“É um álbum temático, orgânico”, disse à agência Lusa Rão Kyao, argumentando que é “uma obra única” que deve ser “escutada no seu todo”, tratando-se de “uma peça instrumental sobre o mundo das ideias de Gandhi”.

O álbum “Gandhi – Um Português Homenageia Gandhi” surgiu de “uma elaboração filosófica ou religiosa”, e não tanto como um acompanhamento biográfico do pacifista, apesar de alguns temas aludirem a etapas da sua vida que foram essenciais para a Índia, como “Marcha do Sal”, numa referência à “caminhada organizada por Gandhi [em março de 1939], que juntou 30.000 pessoas até às salinas para demonstrar o direito do povo indiano ao seu próprio sal, dentro da lógica do retorno às origens”.

Neste álbum, Rão Kyao toca uma flauta de bambu e tem como acompanhantes, entre outros, os músicos Bernardo Couto, na guitarra portuguesa, Carlos Lopes, no acordeão, Renato Silva Júnior, no harmónio e outros teclados, Ruca Rebordão, na percussão, e Toni Lago Pinto, em guitarra clássica e na viola braguesa, além da participação especial do Coro Cantar Glória.

O músico, de 73 anos, defendeu “uma maior atenção aos ensinamentos de Gandhi”, referindo o seu “altruísmo” e o “princípio não açambarcador”.

“O mundo precisa da filosofia de Gandhi”, sentenciou Kyao.

Este projeto musical partiu de um desafio lançado pelas autoridades indianas a músicos de 124 países, para reinterpretar um tema que Gandhi apreciava muito, “Vaishnav Jan to Tene Kahiye”, e que se tornou um hino para o povo indiano.

Este tema, “que nos traz um ensinamento belo e profundo sobre a conduta e grandes opções da Humanidade em geral”, é uma das dez composições que constituem o álbum.

“Vaishnav Jan to Tene Kahiye” é uma versão Instrumental de “bhajan”, uma melodia devocional, do século XV, que foi composta pelo poeta indiano Narsinh Mehta (1414-1481), gravado com arranjos de Rão Kyao, autor dos restantes nove temas do álbum.

Em declarações à Lusa, Rão Kyao afirmou que a sua inspiração reside nos ensinamentos deixados por Gandhi, sendo “uma composição emocional”.

O “Respeito pela Natureza” é uma das temáticas abordadas pela flauta de Rão Kyao que, neste álbum, propõe também uma reflexão mística: “Deus é amor”, como declara outro tema.

Kyao referiu que não se pode observar as religiões como estanques ou motivo de confrontos, como, aliás, defendeu Gandhi, o lider que “tinha como um dos livros de cabeceira a ‘Imitação de Cristo'”, apontou o músico, destacando um dos mais significativos tratados de moral cristã, publicado no século XV, de autoria do monge germânico Tomás de Kempis.

“Cristo é a mensagem, Gandhi é o método”, defendeu Rão Kyao, expressão a que alude no tema “Misericórdia”.

Outro ensinamento de Gandhi é a “autossuficiência”, que Kyao aborda no tema “Regresso às Origens”. O músico lembrou à Lusa que o líder indiano tecia as suas próprias roupas.

“É preciso que regressemos às origens, olhando para o que é universal, sem esquecer as especificidades e aquilo que nos distingue. Isso ilustra a minha postura em relação à música”, afirmou.

Sobre a sua composição, Rão Kyao disse ter feito uma escolha “mais universal, entregando a melodia e tentando segui-la”, podendo-se encontrar referências portuguesas. “Estão lá as minhas origens”, disse, afirmando que sente delas “um orgulho aberto”.

A “paz” foi uma questão central da vida de Gandhi, que sempre defendeu a não-violência, até como forma de resistência aos colonizadores ingleses.

Uma resposta de Gandhi, “A paz é o caminho”, serviu de mote a Kyao para outro tema.

“Certa vez perguntaram a Gandhi quais eram os caminhos para a paz, e ele respondeu: ‘Não há caminhos para a paz, a paz é o caminho'”.

O álbum encerra com “Mahatma”, que significa “alma grande”, a fórmula como os indianos e o mundo inteiro se referem a Gandhi, “Mahatma Gandhi”, tal foi “grande e importante o seu legado, que deixou muitos filhos espirituais, um deles Martin Luther King [1929-1968]”, o pastor batista e líder do movimento dos direitos civis nos Estados Unidos.

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