Temos tendência para imaginar o mundo pré-televisão a cores e pré-fotografias a cores mergulhado em apenas três tonalidades: preto, branco e cinzento. É como se tivessem sido os avanços tecnológicos, a descoberta de novas formas de registar a história, a possibilitar a entrada da cor nas casas, nas pessoas. O lapso surge na infância e pode prolongar-se até à idade adulta, impulsionado pelos registos existentes dessas épocas. Bill Watterson, célebre autor da não menos célebre banda-desenhada “Calvin & Hobbes”, fez inclusive uma piada em torno da coisa: antigamente, o mundo era de facto preto-e-branco, e a existência de quadros a cores é justificada com a ideia de que todos os grandes artistas eram loucos...

O que é válido para milhões de pessoas por todo o mundo é naturalmente válido para o povo português, especialmente para aqueles que nasceram após o 25 de Abril. A miséria provocada por 50 anos de ditadura atinge também a imaginação. O Portugal de Salazar era, descrito de forma simplista, cinzento, triste, enfadonho. Só com a revolução, que nos trouxe o vermelho dos cravos, é que os portugueses puderam finalmente descobrir todas as tonalidades que o olho humano consegue captar. O conservadorismo cromático acabou no mesmo dia em que os militares saíram à rua.

Menciona-se esta descoberta da cor para enquadrar as Doce numa sociedade portuguesa acabada de sair da ditadura e da revolução que lhe pôs fim, ainda a lutar contra os seus dois rostos, o do conservadorismo e o do progressismo. Porque, não fosse essa descoberta, muito possivelmente as Doce não teriam sido mais que uma nota de rodapé da pop portuguesa. Alguém consegue imaginar Fátima Padinha, Lena Coelho, Teresa Miguel e Laura Diogo sem o púrpura e o azul do Festival da Canção de 1980? Alguém consegue ouvir o pós-disco tribal de 'Bem Bom', e pensar num mundo a preto-e-branco?

Pioneiras na cor

A cor ajuda a dar forma às memórias. E ajudou a popularizar as Doce, nascidas em 1979 pela mão de Tozé Brito, que depois do Quarteto 1111, dos Green Windows e dos Gemini (grupo do qual fizeram também parte Teresa Miguel e Fátima Padinha) foi convidado a trabalhar como A&R da PolyGram. Mal os Gemini deram por terminada a sua atividade, Tozé Brito e Mike Sargeant, escocês há muito radicado em Portugal, tiveram uma ideia: «Porque não criar um grupo só com mulheres?».

As Doce foram das primeiras, mas não foram a primeira banda pop portuguesa só com mulheres. Antes, houve as Cocktail, também sob a mentoria de Tozé Brito, e que contaram nas suas fileiras com Lena Coelho e com Fernanda de Sousa, hoje conhecida nacionalmente como Ágata. No entanto, só as Doce alcançaram o estatuto reservado às grandes bandas pop: o de serem capazes de marcar um momento e uma geração, através de canções que duram no tempo, que se tornam parte da memória cultural de um povo. Quando Jack White viu 'Seven Nation Army', dos White Stripes, ser apropriada por claques de futebol de Lisboa aos Urais, a sua reação não poderia ter sido mais efusiva: «Nada há de mais belo, na música, que quando as pessoas adotam uma melodia e permitem que ela entre no panteão da música popular», afirmou. Ora isso foi, precisamente, o que aconteceu a 'Amanhã de Manhã', o primeiro single das Doce.

créditos: DR

Da criação das Doce ao lançamento de 'Amanhã de Manhã', composta por Sargeant e Brito, foi um curto salto. Daí ao sucesso, não o foi menos. 'Amanhã de Manhã' tornou-se num dos grandes êxitos do Portugal de 1980, que se apaixonou definitivamente pelo quarteto quando o viu atuar na edição desse ano do Festival da Canção – o primeiro que a RTP transmitiu a cores. O tema que apresentaram, homónimo, alcançou o segundo lugar, sendo apenas batido pelo grande amigo e colega de Tozé Brito, José Cid. Mas a imagem, dos vestidos coloridos, da coreografia simples mas sorridente, do brilho das lantejoulas e dos penteados, foi mais que marcante: foi um sinal claro de que um novo Portugal estava a nascer.

