Se alguém disser que vai a Angra do Heroísmo em meados de junho, o mais provável é que esteja interessado em ir às festas Sanjoaninas da cidade. Afinal de contas, esta é uma das maiores festas populares dos Açores, sendo motivo de orgulho para os seus anfitriões e um evento que atrai não só emigrantes, como turistas de todo o mundo. No entanto, houve quem estivesse na cidade por outros motivos.

Federico e Martina não são os típicos visitantes de uma cidade, tal como a forma como chegaram aos Açores é tudo menos comum. Instalado junto ao Porto das Pipas, na baía de Angra, o casal teve de atravessar o Atlântico de barco para aqui chegar. O plano até era fazer a travessia do oceano na sua inteireza, mas, amantes de mergulho como são, não podiam deixar passar a experiência de vestir os fatos de mergulho e sentir as águas açorianas.

Ele, um osteopata espanhol, ela, uma médica austríaca, conheceram-se na terra dele — Tenerife, nas Canárias —, mas moram na dela — Innsbruck, instalada nos Alpes. Como em todas as relações, há uma negociação, mesmo que tácita: falam a língua dele, mas dedicam-se à grande paixão dela, o mergulho. "Viemos para a Terceira porque sabíamos que era a melhor ilha para fazer mergulho”, explicou Federico, que trocou o surf por esta atividade por influência de Martina, isto apesar de ”não ser comum conhecer um continental a ensinar alguém de uma ilha a fazer mergulho", como viria a admitir.

Para muitos, fazer mergulho é por si só uma aventura. Para o casal, todavia, este foi apenas mais um episódio numa epopeia que se iniciou em novembro de 2018, quando os dois viajaram para a Patagónia, no sul do Chile. Depois de conhecerem esta extremidade do continente sul-americano, percorreram-no para norte, a pé, pelas cordilheiras dos Andes. Atravessados mais de 1000 quilómetros, o casal decidiu fazer o resto de autocarro até chegar às Caraíbas.

Estava na altura de voltar para casa, só que como apanhar avião estava fora de questão “por causa das emissões de CO2", Federico diz que preferiram ir de barco. Colocava-se então um desafio: é que tanto um como o outro são aventureiros, mas não marinheiros. Sem experiência de navegação, a solução teria de passar por ir à boleia com algum navio. Para tal, colocaram um anúncio online onde revelavam quem eram e quais as suas profissões. "O facto da Martina ser médica e eu terapeuta deu-nos alguns pontos. Ambos sermos bons cozinheiros também ajudou!" admitiu o espanhol. Por fim, um “skipper” (capitão) holandês fez-lhes uma entrevista e acolheu-os no veleiro que ia comandar na jornada transatlântica.

Convidados nesta embarcação, os dois tiveram de assumir vigias como o resto da tripulação, consistindo estas em olhar para o horizonte à procura de luzes de outros barcos para evitar colisões. A viagem foi prazenteira o quanto baste, mas teve momentos assustadores. Federico relata uma noite que tinha todas as condições para ser romântica, em que a lua "pousava no horizonte como um queijo gigante". O problema é que levantou-se de tal forma o vento que começaram a ver esse dito queijo às voltas, dado que o veleiro começou a andar à roda."Chegou a ser um bocadinho assustador, mas no fim foi uma boa experiência e até viciante. Vou querer fazer mais navegação com um clima pouco confortável, porque é quando se aprende mais", disse o espanhol. Marina já não estava perto para concordar ou dizer ao namorado para ganhar juízo.

Admitindo sentir-se já um pouco cansado, Federico contou que a última etapa passava por voltar a casa, com uma paragem em Sevilha. Mas antes o casal queria apreciar esta ilha açoriana, onde pediram ao “skipper” para os deixar. Foi aqui onde os seus passos se cruzaram com os do autor deste texto.

Um batismo num navio naufragado, um bálsamo de tranquilidade junto a uma cidade em festa

Há alturas da vida em que se é confrontado com certas propostas que têm de tanto de irrecusável como de intimidante. Ficando a conhecer a história de Federico e Martina, surgiu um convite quase como um canto de sereia: “Amanhã queres vir com eles fazer mergulho, daquele à garrafa?" “Não sei, eu nunca o fiz na vida”, foi a resposta hesitante, vestindo uma farsa de responsabilidade, quase que a dar a conversa por terminada. É tão mais fácil fazer entrevistas fora de água. “Não te preocupes, vais acompanhado e não precisas de fazer nada”, foi o golpe final que desarmou qualquer tentativa de negar o convite.

É claro que a primeira coisa que se pensa às 8:45 de um sábado de manhã a caminho do Porto das Pipas é “porque é que aceitaste? A esta hora? Com esta forma física?! Estás maluco?!”. A tarde já seria por si só animada: ia haver uma regata, por isso, a sede de mar já ia ser saciada de qualquer das formas. Engole-se em seco e pensa-se na história que se quer escrever, vai valer a pena.

Felizmente, para dar uma dose saudável de confiança aos procedimentos, a cargo desta atividade estavam Nuno Oliveira e António Silva, os sócios da Deep Blue, uma das empresas que proporciona experiências de mergulho em Angra do Heroísmo. Antes do mergulho, o "briefing". Não é longo, mas é crucial, afinal de contas mergulhar é lutar contra os elementos. Entre a ausência de oxigénio e a pressão barométrica, venha o diabo e escolha. O Homem não foi feito para submergir a mais de 10 metros, mas teve o engenho suficiente de arranjar aparato tecnológico para o fazer. Fora do seu meio, o que o separa de um destino incerto em plena imersão são as suas ferramentas e há vários passos a ter em conta.

