primeira parte, e já depois do Red Limo String Quartet, quarteto de cordas que tem acompanhado o vocalista em digressão, ter aberto as hostilidades sonoras e dado lugar a 'Far Behind', tema incluído na banda-sonora de “Into the Wild” (2007) e que constituiu o seu primeiro trabalho a solo.

Não é que Vedder seja melhor a solo do que no contexto dos Pearl Jam (isso fica ao critério de cada um), mas a verdade é esta: é exponencialmente diferente. Parece dar mais de si, sabendo que não tem a companhia dos seus colegas de banda, os quais não deixou de saudar durante este concerto, a seu lado. Ao mesmo tempo, parece não se importar com o que possa suceder, estejamos nós a falar de momentos gloriosos, como 'Black', entoada por um público que raras vezes se silenciou), ou de “falhas lamentáveis” (entre aspas porque não o são verdadeiramente), como a sua tentativa de falar um português correto (lendo das cábulas...) ou um ou outro tropeção já depois de a primeira das garrafas de vinho que tragou em palco (e ofereceu aos presentes) ter acabado.

Em nome próprio, parece que aquela aura intocável dos Pearl Jam se transfigura, se aniquila. Não há Pearl Jam ou as canções dos Pearl Jam. Há uma pessoa que veio até nossa casa e que, como bom convidado, mostrou educação, humor, e ainda nos entreteu com as suas guitarras, acústica e elétrica. Aquele amigo especial dentro da nossa roda de amigos. Aquele ombro sempre pronto a deixar-nos pousar lá a cabeça. Aquele que sorri sempre e nos contagia com esse sorriso, independentemente daquilo que se esteja a passar no mundo.

Por entre memórias passadas, como as dos primeiros concertos dos Pearl Jam em Portugal, no Dramático de Cascais, em 1996, passando pelas presentes, como uma carta que lhe foi entregue pelo “viajante” Miguel – a quem dedicou 'Driftin', Eddie Vedder foi-se mostrando ao mesmo tempo comovido e agradecido com a receção (sempre) calorosa que obteve do povo português (há quem lhe grite “bem-vindo a casa!”), mesmo sabendo que o seu ofício não lhe permite estar tanto tempo com a sua família o quanto gostaria. Que o perdoa, porque sabe que ele também pensa no seu público como uma extensão dessa família. Que o encoraja, e aos que o acompanham. Rani Kumar, membro do quarteto, teve de desejar um feliz aniversário ao seu filho, à distância, ao longo do dia. E Camilla van der Kooij, violinista do mesmo, não conseguiu de todo esconder a sua enorme gravidez...

E há tantos nomes – e isto é prova de familiaridade – a reter que quase nos esquecíamos de Lara, a quem foi dado um copo de vinho para a mão, ou de Inês, que primeiro adormeceu e depois foi igualmente brindada com um “Parabéns a Você”, pelo 10º aniversário, cantado por mais de 20 mil pessoas dentro da Altice Arena (notando-se nela mais um ar de choque que de regozijo, mas ainda assim...).

A intimidade longe das redes é apenas quebrada quando Vedder quebra as suas próprias regras e pede ao público, que com maior ou menor vergonha e com mais ou menos advertências por parte do staff da Arena foi surripiando algumas fotografias, para que ligue as luzes dos telemóveis para enviar uma mensagem à América que tantas famílias tem dividido ao longo dos últimos três anos, não só as suas como as dos emigrantes. 'Imagine', clássico de John Lennon, não ficou sem uma única sílaba por gritar, tendo começado com um curto trecho da não menos clássica 'People Have the Power', de Patti Smith. O mesmo para 'Smile', dos Pearl Jam, pouco depois, que não poderia faltar na noite mais alegre que Vedder parece ter tido em muito tempo.

Após interpretar 'Rockin in the Free World', tema de Neil Young que já é praticamente seu (assim como 'Hurt' é praticamente de Johnny Cash e não dos Nine Inch Nails, pela força que colocou na sua versão), Eddie Vedder faz uma vénia e sai de palco, com um sorriso nos lábios, satisfeitíssimo por ter vindo uma vez mais a um país que ama e que o ama a ele. Para trás ficaram duas horas de concerto e amena cavaqueira, soirée privada onde o estrelato ficou à porta. Ele não é de todo uma estrela rock ou pop. É um de nós. Um dos nossos. Um tipo simples. Normalmente são estes quem nos ensina o sentido da vida; com ele não foi diferente. O sentido da vida é ser-se feliz.

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