Em “Eu Sou Outro Tu”, biografia de Tozé Brito escrita por Luciano Reis, o objetivo por detrás da génese das Doce é desta forma explicado: «rentabilizar o aspeto visual, assumindo as quatro mulheres uma postura sensual, associada à estrutura das canções», que também pouco se assemelhavam ao Portugal de até então, “vítima” do fado e do nacional-cançonetismo. A fórmula, entretanto emulada por dezenas de boys e girls bands, resultou de tal forma que não foi só em Portugal que as Doce obtiveram sucesso. As comunidades lusófonas acarinharam-nas. Os ouvintes estrangeiros, que também os houve, elogiaram-nas. Países como Espanha, França, E.U.A. ou até as Filipinas puderam escutar a música do quarteto. A internacionalização das Doce, através da edição de temas cantados em inglês, passou a fazer parte dos planos.

O sucesso e a amargura

'Amanhã de Manhã', canção carregada de sexo via romantismo, parecia querer tapar de vez o charco bafiento da moral cristã apregoada pelo Estado Novo, que aqui e ali ainda ia sujando. “OK KO”, o primeiro álbum das Doce, era o cimento que o cobria: para além de 'Amanhã de Manhã', Portugal passava também a cantar 'Rock Me No Divã' (Tutens, meu amor / Qualquercoisa de acrobático / Queme atrai aí ao teu divã), 'Uma Boa' (Em todaesta loucura / Sinto-me nua,quero voar / Em toda esta magia / A gente, um dia, vai-se amarrar), ou até mesmo 'Doce Caseiro', a metalinguagem a revelar aos ouvintes o porquê de lhes deverem prestar atenção (Somos o doce da casa na brasa / Prova um pedaço de graça do nosso doce agressivo).

Não espanta, porém, que as Doce não tenham açucarado as mentes de alguns. Pode espantar que isso não tenha acontecido com a escritora e poetisa feminista Maria Teresa Horta, uma das “Três Marias”, que em declarações à revista Nova Gente, em 1981, se disse «abismada com a pornografia das Doce, abaixo das mulheres do Cais do Sodré», após ver o grupo interpretar 'Ali Babá' no Festival da Canção desse ano com os hoje célebres fatos de odalisca. Esses primeiros registos de maledicência, contudo, não afetariam o grupo; os momentos maus estavam reservados para a falta de condições com que se iam deparando nas suas digressões por Portugal, onde carroças de bois iam servindo de camarins, ou onde padres não as deixavam atuar no adro das suas igrejas.

Mas existiu um boato, que mesmo em 2021 é ainda bastante comentado, alvo de piadas e memes, imortalizado no videojogo “Paradise Café”, que ameaçou acabar com a carreira das Doce. Em 1981, com o grupo no Canadá, correm rumores de que Laura Diogo havia sido hospitalizada em Santa Maria, após uma sessão de sexo anal com Reinaldo, à altura jogador do Benfica, bem casado e pai de filhos. As origens desse rumor são ainda hoje desconhecidas, mas a coisa pegou: todas as casas comentavam o caso, todas as tascas tinham o seu bitaite na ponta da língua – e isto numa época em que nem o conceito de “redes sociais” nem o conceito de “viral” existiam. No seu regresso a Portugal, as Doce viram-se obrigadas a desmentir esse exemplo máximo de fake news, chegando a reunir-se com advogados.

Os rumores não beliscaram, ainda assim, o sucesso – e as Doce entraram em 1982 decididas a conquistar o mundo. Em nova edição do Festival da Canção, a maior montra de talento musical do Portugal da época, o quarteto conquista por fim o primeiro lugar com 'Bem Bom', o que lhes possibilita atuar na Eurovisão. Aí, a classificação foi bastante mais modesta: um 13º lugar, bastante longe da alemã Nicole, que venceu a edição desse ano do festival. Não obstante, as Doce conseguem alguns contratos internacionais, e lançam singles em espanhol e inglês na tentativa de furar esses mercados.

