Vem o cardeal, no seu formoso escarlate. Põe-se armado em alcoviteiro, aos cochichos com a marquesa. Desnudo, o palco tem montada uma outra plateia, virada para os espectadores. Poderá dizer-se que é um espelho, um lugar anamórfico que põe as personagens sentadas diante de quem as vê, avisando, ao jeito contemporâneo de expiar o passado, que aquelas caricaturas do século XVI ainda se vêem nos espectros dos homens e mulheres de 2020, mesmo se a máscara lhes tapa a boca.

Em cena está "a vida pública na cidade: ideias de justiça, de corrupção, desabamento moral", diz Pedro Aparício, o diretor do Teatro do Bolhão, no Porto. "Pega-se numa situação — aquela Florença —, onde Musset está a tentar ler coisas do seu próprio tempo, para falar sobre a luta política e pública", acrescenta.

Pelo meio, correm duas tragédias: a de Lorenzaccio, cuja vida fracassou, e a da própria cidade, com os respetivos e putrefactos valores e teias de relações. "São três intrigas", explica o encenador Rogério de Carvalho. "Três intrigas que decorrem simultaneamente à volta do poder" — "e a tirania", acrescenta ainda Pedro Aparício.

"É uma crítica à humanidade, e pode ser no Porto ou em Florença", diz Cláudio da Silva, o ator que encarna a personagem principal, Lorenzaccio, alcunha depreciativa para Lorenzo.

"É uma reflexão sobre a natureza humana e o que ela vai criando, em termos de sociedade, de polis, de organização política, do jogo. Podemos ver isso replicado hoje no quão difícil é garantir uma república. O Musset, do ponto de vista da natureza humana, das motivações, do jogo, põe isso em cena — e eu acho que as questões que ele levanta neste texto são muito pertinentes para uma leitura crítica do nosso tempo hoje", resume Sandra Salomé, atriz que dá corpo à marquesa.

Mas "esta é uma peça que também tem um lado muito autobiográfico", considera Cláudio da Silva. "Percebe-se que há muitas ligações entre a história do Musset e este texto do Lorenzaccio". E num processo de co-criação, onde cada um vêm o que quer (ou pensa que quer), chegam do século XIX questões como os problemas de género e, mesmo, a orientação sexual.

"Há esta relação ambígua entre o duque e o Lorenzaccio — que talvez por isso ele fosse interpretado por mulheres", conta ainda Cláudio da Silva, dizendo que aqui optaram por não colocar uma mulher no papel principal: afinal, "por alguma razão ele não pôs 'Lorenzaccia'", brinca.

O homem sonha, mas nem sempre a obra nasce quando ele quer

"Tudo nos leva muito tempo a fazer — se calhar é um estigma. O palácio demorou 12 anos a ficar pronto, a arranjar os financiamentos necessários, o 'Lorenzaccio' demorou 16 a ser posto em cena [no Teatro do Bolhão] e, portanto, se calhar esta é mesmo uma marca de quem faz o nosso trabalho: ter de ter muita paciência, muita resiliência", confessa Pedro Aparício.

"Não é à toa que o texto esperou quase duzentos anos para ser apresentado", conta Pedro Aparício. "O primeiro motivo prende-se com a própria estrutura: como o texto é criado, na verdade, parece mais o argumento de um filme que uma peça de teatro — pelo menos no sentido clássico, tal como o teatro era entendido na altura em que ele a escreveu", explica.

É que Musset decidiu criar uma sucessão de cenas curtas, com personagens a entrar e a sair, numa sequência narrativa que conta várias intermitências da mesma história no palco: tal qual um filme faz no ecrã. Tudo isto num altura (1834) em que as primeiras experiências a sério com a imagem animada ainda estavam para acontecer.

"O texto está constantemente a mudar, as personagens, os espaços; envolve grandes movimentos de multidões e uma série de ingredientes que o teatro não suportava com facilidade. O próprio Musset reconhecia que às tantas era teatro mais para ler do que propriamente para representar", diz Pedro Aparício.

Por isso, Portugal teve de esperar até agora para ver esta peça chegar a um palco. Não por falta de vontade, afinal, o Teatro do Bolhão já criou "uma longa história com este texto", conta o diretor. "Pelo menos desde 2003 que o incluímos nas nossas candidaturas à Direção-Geral das Artes (DGArtes)", explica, lembrando a "escala complexa" do texto de Alfred de Musset.

