Globos de Lata 

De há uns anos para cá os Globos de Ouro tornaram-se uma antevisão daquilo que podemos esperar dos Óscares. É aquele evento giro que combina cinema e televisão e que nas melhores edições tem o Ricky Gervais a apresentar os vencedores e a gozar com uma audiência composta pelas maiores estrelas da atualidade. Durante uma cerimónia de três horas, se tudo correr bem, ficamos com a sensação dos filmes e atores que vão estar a discutir os prémios da Academia e ainda descobrimos uma ou outra série que pode valer a pena dar uma oportunidade.

Os primeiros Globos de Ouro foram atribuídos em janeiro de 1945, poucos meses antes do fim da II Guerra Mundial. O cinema falado era cada vez mais a regra e a Hollywood Foreign Press (associação de jornalistas estrangeiros em Hollywood) decidiu que era uma boa altura para que este grupo pudesse premiar o melhor que estava a ser feito no grande ecrã. Já tinha havido uma cerimónia mais pequena no ano anterior, mas esta foi a primeira a incluir a entrega dos famosos globos dourados, um símbolo da universalidade da sétima arte e da diversidade de jornalistas que discutiam quem seriam os vencedores.

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Em 1951, os prémios para filmes e atores passaram a estar divididos em categorias de Drama e categorias de Comédia, como hoje ainda observamos. Só a partir de 1957 é que a televisão também passou a fazer parte da cerimónia e esta passou a ter um formato mais parecido àquele que encontramos atualmente. A pouco e pouco, os Globos de Ouro tornaram-se um dos momentos altos da Award Season, que em Hollywood corresponde ao trimestre do ano, em que semana sim, semana não, temos um evento a atribuir prémios.

O evento organizado pela Hollywood Foreign Press distinguia-se dos demais pela sua maior informalidade, sem perder a elegância. Ao juntar o créme de la créme de toda a indústria num único local, havia uma natural descontração de atores, realizadores e produtores que viam naquela ocasião uma oportunidade para estarem em contacto com colegas e amigos que durante o ano não conseguiam pôr a vista em cima. Ao longo dos anos, são vários os episódios de atores e atrizes com os copos a mais, seja na altura de receber os prémios, seja quando estavam sentados nas suas mesas a assistir a discursos demasiado longos.

No entanto, no meio de todo o humor e boa disposição, os Globos de Ouro também tiveram a sua quota-parte de polémicas nos últimos tempos. Em primeiro lugar, ironicamente, começaram a ser apontados à Hollywood Foreign Press problemas de representatividade pelo facto de nenhum dos seus 87 membros ser negro. Em segundo, diversas atrizes reclamaram com o sexismo a que eram sujeitas em muitos momentos do evento pela organização, seja pelas questões de jornalistas seja pela própria interação com membros da associação. Em terceiro lugar, estavam também os problemas financeiros da associação e a suspeita de que aceitava que certos prémios fossem comprados pelas produtoras por detrás dos filmes e séries. Por último, havia também a tendência (comum a todas as cerimónias de prémios) que era cada vez menos pessoas a ver os Globos de Ouro, ano após ano, o que tornava o evento menos atrativo para canais de televisão interessados em comprar os seus direitos de transmissão.

E depois chegou o covid. As produções de filmes e séries foram interrompidas, as datas de lançamento adiadas e o fator presencial essencial a estas cerimónias de prémios passou a ser um desafio. Em 2021, os Globos de Ouro aconteceram na mesma, embora com uma escala mais pequena, mas tiveram um resultado desastroso: nos EUA, apenas 7 milhões de pessoas viram os prémios versus os quase 19 milhões que tinham visto na edição anterior. Uns argumentaram que tal se devia à fraca qualidade de filmes que tinham estreado, maioritariamente no streaming, dado que os cinemas tiveram com acesso restrito durante vários meses. Outros argumentaram que era um sinal de algum cansaço com o evento, fosse pela duração de três horas, fosse pelos problemas que enumerei.

Em 2022, o pior cenário concretizou-se. Depois de meses de conversações com produtoras para levarem os seus atores à cerimónia e de inúmeras negociações com canais de televisão, ninguém queria nada com os Globos de Ouro. Na edição deste ano, não houve atores embriagados, vestidos da Versace no tapete vermelho e discursos de aceitação dos prémios. Não houve apresentador com piadas no bolso, aplausos da audiência nem pausas para publicidade. A cerimónia decorreu muito calmamente só com membros da Hollywood Foreign Press e os vencedores foram sendo anunciados, em direto, através de publicações nas redes sociais (ver aqui quem ganhou).

"The Power of The Dog" e "West Side Story" foram os grandes vencedores nos filmes, "Succession" recebeu bastante amor em diversas categorias e Andrew Garfield continuou a sua senda de vitórias conseguindo o seu primeiro Globo de Ouro com "Tick Tick… Boom". Nenhum dos envolvidos foi receber as honras pessoalmente, mas imaginamos que tenham recebido as estatuetas em casa.

Concluindo, há futuro para os Globos de Ouro? Talvez. Esta edição pode ter sido um abrir de olhos para a necessidade de resolver os problemas existentes e de repensar o formato no qual os prémios são atribuídos. E isto é verdade tanto para os Globos como para as outras cerimónias, nomeadamente os Óscares. A facilidade com que a nossa atenção é desviada é cada vez maior e portanto se estes eventos quiserem manter-se relevantes terão de se reinventar e dar-nos umas razões para ficarmos umas horas diante da televisão.

Sugestões da semana

"The Tender Bar" - realizado por George Clooney e com um Ben Affleck que esteve nomeado para o Globo de Ouro de Melhor Ator Secundário, conta a história do escritor americano J.R. Moehringer, que cresceu nos anos 70 em Nova Iorque com um pai ausente e que com a ajuda do tio (Affleck) e da família conseguiu entrar em Direito na Universidade de Yale, ser contratado pelo The New York Times e finalmente seguir a carreira de autor. É um filme sobre lições de vida, sobre fracasso e sobre vocação. Disponível na Prime Video.

"Licorice Pizza" - este filme marca o regresso de Paul Thomas Anderson (“Magnolia”, “There Will Be Blood”) e em termos de ambiente é muito parecido com “The Tender Bar”, visto que também aborda a história de amor que acontece nos anos 70. Está mais perto de uma comédia romântica do que de um drama e tem a premissa incrível de nos mostrar um jovem de 15 anos a tentar conquistar uma rapariga de 25. Está incrivelmente bem escrito e filmado e conta com a participação de Alana Haim (e das irmãs que compõem a banda Haim), de Bradley Cooper e de Sean Penn. A longa-metragem esteve nomeada para 4 Globos de Ouro - Melhor Argumento e Melhor Filme, Ator e Atriz de Comédia - mas não saiu vitoriosa em nenhuma. Está disponível em salas de cinema de norte a sul do país (vê aqui).

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