Tudo tem um fim – ou não

O sucesso, sabemo-lo, nem sempre é positivo. As Doce conquistam o público, mas sofrem com a pressão de não poder ter uma vida normal. O descanso junto da família, em casa, é colocado em segundo plano: o palco e a estrada passam a constituir a sua única realidade. E as fissuras no grupo começam a vir ao de cima, alimentadas pelo cansaço e pelo stress. O fantasma do fim das Doce espreita. «Uma noite, estava eu a dormir, e às 4h00 tocou o telefone fixo de minha casa e disseram-me: 'Olha, estamos no Porto, no Corcel, e o grupo acabou'», narra Tozé Brito na sua biografia.

O alarme não era falso, mas foi resolvido imediatamente pelo mentor do projeto, que aponta o «desgaste tremendo» sentido pelas quatro Doce como potenciador de conflitos. «Ouvi coisas sem nexo, 'porque tu fizeste isto e aquilo', 'desligaste o microfone', coisas sem significado nenhum», conta. Fossem esses os únicos problemas e talvez as Doce pudessem ter durado mais alguns anos, mas a realidade do cansaço físico e psicológico só se veio a saber anos mais tarde: Lena Coelho viria a revelar ter feito não um, «mas três abortos por causa das Doce». Teresa Miguel também passou pelo mesmo, abortando uma vez. E será nova gravidez de Lena Coelho, em 1985, que trará de novo à baila a ideia de um ponto final nas suas carreiras. A cantora acaba por ser substituída por Ágata, entre maio e outubro desse ano.

Pelo meio, mais uns discos de platina para a coleção privada das Doce: 'Quente Quente Quente' ou 'O Barquinho da Esperança' são sucessos, assim como “É Demais”, o segundo álbum do grupo. E, de facto, começava a ser demais. Ágata entrou definitivamente para as Doce após a saída de Fátima Padinha, em 1986, «mas não era a mesma coisa», diz Tozé Brito. Um último disco, duplo e antológico, é editado nesse mesmo ano, abarcando as canções mais emblemáticas da banda, em tom de despedida. «Foi um projeto muito bonito, com muito sucesso e aquele que durou mais tempo, mas terminaram com dignidade sem deixarem a memória das Doce abalada», acrescenta o compositor.

Não deixaram – tanto que as Doce vão chegar, pouco mais de 40 anos após a sua formação, ao grande ecrã. A história do grupo será, desta feita, narrada por Patrícia Sequeira, realizadora de “Bem Bom”, com argumento de Filipa Martins e Cucha Carvalheiro. A realizadora pretende, com o filme, prestar a «merecida homenagem» a um conjunto nascido de «um Portugal reprimido», e que conquistou o país através da diferença. E, depois do filme, permitindo-o a pandemia, os palcos: há planos para que as atrizes que dão corpo às Doce em “Bem Bom” (Bárbara Branco, Lia Carvalho, Ana Marta Ferreira e Carolina Carvalho) cantem, em digressão, as canções que encantaram Portugal.

Talvez o tempo verbal esteja incorreto: não “encantaram”, continuam a encantar. Para muitos, as Doce são ainda um símbolo dos mágicos anos 80 em que à liberdade não se impunham restrições, em que Portugal dava um salto de gigante para o technicolor, em que o Mundo finalmente se reabria aos portugueses. Em concursos televisivos como “Ídolos” ou “A Tua Cara Não Me É Estranha”, as canções das Doce estavam lá. “Docemania”, compilação de 2003, incluía remisturas de temas como 'Bem Bom', adaptados à realidade do house e das pistas de dança modernas. E esse mesmo nome foi usado numa versão sub-18 do grupo, em 2007, sob mentoria de Lena Coelho. As Doce, portanto, nunca acabaram: ainda cá estão, para afastar os dias cinzentos.

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