“Se tínhamos uma Baixa desertificada e envelhecida, agora temos uma Baixa estranha aos nacionais, em perda de moradores, de comércios locais, virada para os de fora, em que as ofertas e as ementas são para turistas, em que perdemos as lojas que nos atendiam - contei 117 encerradas nestes últimos anos”, declarou à Lusa o sociólogo e economista.

No âmbito do estudo “Mudanças e globalização na Baixa pombalina”, que faz uma comparação entre a atualidade – dados de 2016 e do início de 2017 – e um levantamento realizado entre 2008 e 2012, Guilherme Pereira verificou que das 900 lojas hoje observadas (junho e julho 2016), 50% já existiam entre 2010 e 2012, 45% são novas e as restantes 5% não foi possível apurar a data de abertura.

“As ruas do Ouro, Augusta e da Prata foi onde encerraram mais estabelecimentos – 43 dos 105 encerrados entre 2010 e 2016 e as novas lojas surgiram predominantemente nestas mesmas ruas - Augusta, do Ouro e da Prata –, bem como nas da Madalena e Fanqueiros, o que no conjunto totaliza 51% das novas atividades abertas”, apurou o sociólogo e economista, através do estudo publicado este mês.

A maior parte das novas lojas da Baixa estão instaladas em prédios não reabilitados, enquanto “os edifícios renovados, na maioria das vezes por demolição integral do interior, são configurados e abertos para hotéis e não tanto para habitação nem comércio”, revelou o estudo.

De acordo com Guilherme Pereira, a ideia da realização do estudo surgiu em 2008 quando se pronunciava uma renovação da Baixa e estava em curso uma candidatura da Baixa e Chiado a património da Unesco, pelo que a atualização dos dados entre 2016 e o início de 2017 foi “um balanço das mudanças entretanto operadas, muito maiores do que se supunha à partida”.

“A observação quotidiana, de passagem, desperta a análise mais atenta e aí surgem revelações, que não se esperavam”, afirmou o autor do estudo, referindo o “enorme número de lojas de ‘souvenirs low-cost’, que se multiplicaram por 10 em seis anos, enquanto as de artesanato nacional se reduziram e as de artesanato de outros países quase desapareceram”.

Questionado sobre os principais problemas existentes atualmente na Baixa pombalina, o sociólogo e economista apontou “a reabilitação para uso e mercados externos, o despejo de comércios – mesmo se viáveis e em pleno funcionamento –, a saída de moradores por alta de rendas ou por não renovação de contratos de arrendamento, a subida de rendas e dos preços de venda para bolsas estrangeiras e não para o mercado local”.

Neste sentido, Guilherme Pereira alertou que a Baixa pombalina está a tornar-se numa “zona alheia à cidade, à semelhança de outros bairros de Lisboa”.

Como recomendações para os problemas apurados no estudo, o sociólogo e economista propõe a reforma da lei do arrendamento, a definição de cotas de áreas de construção permitidas e licenciadas para comércio, serviços, hotelaria e habitação, o condicionamento do alojamento local, a classificação de lojas com história, a aprovação de projetos de reabilitação urbana que salvaguardem uma parte de área residencial, de comércios e de serviços a preços e rendas condicentes com a economia e a população local, assim como a garantia e fiscalização da construção antissísmica.

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