É aqui que entra o Teatro Nacional de São João. "Nunca tivemos até aqui os recursos para o pôr em cena. De facto, esta parceria com o São João vem, pela primeira vez, permitir que a gente o materialize".

A co-produção é, assim, levada ao palco pela mão do nome que desde sempre foi o escolhido deste teatro portuense: Rogério de Carvalho. O Palácio do Bolhão, onde está o teatro, acolhe ainda ACE Escola de Artes, à qual o encenador esteve ligado praticamente desde o início.

"Esta cumplicidade com o Rogério vem desse trabalho que ele fez aqui, como um dos professores fundamentais dos atores, mas também com um trabalho que fomos fazendo com o Rogério enquanto criador e nas parcerias que já há muito tempo tínhamos, nomeadamente nas companhias que deram origem à nossa", revela Pedro Aparício.

Aos 84 anos, o encenador luso-angolano comanda o batalhão de atores: Ângela Marques, António Maria Pinto, António Melo, Cláudio da Silva, Hélia Martins, João Cravo Cardoso, João Paulo Costa, Jorge Mota, Luís Moreira, Mariana Silva Costa, Miguel Eloy, Odete Mosso, Paula Abrunhosa, Pedro Couto, Pedro Damião, Pedro Fiuza e Sandra Salomé.

O texto de Alfred Musset foi traduzido por Alexandra Moreira da Silva, "grande especialista na tradução dos clássicos franceses", considera Pedro Aparício. "O trabalho que ela fez com o Rogério na tradução de Molière tornou isso muito claro e nunca tivemos dúvidas de que ela seria a nossa tradutora e dramaturgista", acrescenta.

Mas voltemos ao palco: ali um espelho, ali um palco vazio, só com a bancada e umas almofadas. No palco não há palco, há a mimese da plateia. O texto clássico aparece, assim, num cenário (ou na sua ausência) mais habitual de encenações contemporâneas. E é precisamente a possibilidade atual de eliminar representações físicas que permite levar este espetáculo a cena.

"O que torna possível encenar 'Lorenzaccio' agora é precisamente porque hoje o teatro permite desmaterializar as coisas, não precisamos da pracinha, do salão e dos sítios, que de um ponto de vista figurativo mais naturalista ou realista teriam de estar ali. Isto permite-nos criar um espaço aberto que é tudo".

"O espaço é abstrato. A peça tem várias secções, um grande número de quadros. Aquilo é um palácio, ao mesmo tempo é a cidade de Florença, ao mesmo tempo é a passagem de várias personagens de classe", explica Rogério de Carvalho. "Ao longo do espetáculo, um quarto às vezes é um quarto, às vezes é uma sala, às vezes é um espaço onde tudo pode acontecer. Portanto, há uma desfiguração do tipo representativo de uma peça que tem uma intriga — e leva-a até ao fim — em espaços que são únicos. Como acontece, por exemplo com Tchekhov, com espetáculos contemporâneos", acrescenta o encenador.

"O problema que se põe sempre quando se monta um espetáculo como o 'Lorenzaccio' é o espaço. Então, aqui a presença e a palavra do ator é que determinam o espaço. O imaginário do espectador também é forte; não é preciso pôr ali uma cama para se pensar que é um quarto: basta enunciar que aquilo é um quarto e imediatamente as pessoas percepcionam o quarto", explica.

Ao mesmo tempo, a solução cénica é "uma economia de meios". "Esta peça é literária, a escuta é muito importante — essa escuta permite também que o espectador esteja ativo, para que perceba, através da escuta, o sítio onde a peça se passa".

Mas, e um ator, como constrói e povoa um espaço que não existe? "Com a imaginação", sorri a atriz Sandra Salomé, que interpreta a marquesa. "A imaginação é um dos instrumentos essenciais em qualquer arte".

"Depois, é um jogo", continua, "é entender o que o encenador quer de uma cena; como é um trabalho de texto, de linguagem, é tentar pela forma como a linguagem é dita, posta no espaço, criar um ambiente: se estamos num quarto, o texto é supostamente mais intimista, desce a voz; se é num espaço aberto, o ator usa uma linguagem de modo a denotar essa abertura do espaço."

