Resultado da edição de filmes familiares, entre os anos de 1972 e 1981, como sublinha o comunicado da distribuidora Midas Filmes, hoje divulgado, "Annie Ernaux – Os Anos Super 8" parte de imagens familiares, cruza histórias privadas com as do mundo como ele era e transforma-se num testemunho da obra da escritora, dito pela sua própria voz.

“Ao rever os nossos filmes em super 8, filmados entre 1972 e 1981, percebi que não eram apenas um arquivo familiar, mas um testemunho do passado, estilo de vida e aspirações de uma classe social na década que se seguiu a 68", afirma Annie Ernaux, citada no comunicado. "Queria incorporar essas imagens silenciosas numa história que juntasse o íntimo ao social e à história, para transmitir o sabor e a cor daqueles anos.”

"Annie Ernaux – Os Anos Super 8" teve estreia mundial no passado mês de maio, no Festival de Cannes, será exibido no Cinema Trindade, no Porto, no próximo sábado à noite, e tem a estreia em salas portuguesas marcada para 15 de dezembro, em simultâneo com a entrada prevista no circuito comercial francês, poucos dias após a entrega do Prémio Nobel em Estocolmo, em 10 de dezembro.

Com edição e tratamento de imagem de David Ernaux-Briot e argumento e narração da autora de "Os Anos", o filme de caráter documental prolonga a obra literária da escritora, que sempre recusou a classificação de “autoficção”, embora transponha para a escrita a sua própria vida enquanto afirmação política de mulher.

A Academia Sueca, que atribui o Nobel da Literatura, justificou a escolha de Ernaux com “a coragem e acuidade clínica com que revela as raízes, alheamentos e restrições coletivas da memória pessoal”.

Nascida em Lillebonne, em França, em 1940, no seio de uma família operária, estudou na Universidade de Rouen e foi professora do ensino secundário desde a década de 1970 até ao ano 2000.

Teve o primeiro livro publicado em 1974, com o título “Les Armoires Vides”, uma estreia literária feita na conceituada editora Gallimard, de caráter autobiográfico, sua primeira abordagem do aborto que fizera dez anos antes, e a que voltaria, em "O acontecimento", cerca de 25 anos depois - uma obra mais tarde adaptada ao cinema, pela realizadora francesa Audrey Diwan, que venceu o Leão de Ouro de melhor filme, no Festival de Veneza, em 2021.

Em 1984, já depois de publicados títulos como "Ce qu'ils disent ou rien" e "La femme gelée", sempre na Gallimard, "Um lugar", entretanto editado em Portugal, deu-lhe o Prémio Renaudot.

Nos anos seguintes, obras como "Uma paixao simples" consolidaram o seu percurso até que, com "Os anos", de 1998, ganhou maior relevo internacional.

Em 2017, conquistou o prémio Marguerite Yourcenar pela totalidade da sua obra. No ano seguinte, foi finalista do Booker Internacional com a tradução para inglês de “Os anos”.

Ernaux entrou em Portugal em 1987, com "O lugar", pela antiga editora Fragmentos. Seguiram-se depois, nos Livros do Brasil, atual chancela da Porto Editora, "Uma mulher" (com nova edição de "Um lugar"), "Uma paixão simples", "Os anos" e "O acontecimento", que chegou ao mercado livreiro português em setembro.

Quando a BBC entrevistou Annie Ernaux, na sequência da publicação de "Os anos" no Reino Unido, e da sua nomeação para o Booker Internacional, quis saber por que motivo usava sempre a segunda pessoa do singular ou a primeira do plural, em vez do "eu", numa obra de raiz tão autobiográfica.

"Porque o que me interessa é a nossa relação com o mundo em volta", respondeu, acrescentando que se trata de uma relação que não se esgota numa só pessoa.

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