O processo de estúdio, sem rodeios. O disco, pela pessoa que o conhece melhor. A projeção de numa ‘ela’, que é autobiográfica. A música que salva, o abandono e a necessidade de ouvir e ser ouvida. Uma conversa com menos perguntas e mais respostas sobre um disco mais seguro e mais interpretado. Aqui está Márcia em discurso direto:

“Vai e Vem”

“Este é um disco bastante seguro, apesar de falar de inseguranças. É muito claro, teve tempo suficiente para maturar. Houve cinco ou seis canções que acabei por deixar de fora para dar lugar a outras e isso é um sinal de que escolhi estas canções. Não juntei um punhado de canções porque isso resultaria noutro tipo de disco — também válido.”

“[O título] vem diretamente de um tema, aquele onde o Zambujo canta. É um álbum onde projeto imensas possibilidades. E não falo em termos musicais, falo de possibilidades de realidade. Vivemos assim, mas podíamos estar a viver de outra maneira. Estamos juntos, mas podíamos não estar. Temos saúde, mas podíamos não ter. Ponho-me muito no lugar dos outros para tentar perceber que as coisas são de facto muito efémeras e que não as temos garantidas. Escrevo muito autobiograficamente por isso não há muito a esconder nesse sentido. Esse tema [que dá título ao álbum] mostra precisamente isso. É sobre o afastamento que podes ter dentro de uma relação, porque as coisas não são evidentes ou garantidas e precisam de ser trabalhadas. Por isso, as certezas vão e vêm. O álbum está todo nesse sentido.”

“Amor Conforme”

“O meu tema favorito.”

“Escrevi esse tema já a meio do processo de gravação. Saiu-me muito rápido e tive logo a certeza que tinha de entrar porque era a cor do disco — e até podia ter dado título ao disco. Começa com um ambiente muito íntimo, porque gosto de brincar com essas coisas musicalmente. Se colocarem os fones, vão ouvir várias panorâmicas. Teimei que queria reverb na voz, algo que não é muito convencional. Tive a noção de que ‘ela’ [uma projeção de Márcia] começa a cantar dentro de casa. De repente, fecha os olhos e imagina: ‘E se eu me fosse embora? E se deixasse tudo? E se tudo fosse diferente’. No seu sonho, no seu devaneio privado, ‘ela’ pensa que fez o que era justo, e foi-se embora. Aí vai para o mundo — e lá está o reverb. Foi a minha maneira de transmitir musicalmente esse abraçar do mundo. Só que é um devaneio, é um sonho que acaba com ‘ela’ em casa. A voz volta ao ouvido, cortando o reverb no princípio e no final.”

créditos: Joana Linda

Um registo autobiográfico

"Quando comecei a escrever as minhas canções e quando lancei os meus primeiros discos, acho que as coisas eram autobiográficas de uma forma muito direta. E em compensação acho que era muito mais indireta a escrever. Procurava expressões que não fossem tão diretas. Comecei a reparar nisso no "Quarto Crescente". [Já] não tento controlar o meu método de escrever, tento controlar algumas coisas musicalmente, mas o método de fazer canções não. Já me apercebi que sou muito mais direta a escrever, mas que também escrevo coisas que não acontecem no momento, nesta realidade. Isso é que é a tal projeção. Mas não deixa de ser autobiográfico, porque conheço exatamente aquela sensação. Estou a falar sobre aquilo que sei. Conheço perfeitamente aquilo que 'ela' [Márcia] está a sentir. ‘Ela’ não é uma ela, sou um eu que já fui eu. Sei perfeitamente do que estou a falar porque senti aquilo."

O abandono

"‘Vai e Vem’ é uma canção que fala de abandono. A "Linha de Ferro", no "Quarto Crescente" também. O abandono é um tema que conheço, que me é bastante interno e íntimo. Só que se fores ver a minha vida, não estou a viver nesse momento. Mas é um tema que quase que me persegue, porque é um fantasma que tenho. E a minha maneira de lidar com ele, é integrá-lo e escrevê-lo".

"O abandono não é uma coisa muito distante para a maioria das pessoas. Há quem, felizmente, não conheça essa sensação, mas são os teus fantasmas de crianças. Tens certas coisas que sentes e guardas para ti o resto da vida e achas que ao crescer, e ao te tornares adulta, eles vão embora... Na adolescência começas a achar que são menores e que na vida adulta se vão apagar... Mas à medida que vais crescendo, vais percebendo que eles se vão intensificando, vais-te aproximando cada vez mais deles. O Nick Cave tem uma boa frase sobre isso, algo como 'os fantasmas existem para aprenderes a viver com ele'. E eu sou bastante mais feliz assim.”

A voz

“Este é um disco muito mais interpretado. Ouvi o "Quarto Crescente" a meio das gravações e pensei: 'canto sempre tão docinha, por isso é que as pessoas dizem que sou docinha'. Agora estou a interpretar muito mais. Ganhei a liberdade de gritar em "Agora"; na "Corredor" de ter despeito por alguém; e na "Manilha" dou-me ao direito de gozar. Até achei piada, o Samuel Úria quando ouviu esse tema ligou-me a dizer 'epá, estás com uma voz super diferente, o que é que fizeste?’. Começo a sentir legitimidade para assumir esse lado, talvez se fosse mais cedo teria vetado essas canções a mim própria. E agora não.”