O objetivo é que "a imaginação se incendeie", acrescenta Pedro Aparício. "O teatro é co-presença e o espectador tem de ser ativo", prossegue Sandra.

Tudo isto traduz-se "numa certa atualização da peça" de Musset, diz Cláudio da Silva. "Não podemos hoje fazer o mesmo teatro que se fazia, tal como os textos não são e a leitura dos espectadores não é" idêntica ao passado.

Apesar disso, "o trabalho do ator é sempre o mesmo", diz Cláudio. "Tem a ver com a compreensão, com a libertação do imaginário, com dar verdade àquilo que está a dizer, com a entrega e compreensão daquilo que está a fazer. Seja um clássico ou contemporâneo, esse trabalho é o mesmo", explica.

Os males de 2020 dificultam a vida do século XVI

"Há uma movimentação imensa, isto é uma casa de teatro, com muitas atividades diferentes, que se continuam a fazer", lembra Pedro Aparício. Aos 160 alunos da escola, às equipas técnicas, junta-se um extenso elenco, carpinteiros, costureiras... Tudo numa altura em que o toque é quase criminoso.

Originalmente agendada para 28 de maio, a estreia de 'Lorenzaccio' foi adiada para o outono. A culpa, claro, é desse ser invisível a que a convenção científica apelidou de SARS-CoV-2, o coronavírus responsável pela Covid-19 e respetivo cenário proto-apocalíptico que tomou Portugal em meados de março.

A inevitabilidade do adiamento levou a uma "remodelação significativa do elenco", explica Pedro Aparício. "A reorganização do calendário bateu em compromissos que tinham outras pessoas e criou uma série de atritos que nos fizeram rever uma parte do elenco. Ao mesmo tempo, por causa da pandemia, outros colegas que não estariam disponíveis passaram a estar, como é o caso do nosso protagonista, Cláudio da Silva", diz ainda.

"Saímos do confinamento a perguntar a nós próprios como é que íamos agora fazer teatro — mesmo como escola —, como é que podemos ensinar aos nossos alunos, que não se podem tocar, que não se podem aproximar, para quem tudo é um perigo. Isto sim, tornou-se um desafio tremendo", conta.

"Aquilo que temos de trabalhar com os nossos alunos-atores é provavelmente o desejo, o querer e não poder, o querer aproximar, o querer tocar — e, portanto, criar uma partitura interior que tenha mais a ver com uma vontade de qualquer coisa que não se vai concretizar. E, no fundo, tentar fugir àquilo que esta realidade nos está a criar", acrescenta Aparício, também um dos diretores da Escola de Artes que funciona no Palácio do Bolhão.

O programa de sala desta peça em cinco atos diz que “Lorenzaccio” é “sobre uma cidade, um ser coletivo feito de inúmeras vozes, comunidade humana que a corrupção política destrói e divide”.

Já a sinopse diz que Alfred de Musset conta “a partir de relatos da história de Florença do século XVI o derrube do ducado tirano de Alessandro de Médeci, assassinado pelo primo Lorenzo, depreciativamente chamado ‘Lorenzaccio’ porque frustra os ideais de mudança”.

“Musset ergue tanto um drama pessoal em torno desta figura, assombrada por uma inquietação hamletiana, como uma crítica a uma sociedade em decadência”, lê-se na sinopse que também apresenta “Lorenzaccio” como uma “obra crucial do drama romântico francês, tida como irrepresentável” por ter sido várias vezes alvo de censura moral ou política e devido ao número de personagens e às mudanças bruscas de lugar, aquele lugar em palco que pertence à imaginação do espetador em cumplicidade com o ator.

Com uma lotação de 70 pessoas por sessão, Lorenzaccio estreia esta sexta-feira, 23 de outubro. O espetáculo pode ser visto às quartas e quintas-feiras, às 19:00; às sextas-feiras e sábados, às 21:00; e aos domingos, às 16:00. Para a récita do dia 25 de outubro está agendada uma conversa pós-espetáculo. No dia 1 de novembro, a sessão conta com interpretação em Língua Gestual Portuguesa.

Os bilhetes custam 10 euros.

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