Nuno explicou os detalhes, mas acabou por assegurar que para ter uma experiência segura de mergulho, na verdade, bastava não se fazer qualquer disparate, que ele seria o guia responsável por este "batismo", situação em que alguém sem prática é conduzida a uma experiência de mergulho com acompanhamento. De resto, nem haveria espaço para “chico-espertices”: é proibido fazer mergulho autónomo com garrafa sem uma certificação, algo que tanto Martina e Federico possuem. Afinal de contas, este foi o 136º mergulho da austríaca, o 5º para o espanhol, a habituar-se a estas andanças.

Já com o equipamento todo, verificado uma e outra vez, a equipa preparou-se para descer ao fundo do oceano, seguindo o jornalista, o casal, o guia Nuno e António, e a fotógrafa, para registar a expedição. No momento certo, foi dado ordem de marcha aos mergulhadores: é deixarem-se cair para trás, já que as barbatanas não permitem grande mobilidade de pé. É durante essa derradeira cambalhota que se tem os últimos milésimos de segundo para refletir na escolha. Tarde de mais. À volta é só água. Diz-se que os oceanos têm tanto por explorar quando o espaço sideral, mas a comparação não se fica só por aqui. É que, à exceção de flutuar em gravidade zero, talvez não exista experiência mais alienígena do que mergulhar.

Os primeiros minutos são de adaptação. Há que habituar-se a respirar através de uma boqueira, dar “estalidos” nos ouvidos para aliviar a pressão e aprender a expulsar a água da máscara, pressionando a parte de cima com mão para criar uma abertura por baixo por onde nariz irá expirar. No entanto, a lição mais importante é mesmo fazer das barbatanas uma extensão do corpo, especialmente porque não convém usar muito os braços — não vá um deles inadvertidamente mexer num cabo que deixe a cabeça roxa.

Ainda assim, apesar de todas as advertências e informações, uma pessoa nunca está mesmo preparada para mergulhar, o corpo nunca responde como se está à espera. Fazer um batismo de mergulho é uma experiência humilhante, não no sentido depreciativo regularmente utilizado, mas na forma como cria humildade no desamparo. Mesmo para quem se gaba nas suas capacidades de natação, nadar com tamanha parafernália presa ao corpo faz dos fortes fracos se não contarem com a prática do seu lado. Nada disto afetou Martina e Federico. A repetição afasta a estranheza, e ambos já tinham horas de mergulho suficientes para ir explorando as redondezas a seu bel-prazer, sem se afastarem muito, no entanto.

A um jornalista sem experiência prévia, restou-lhe ir acompanhando o safari submerso pela mão de Nuno, mantendo os olhos bem curiosos em busca de memórias para levar para casa, numa experiência simultaneamente desconcertante e maravilhosa. Fora os movimentos inquisitivos dos corpos invasores àquele cenário, cobertos de neoprene e plástico, reinava a harmonia debaixo de água. Algas abanavam-se gentilmente em movimentos repetidos como árvores, mas sem vento, e cardumes de peixes surgiam a bailar num corrupio, ao som de uma sinfonia subaquática que apenas eles ouviam. À exceção do som da própria respiração, o mais puro silêncio imperava.

Salemas, abróteas, sargos, salmonetes, rasgaços, peixes-rei e rainha e uma corte de outras espécies acompanharam este comboio num trajeto que começou numa secção menos profunda e rochosa. A primeira paragem foi uma âncora afundada, passando por uma planície arenosa onde solhas e peixes-lagarto davam uso à sua camuflagem. Dali, contudo, já davam para ver os contornos do nosso grande ponto de interesse, o “Lidador”.

Tendo deixado a sua carcaça para contar a história, este foi um navio a vapor e à vela que sofreu um terrível destino quando parou ao largo de Angra do Heroísmo, em 1878, para fazer escala numa viagem entre o Rio de Janeiro e Lisboa. Um temporal levou-o a colidir com um recife, afundando-se ao largo da cidade. Salvaram-se os ocupantes, mas não a embarcação, que agora repousa tranquilamente e é casa de inúmeros animais e plantas, de búzios gigantes a estrelas do mar.

Foi junto ao monte de metal retorcido que decorreu um dos mais excitantes momentos da viagem, quando um congro decidiu meter a sua enorme cabeça de fora de uma reentrância do navio. Sem precisar de dizer nada, declarou-nos inconvenientes e deixou claro que a nossa impertinência não era bem vinda. Outras fossas e buracos se seguiram, cada qual com peixes surpreendentes e surpreendidos.

Findada a exploração do “Lidador”, houve tempo para importunar outro congro dentro de um enorme tubo de metal nas redondezas, antes de ver a crueldade da natureza em ação, ao assistir a uma garoupa em plena caçada.

No caminho de volta ao bote, houve espaço para refletir e medir os prós e os contras. Se por um lado não houve sinal das curiosas formas dos polvos ou raias, ao menos as medusas e as caravelas portuguesas também tinham estado ausentes. A subida fez-se ao ecoar interno de um cliché, “já?!. Sim, já tinha terminado. Debaixo de água o o conceito de tempo escapa-nos, mas o ar comprimido precisava de racionamento e a vida continuava lá fora. A cidade, essa encontrava-se em festa, mas para moderar o êxtase, nada como estar suspenso em tranquilidade.

Da parte do casal, uma palavra — "incrível" — e uma queixa menor, já que Martina considerara a experiência muito fria por comparação às águas paradisíacas do Mar do Caribe, onde ambos tinha feito o último mergulho. Nada que os demovesse, já que nessa mesma tarde iriam repetir a dose, provando que as expectativas estavam a ser mais do que cumpridas. Da parte do jornalista que os acompanhou, idem. Fez-se o “batismo do mergulho”, venha o crisma.

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