Ser ouvida

"Uma das questões que se sente quando se fala com mulheres, e eu falo com muitas mulheres — oiço-as, gosto de ouvir histórias e de ouvir as pessoas — é que as mulheres gostam de ser ouvidas. E poucos homens sabem disso. Às vezes é só ouvir. Não é preciso muita coisa, é só ouvir. A Helena Almeida, artista plástica de quem gosto muito, tem uma peça de uma mulher com uma venda onde se lê ‘ouve-me’. Uso o exemplo das mulheres porque me é próximo e porque às vezes as mulheres sentem-se mesmo sozinhas. O público também se sente acompanhado quando um artista está a cantar aquilo que ele sente. Isso é ouvir. “

"Nunca consegues transmitir tudo o que sentes, mentaliza-te disto. Mas o máximo que conseguires, é o que te vai salvar da loucura. Se as pessoas falassem mais e fossem mais ouvidas, havia menos depressões, loucuras, paranoias... O máximo que eu conseguir comunicar cá para fora, vou fazê-lo. Estou a esforçar-me bastante para que isso passe para palco. Quero que as pessoas ganhem esse universo de uma forma muito mais direta e muito menos ambígua. Deixando um certo espaço de interpretação. Mas é como se eu estivesse à procura de um certo purismo de comunicação e essa fosse a minha batalha de disco para disco… De disco para disco, de filho para filho. A minha batalha é tentar ser o mais clara possível.”

créditos: Joana Linda

"A única coisa justa para o mundo é o disco ser a minha verdade"

“O Manuel Dordio é meu amigo, meu companheirão, é o meu finca-pé. É um ser criativo e indisciplinado. Tenho um grande amor por ele, por isso quero-o presente nos discos e no estúdio. O Filipe [C. Monteiro] não era para produzir o disco mas tornou-se impossível não o fazer; ele compreende-me tão bem. Escrevi o "Amor Conforme" quando ele estava fora e mandei-lhe logo nessa noite. Ele entendeu logo a canção. Na cabeça dele começou logo a tocar aquela linha da guitarra e mais ninguém se lembrou dela, eu própria não me lembrei. Mas ela faz todo o sentido lá, tal como ele fez sentido na produção”.

"Não tens de ter uma decisão certa. Tens de ter a tua decisão. Em estúdio discutimos imensas coisas e abordagens. Aconteceu com o Kid, com o Filipe ou com o Nelson. 'Essa é a tua opinião, quando fizeres um disco com o teu nome à frente metes a tua opinião. Este é o meu disco, tem a minha opinião’, disse-lhes. Esta é a minha visão das coisas. Tenho essa noção desde muito pequenina: a minha verdade, é a minha verdade. E eu quero ouvir a dos outros e gosto quando as pessoas têm outras opiniões. Mas a única coisa justa para o mundo é o disco ser a minha verdade.”

“O processo [de estúdio] foi muito fixe porque o Nelson Carvalho é um gajo que também gosta de discutir. E eu não gosto de ser a única com mau feitio em estúdio. Gosto de ter um feitio à minha altura e de nos sentarmos os dois a discutir os temas. ‘A minha voz não é assim e não gosto de ter a minha voz toda bonitinha’, disse-lhe eu. ‘Okay, mas eu acho que estás errada e isso não faz sentido nenhum’, respondeu-me. ‘Mas eu quero', ‘vamos escrever uma adenda em que explicamos que tu não concordas’, brinquei. Por isso quando falo nele nas entrevistas acabo por estar a limpar a sua reputação. A verdade é que ele não concordava com imensas soluções que lhe apresentava, mas tinha uma coisa grandiosa que é saber perfeitamente que o que eu queria. Mesmo não sendo a opção mais correta, disse-me para não desistir.”

"Mas o disco é uma equipa. A questão está nas decisões que tomas para a abordagem de uma música. Não podes sentir o que sentes ao ouvir o "Amor Conforme" se aquela mistura não estivesse assim. Eu te garanto que não sentirias isso. Só o sentes porque meti aquele reverb daquela maneira, porque o Filipe fez aquela guitarra para corroborar aquela solidão e distância. Só sentes porque tudo está a jogar para aquilo. Porque o fizemos daquela maneira. E isso são decisões".

A música

“Na minha vida, já fui salva pela música muitas vezes. Lembro-me uma vez, há muitos muitos anos, em que passei por uma situação difícil. Aconteceu a dada altura, sem eu escolher, ter uma apatia geral. O meu corpo chegou a um ponto em que disse 'é melhor não sentires mais'. E lembro-me do exato momento em que voltei a sentir. Não sei quanto tempo estive nesse numb, mas lembro-me de ouvir uma música e de começar a sentir. Não tive noção logo disso, mas é um momento que guardo da minha vida. A música salva. Mas porquê? É pelas palavras? Acho que não. É quando consegues entender tudo o que a música passa, muito de emotivo e pouco verbalizável; quando consegues entender que mais pessoas estão naquela situação. Porque é que uma pessoa se culpabiliza? Culpabiliza-se porque acha que é a única no mundo que tem ataques de pânico, dificuldades na amamentação, dores de parto, excesso de cansaço quando tem um filho e pensa que toda a gente consegue, só ela é que não... A sociedade joga muito por aí, porque estamos sempre a tentar mostrar que está tudo bem. Acho que o método é totalmente o contrário. Mostras a uma pessoa empatia e ela sente-se logo bem. Quando fazes sentir que ela não é a única, isso já faz com que a pessoa se sinta bem. A música tem esse papel.”

Editado em outubro, "Vai e Vem" conta com duetos com António Zambujo, Samuel Úria e Salvador Sobral e a produção de Filipe C. Monteiro (Tomara), João Pimenta Gomes (Kid Gomez) e Nelson Carvalho (Valentim de Carvalho).

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